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SORDIDEZ (Anderson Fabiano)

Sordidez
(Nem prosa, nem crônica, apenas um desabafo)
 
Não sei como fazem algumas pessoas que brincam de Deus e reclamam as verdades para si, como uma prerrogativa própria, una e inquestionável, manipulada como um capricho que, como gravetos descendo o rio, são jogados de um lado para outro.
 
Não sei qual é o barato de se sentir dono de um pedaço da vida onde, sozinhos, não temos nem a platéia necessária para massagear o próprio ego.
 
Não sei porque essa minha gente, em princípio, tão igual a mim, abre mão da memória, como se a vida estivesse começando no exato instante do nascimento de suas vontades. Por mais que eu viva, não consigo entender como se pode abrir mão da História (ou pelo menos da própria história) e fingir que o tempo não nos ensinou nada.
 
Não creio na conveniência da vingança, do revanchismo ou da retaliação. Meu plano essencial escolhido como bússola, situa-se um pouco acima disso. Mas, não abro mão da lembrança de ter sido seqüestrado, torturado e humilhado por um estado de exceção, apenas por pensar diferente de uns poucos que, se auto-intitularam guardiões da verdade plena, do status quo.
 
Não matei, não roubei, não neguei pai e mãe e, ainda assim, tive a pureza da juventude dilacerada, a alegria partida e a fantasia interrompida e arrancada de mim pela truculência de gente que não se habilitou para debater no plano das idéias. Por isso e, principalmente, por todos aqueles que não têm mais voz sou, visceralmente, avesso a qualquer ato discricionário, privilégios impróprios e toda sorte de censura.
 
Sei das seqüelas, das mazelas, da privação das janelas que me mostrariam a vida com seus altos e baixos, o ir e vir das paixões, a arte dos encontros, apesar dos desencontros. Tenho menos conquistas e derrotas que àquelas que me foram destinadas. Restaram-me a consciência do papel cumprido e a paz do silêncio dos travesseiros, onde o diálogo do eu e o mim me reconforta com o prêmio indivisível da lealdade. É duro saber que meu tempo de vida não corresponde ao meu tempo na vida.
 
Vejo gente brincando de ser Deus e isso me causa profunda estranheza. Não por mim, mas pela pequenez das pessoas.
 
Confesso, sinceramente, não lembrar se já fui a Lua para ver como é pequeno esse nosso planeta. Mas, já fui muitas vezes ao fundo do mar, tanto no sentido poético, como no real. Já senti toneladas d’água sobre meu corpo, a agilidade dos peixes no seu habitat, a força das correntes e marés e posso afirmar: somos microscópicos.
 
Somos também estrelas e não há vergonha em ser uma estrela menor. Aliás, o Sol, em todo seu esplendor, mesmo sendo centro de um sistema, cercado de planetas por todos os lados, não passa de uma estrelinha merreca de quinta grandeza. Por isso, senhores algozes de plantão, não tentem roubar o oxigênio do mundo. Há muitos pulmões esperando por ele e lamento informar, ele não cabe por inteiro, nos seus pulmõezinhos, meramente, humanos. E a sordidez de seus gestos rouba até o brilho que vocês acreditam ter. Imaginem, então, o que faz com àquele a que vocês, verdadeiramente, fazem jus.
 
Não sou, não posso e não quero ser Deus. Satisfaz-me saber que sou filho Dele e que me foram confiados, dentre outros, os dons de pensar e dizer. Isso me basta.
anderson fabiano
Publicado no Recanto das Letras em 13/11/2007
Código do texto: T735391



Amigos, é uma honra para mim reproduzir aqui, pelo talento do autor e pela importância do tema, este brilhante texto do nosso amigo Anderson Fabiano.

Meu caro Anderson, permita-me prestar-lhe esta homenagem sincera, que você merece. Parabéns pela sua postura, poeta e parceiro.

Um fraterno abraço,

Mario.
Mario Roberto Guimarães
Enviado por Mario Roberto Guimarães em 14/11/2007
Reeditado em 27/07/2009
Código do texto: T736383
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Mario Roberto Guimarães
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 65 anos
1956 textos (231581 leituras)
2 áudios (631 audições)
1 e-livros (650 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/08/17 09:26)
Mario Roberto Guimarães