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Apenas um mal entendido

“Seu Mariano”, era agente de uma estação da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, no tempo ainda das locomotivas a vapor.
Muito simplório, havia galgado este posto agora no fim de sua carreira, mais pela dedicação e seriedade na profissão, do que mesmo pela sua competência. Havia cursado mal, mal, o curso primário e nele, não fora nenhuma assumidade. Conversava pouco e escrevia menos ainda.
Esta estação ficava no interior do Estado de Minas, numa cidade pequena, cujo nome agora me falha a memória. Perto dela funcionava uma oficina de reparos, da via permanente, isto é, da linha férrea (ou seja, dos trilhos e seus dormentes).
Como este trabalho era muito penoso, pois seus funcionários tinham muitas vezes que carregar por distâncias longínquas, ferramentas de pesos consideráveis, tais como pás, picaretas, garfos, puas gigantes, parafusos, chaves de boca e etc., a EFCB havia adotado, e isso já fazia muitos anos, o uso de uma carroça puxada por um burro, os quais, de propriedade da própria Estrada, para todo dia acompanhar estes trabalhadores até seus locais de trabalho.
“Malaquias”, era um burro bem tratado, e como sua função era apenas de transporte destes equipamentos, trabalhava somente na ida e na volta, passando o restante do dia, descansando. Em vista disso, envelhecera muito lentamente. Para um asno que no máximo vive trinta anos, “Malaquias”, já tinha batido este recorde há muito tempo. Pois fora admitido no quadro desta ferrovia, antes do velho Mariano, o atual agente da estação, sequer pensar em pertencê-lo.
“Malaquias”, viu muita gente aposentar. E era tão querido por eles, que muitos destes aposentados, quando encontrava-o pela rua, faziam carinho na sua cara, que ele agradecia qual um cachorrinho abanando a cauda.
Mas como tudo na vida tem um fim, chegou o dia de Malaquias partir para o “estábulo celeste”. E numa tarde então, puxando sua velha carroça de volta para a oficina de reparos, caiu de joelhos primeiro, para depois esticar suas pernas, num ultimo ato derradeiro e definitivo.
Todos os empregados correram para socorrê-lo, mas nada havia para se fazer. Pode parecer inacreditável, mas foi uma comoção geral entre aqueles funcionários presentes, houve até quem chorasse.
Um dos empregados foi até a estação para avisar “seu Mariano”, sobre o acontecido, e solicitar dele alguma providencia.
O velho então chorou copiosamente ao ser comunicado, e ficou a se  lembrar dos tempos em que também trabalhou na turma de reparos, e portanto, do tempo que conviveu com ele.
Mas, como agente daquela estação era o funcionário mais graduado, abaixo do engenheiro chefe residente. E como tal, tinha que tomar mesmo alguma decisão sobre o assunto. E com os olhos encharcados pelas lágrimas que vertiam, escreveu o seguinte bilhete para o citado engenheiro:

“ Dotô:
 O burro morreu e a carroça tá parada. Eu mando comprá ôtro, ou espero o sinhô  pra substituí ele”.


                                                    Agente Mariano
João de Assis
Enviado por João de Assis em 17/04/2005
Código do texto: T11696
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Sobre o autor
João de Assis
Cruzeiro - São Paulo - Brasil, 70 anos
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