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O Exílio

 
            "..... e o tempo passa, sem que as coisas mudem"

Ainda hoje me lembro daquele ano. Teria eu motivos para lembrar?

O momento era de realizações. A idade alcançada com o tempo em desacordo com a aparência jovial, atribuía ao sonhador do qual falamos o desejo de novas conquistas.

O seu coração era livre, diferente de tudo que havia experimentado antes. Essa liberdade lhe permitia olhar as pessoas com bons olhos, sem orgulhos, rancores ou medo de alguma coisa.

Por que, em momentos assim, trocamos a liberdade pelo exílio?

O exílio se apresentou diante daquele jovem quando seus olhos deixaram de ver o todo para vislumbrar o único.  A única, assim ele a considerava.

Pedi para descrevê-la....eu tinha o direito de saber.

Ele dizia que seus olhos se fechavam ao sorrir. Seriam verdes? Como se eu pudesse responder...
A pele macia, os pêlos dourados.....o sorriso radiante, e os cabelos claros como a luz do dia.

No corpo, a delícia da juventude e alguns desenhos. Seriam “mapas” indicando caminhos até então desconhecidos? Ele sempre acreditou nisso.

Foram esses “mapas”, os olhos, o sorriso e principalmente a vergonha que levaram o jovem sonhador ao exílio.

A vergonha? Perguntei-lhe um dia. Não houve resposta. Seria vergonha de responder?

Um dia entendi. A vergonha não estava nele. O jovem sonhador não se envergonhava do que sentia, do que sonhava, do que planejava e muito menos do que queria.

Mas o que ele queria afinal? Eu sei. Hoje eu sei, mas na época não sabia.

Ele insistiu em dizer que sabia. Ele queria aquilo- que o Anjo possuía.

Cheguei a perguntar-lhe a respeito do Anjo. Um meio-sorriso triste me deixou com a certeza que não deveria ter perguntado.

A verdade é que ele queria o que o Anjo tinha em toda a sua essência. Por que não parte disso? Ele jamais admitiu pensar nessa possibilidade......ou tudo, ou nada.

Falei de inveja. Ele sorriu. Provoquei-o. Conheci o seu limite, ao falar dos “mapas”. Isso o machucava profundamente....admitiu. Desejou muitas vezes que o brilho do Anjo se apagasse totalmente, para nunca mais voltar a seguir a rota daqueles “mapas”.

Um pensamento insano. Tolo.

Quem garante que se não existisse o Anjo tudo seria diferente? Um pensamento sábio.

Exílio. No começo foi assim. Mas por que as coisas mudam?

O destino é inexorável, ele dizia. A necessidade de viver modifica o rumo das expectativas.

O tempo lhe trouxe o aprendizado: “viver sem ela”.

Voltou o sorriso. A alegria. A presença dela lhe fazia bem.......a ausência? Também.

Perguntei-lhe alguns anos depois. Acabou o sentimento?

Voltei a ver então, aquela velha chama do passado, nos olhos escuros do sonhador. Só então pude compreender que somos a mesma coisa. O futuro conversando com o passado.

A resposta, não me surpreendeu.

“Encontrei instantes de felicidade sem percorrer o caminho dos meus sonhos. Continuo na busca da felicidade plena e sei que para encontrá-la, deverei seguir um dia os “mapas”, que o tempo jamais apagará da minha memória”.
Fernando Antonio Salvador
Enviado por Fernando Antonio Salvador em 01/12/2007
Reeditado em 09/12/2007
Código do texto: T760857

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Sobre o autor
Fernando Antonio Salvador
São Paulo - São Paulo - Brasil
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