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Instruções de como se comportar num desencontro


Não podia ser um encontro qualquer. Deveria ser algo inusitado, inesperado, imprevisível. Na verdade nem encontro seria: não havia a espera de fato e nem a presença requerida. Mas existia o fato. Haveria o encontro.
Seguindo a cartilha de como subir uma escada e como se comportar num funeral e mais o prefácio de como dar corda no relógio, não pude deixar de notar que o tal Julio se encontrava atrasado. Havia sim a possibilidade de falta de corda no relógio.
Tínhamos marcado este encontro neste que talvez seria seu ano internacional em Rosário, Argentina se bem que ele havia dito que preferia em Bruxelas sua cidade natal. Havia ainda a possibilidade de encontrar aqui mesmo em São Paulo, Brasil todavia isso só poderia acontecer daqui um mês. Pessoa bastante ocupada este Julio. Acabei por adormecer no banco da praça.
Julio chegou fumando cigarro. Nunca perdera o hábito. Tinha vários livros em baixo do braço e estava desesperadamente acenando para uma bela morena que passava. Mal percebeu que eu estava ali sentado a sua espera.
- E ai Julio? Que passa? Enquanto estava aqui passou um cronópio te procurado. Dizia que tinha que dar a um fama alguma coisa para conservar recordações. Você sabe do que se trata?
- Si, si. Os crónopios estão sempre andando de lá para cá. Hoje em dia cronópios tomam ônibus com bilhete único. Olham para o relógio para não perder a hora. Viu como uma hora faz diferença? Mas afinal o que se trata? Nem era para eu estar aqui.
- Estava com o Todos os fogos o fogo na cabeça. Dirigia na auto-estrada do sul ou tentava dirigir quando vi aquela moça do Dauphine. Me apaixonei por ela.
- E o que eu tenho a ver com isso? Problema seu. O que escrevo já a mim não pertence.
- Nada. Apenas queria saber se podia...
- E porque não poderia? Julio já se mostrava impaciente, olhando sempre para aquele relógio de bolso mais parecendo o coelho de Alice que o grande escritor argentino.
- Eu sei lá... Olha. Estou aqui por que me pediram. Tinha que encontrar contigo e você chega assim deste jeito todo desconfiado, com esta cara que o mundo esta péssimo, querendo brigar com todos a sua volta...
- Eu sou assim mesmo. Estava tranqüilo no meu canto e disseram que eu tinha que vir aqui para este desencontro literário. Chego aqui e mal vejo um escritor a minha frente. Parece mais um anti-projeto de o que um escritor não deve ser. Veja. Isso que você acabou de escrever nem parece crônica ou conto. Eu nunca colocaria diálogos assim. Que pobreza de texto. Se bem que gostei do começo. Se você mudasse estes diálogos...
- A é? Pois você é que vai passar bem, na verdade você já passou e nem Nobel ganhou. Pode deixar que eu serei o próximo, você vai ver.
E com a cara mais lavada do mundo mostrei o sinal de banana querendo mostrar outro pior.
Lorenzo Giuliano Ferrari
Enviado por Lorenzo Giuliano Ferrari em 28/10/2007
Código do texto: T713164
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Sobre o autor
Lorenzo Giuliano Ferrari
São Paulo - São Paulo - Brasil, 54 anos
1817 textos (50954 leituras)
1 áudios (2457 audições)
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Lorenzo Giuliano Ferrari