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APÓLOGO: O CARRO

Ela andava muito esquisita nos últimos dias. Estava olhando muito o caderno de automóveis. No trânsito, quando o semáforo fechava, tratava de pegar a caneta e circulava algo.
Foi assim por duas semanas, até que descobri o motivo:- o celular tocou e Ela atendeu, era alguém, perguntando sobre mim.
“-Sim, ela queria me vender. Quanto? R$14.800,00!!!"
Não acreditei que faria isso comigo, não depois de tudo o que havíamos passado juntos.
Perdi a conta de quantas vezes, cansadinho que estava, e ela querendo ir para algum lugar, nunca a deixava  na mão. Meus pneuzinhos ficavam carecas, mas eu não reclamava. Em quantos buracos ela me enfiou e eu saia de lá com prazer, para agora, do nada ela querer me vender? E pior, dizia com prazer, "olha, estou vendendo abaixo da tabela, então aproveite..." ,falava isso descaradamente, na minha frente!
Quanta ingratidão. Mas ela ia ver só...
No dia seguinte, não liguei quando ela deu a partida. Fiz birra. Ela me deu um tapa e me chamou de bosta. Antes era só amorzinho, “Pálio lindo da mamãe” e agora eu era um b....
Chorei algumas gotas de óleo pois não me contive. Quando ela deu a partida novamente, resolvi ligar, afinal precisava de um "ar" puro.
Agora ela só sabia falar de um tal de FOX. Era FOX pra lá, FOX pra cá. Que raiva!
        O que ele tinha que eu não? Por duas vezes a ouvi falar do seu acabamento interno, que tinha um espaço enorme e que era o maior compacto da categoria.
Eu sempre dei conta do recado. Quando íamos para a praia e ela me enchia de malas, eu servia. Até namorar dentro de mim ela já namorou. Pode?
Sábado irá me levar em uma feira. Talvez ganhe um novo dono. Será que vou me acostumar? E se ele não souber mudar as marchas com carinho, não sentar devagarinho e não me der um nome? Pior, já pensou se ele ficar com o pé direto na embreagem?
A ouvi dizendo, que o nome dele é Sr. Severo. Tem 65 anos de idade. Velho! Deve peidar pra chuchu quando tosse e carregar lenços com sujeira nos bolsos. Ah mundo cruel...


Chegou o esperado dia: ela vai me vender.
Sr. Severo chega, começa a me olhar e botar defeito em tudo que há em mim. Fala que eu já fui batido, que estou muito rodado, que meus bancos estão um tanto gastos, que pareço carro de vendedor etc.
        Eu já estava fulo da vida, mas para minha surpresa maior, ela disse:
“- Espera aí Sr., Sr., Sr.... Severino, né?"
“Meu carro não tá assim tão ruim não, viu? Esse Pálio é meu melhor amigo, já me tirou de cada buraco. Não reclama de nada e quer saber? Não vou vender mais! Passar bem!”
Entrou em mim e fomos embora. No caminho, resmungando baixinho ela falou:
“-Querendo depreciar meu carro para pagar menos? Comigo não! Você tá judiado, isso eu sei, mas só eu posso falar de você. Te amo meu "pois é" e não vou te vender mais”
Pelo menos por enquanto, pensou...
CRISTIANE DONIZETE
Enviado por CRISTIANE DONIZETE em 22/04/2006
Reeditado em 27/04/2006
Código do texto: T143637
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Sobre a autora
CRISTIANE DONIZETE
São Paulo - São Paulo - Brasil
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CRISTIANE DONIZETE