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Apelidos e seus derivados (Lourenço)

        ALCUNHA e morfologia da palavra.
 
                Lourenço de Oliveira

Como surgem os apelidos? E por que eles “pegam”? Esta pergunta deveria ser direcionada, talvez, a um psicólogo. Mas não é preciso ser especialista para constatar que ele só vinga dentro de um contexto histórico e na área territorial onde se situa. Salesópolis tem alguém com talento especial para apelidar as pessoas. Se ele te apelidar, seu nome provavelmente já era – pois são raras as exceções. É o Cipó – Adilson Quirino.

Alguns apelidos se estendem até para irmãos – na forma original ou com variantes. Ex. local: Joãozinho Linguiça e Zé Linguiça; Furacão e Ventania; Zé Bagrinho e João Cambeva; Pedro Bento, João Bento e Zé Bento.

Alguns apelidos definem a origem do dono: Ceará, Paraná, Porangaba, Salé, Tatiaia. Os de nacionalidade vem acompanhados, geralmente, do nome principal: João Português, Paulo Português, etc...

Outros começam com o diminutivo ou o próprio nome de um patriarca e deixam, como herança, a personalização de uma família inteira. A família ROZENDO, também chamada de Roseno (João Rozendo, Chico Rozendo, Zé Rozendo, e outros) vem de Rozendo Gonçalves. A família BINO (Dito Bino, Geraldo Bino, Pedro Bino, e outros) vem de Felisbino. Dito Cláudio, Toninho Cláudio e todos os Claudinhos (como diz o Sírio Félix) vem do patriarca João Cláudio de Oliveira. Seus descendentes, a partir de seus filhos, perderam o Cláudio no cartório, mas continuaram com ele nas ruas. O mesmo ocorreu com outro galho da árvore genealógica da família, criando homônimos e suas conseqüentes confusões.

Interessante observar os eternos filhos da mãe, do pai, e os unidos pela aliança. Exageros à parte, eles existem realmente e é fácil constatar. Senão, vejamos alguns exemplos:

– filhos da mãe: João da Naia (Nair), Paulão da Conce (Conceição), Robertinho da Arminda, Serginho da Aurora, Zeca da Bitica (José Otávio Cáfaro – hoje, nome de rua).

– filhos do pai: Edmundo do Sírio, Jóca do Ruy (Costa – farmacêutico), João Édson do Silvino Raposa, Marcelo do Quico, Nelson/Nilson do Antenorzinho, Pedro do Tóte, Quinzinho do Rosa (Joaquim Rosa – na verdade Joaquim Souza), Ricardo do Odilon, Zé Maria do Pedro Tóte.

– unidos pela aliança: Ademir da Vera, Cota do Zé Xilim, Maria do Esquerdinha, Nena do Sírio, Nico da Lenita, Orlando da Cata, Rosa do Adilson, Vera do Sêne, Vera do Tola.

Inho, Dinho, Edinho, Zinho e Zito, são apelidos oriundos no diminutivo do próprio nome (Narcisinho, Fernandinho, Ariovaldinho, Édson, Joãozinho, Arturzito, etc) e começam com a própria mãe, na intimidade do lar, caindo, depois, no domínio público.

Bigode é muito popular e o motivo está literalmente na cara. Pelé virou marca mundialmente registrada, mas não começou com o rei do futebol e seria sinônimo de nêgo que, por sua vez, é alteração da palavra negro – embora este apelido nem sempre esteja relacionado com a cor da pele.

Alemão é usado generalizadamente para os loiros e, eventualmente, de forma carinhosamente irônica aos negros (haja vista aquele comercial da Goodyear). O contrário, portanto, faz parte das opções. Como “preta” para uma pessoa branca. É uma forma de gozação iniciada por um grupo de amigos que acaba, em alguns casos, virando apelido.

Quico vem de Chico, proveniente de Francisco. É comum, também, utilizar-se da terminação do nome, num forma diminutiva do próprio: Nei e Néia (de Claudinei, Rodnei, Claudinéia, Dionéia, Lucinéia, etc). Hoje em dia já se usa também o início do nome: Bê/Benê, Bi, Jú, Lú, Pri, Rô, Sô (Benedita/Benedito, Bianca, Juliana, Lucilene, Priscila, Rosângela, Rodrigo, Solange, etc) e terminações como Tô (Renato). A abreviação mais popular é Zé – embora seus donos nem sempre gostem de ser chamados assim. Os diminutivos também não são muito apreciados por eles – talvez se sintam diminuídos com isso. Mas é apenas uma forma carinhosa, como a maioria dos apelidos, e quem o expressa não atina para o sentido pejorativo que porventura possa ser atribuído à palavra: Ditinho (a), Carlinhos, Chiquinho(a), Cidinha, Claudinho, Edinho, Fernandinho, Joaninha, Joãozinho, Mariazinha, Marquinho, Miguelzinho, Paulinho, Pedrinho, Quinzinho, Ricardinho, Terezinha, Tianinha, Tiãozinho, Toninho, Totozinho, Zezinho.

O mais revoltado com o próprio apelido é o Prof. João Osmar. Seu apelido é FUTA – todos que o conhecem bem sabem disso. Sua origem estaria na língua italiana e teria começado com um expressão pejorativa que seu pai usava quando o chamava. O som de uma das palavras da expressão é “futa”, mas o significado é outro. Daí a sua indignação. Mas quem o chama assim, expressa apenas o carinho de uma intimidade reservada aos amigos e às pessoas que lhe querem bem. É uma simplificação carinhosa, embalada pelo hábito; não há nenhuma associação ou intenção no ato. Por isso deveria, na nossa opinião, exorcizar seu próprio fantasma bastando, para isso, aceitar o fato como consumado e irreversível. Não há, realmente, como mudar isso. Ao Dito Ronqueira, que sofre de um mal parecido, estendemos a sugestão. Aos Zés da vida, também! E a todos que se sintam, de alguma forma, prejudicados pelo apelido. Porque apelido é mais ou menos como cabelo: quem tem liso, quer crespo; quem tem crespo, quer liso. E quem não o tem, simplesmente tem algo a menos.

O apelido mais inusitado em Salesópolis é “Édson” (o Édson do “João Bolinha”). Seu nome verdadeiro é João Batista Moraes Júnior. Quando nasceu, sua mãe pediu ao marido para registrá-lo como Édson (na verdade, João Édson). Ele foi ao Cartório e registrou-o. Como João, simplesmente (sem o Édson)! Oficialmente seu nome é esse, mas sua mãe nunca deixou de chamá-lo pelo nome escolhido como principal – inclusive já no batizado, onde foi citado socialmente pela madrinha que sabia ser essa a verdadeira intenção da mãe. Depois ganhou outro apelido: Bola da Sabesp. Mas quem o conhece desde pequeno e acompanhou sua infância e adolescência pensa até hoje que seu nome verdadeiro é Édson.

O aumentativo do nome também é usado como alcunha: Carlão, Chicão, Cidão, Ditão, Marcão, Paulão, Pedrão, Tonhão, Zécão, Zézão. Mas o mais famoso, sem sombra de dúvida, é o Ricardão...
A Estância de Sallis
Enviado por A Estância de Sallis em 26/03/2006
Reeditado em 27/03/2006
Código do texto: T128806
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Sobre o autor
A Estância de Sallis
Salesópolis - São Paulo - Brasil
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