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A Desculpa

Sexta-feira

A professora de português da 6ª série estava passando entre as fileiras de uma de suas salas de aula pedindo para que seus alunos lhe mostrassem o dever de casa que ela havia passado na segunda feira. Quando chega a cadeira de Roberto, conhecido por seus amigos como Jorge a professora pergunta:
-Roberto, você fez o seu dever?
-Fiz sim. – Responde de pronto.
-E onde ele está? – Pergunta a professora enquanto procura o dever entre as folhas do caderno de Jorge.
-Professora, é o seguinte – começa Roberto contar sua história...

Segunda-feira

Depois da aula eu cheguei em casa e fui almoçar com meus pais. Tivemos bife com salada, arroz e feijão. E logo fui fazer o dever que a senhora mandou. Enquanto fazia o dever, senti algo puxando minha perna. Quando olhei de baixo da mesa não vi nada. Não dei importância e continuei a fazer o dever. Mas havia uma mancha negra nele quando recomecei a fazê-lo. Também não dei importância e terminei o dever. Logo depois fui brincar, pique-e-esconde, com meus amigos na rua.
Então quando finalmente voltei e jantei, tomei banho e fui para o meu quarto, notei que o dever estava perto da porta, pensei que o vento havia levado ele até lá, logo o peguei e coloquei em cima da mesa com o lápis em cima para não voar mais e fechei a janela do quarto. Momentos depois fui dormir.
  Tive um pesadelo estranho com um cara vermelho e chifrudo falando um português estranho e com uma grande capa preta, peito nu e uma bermuda florida. Acordei inúmeras vezes naquela noite e toda vez que voltava a dormir tinha o mesmo sonho dele me perseguindo.

Teça-feira

Terça quase que não fui à aula de sono. Mas depois que meu pai me deu uma cintada eu acordei logo e vim correndo para cá. A aula foi chata e dormi nela, mas dessa vez sem pesadelos.
No almoço tivemos feijoada e passei a tarde em casa passando mal por comer demais. Fiz os deveres do dia e assisti a muita tevê. Quando estava guardando o material, percebi que a mancha preta no seu dever tinha formado uma asa de morcego e até zombei dela.
O mesmo pesadelo de noite.

Quarta-feira

E o mesmo sono na quarta, a mesma cintada e a mesma corrida para escola.
No almoço tivemos... Não sei o que tivemos, mas não gostei, comi pouco. Não tive dever pra fazer na quarta, então eu fui jogar futebol na casa do visinho. Fiz três gols, um deles contra, mas a culpa foi do Arnoldo que deu um chute pra mim em vez de tocar!
Fui dormir de noite e dessa vez o pesadelo mudou, o cara vermelho não mais me perseguia, mas surfava comigo em um mar de lava fervente com grandes bolas de fogo caindo do céu.

Quinta-feira (agora que o bicho pega)

Quinta meu pai dormiu até tarde também então não fui à aula. Quando acordei e vi que era meio-dia, fiquei feliz da vida. Almocei bife com lingüiça e purê de batata. Quando saí na rua, tinha um cara de cabelos longos e maltratados, um chapéu de mexicano e um poncho. Carregava uma escopeta escondida atrás do poncho, calça jeans e camisa do Flamengo. Ao me ver, ele ergueu a outra mão que tinha uma luva negra revelando uma espada na sua cintura e disse:
-Alto, tu a quem chamam Jorge. Tu foste tocado pelas forças negras do inferno e deves procurar salvação.
Achei que ele ia me matar, mas então ele continuou:
-O dever que foste mandado fazer por aquela quem chama de professora de português foi profanado com a sombra do demônio! Rápido, antes que o mal se alastre por tua casa e tua família! Pega o dever e as sobras do almoço e vem comigo para purificar o teu dever de português.
Como ele falava estranho, achei que era realmente sério e fui logo pegar o que ele pediu. Dei o dever e o resto do almoço para ele. Ele guardou e dever debaixo do sombreiro e comeu rapidamente, como quem nunca comeu, o resto do almoço.
-Eu, este que te diz, adora uma boa lingüiça com purê de batata! Rápido para meu carro!
Correu para um celta preto enquanto retirava a chaves do carro do bolso. Fui com ele. Durante o caminho, com todo aquele ar de herói de uma tragédia grega, ele me disse que deveríamos procurar um tal de isqueiro divino. E fomos para a Asa Sul.
Chegamos na 313 Sul, bloco F. E descemos até a garagem. Ao entrar nela, um isqueiro dourado começou a brilhar no final do corredor de automóveis.
-Cuidado! Ó aquele que chamam de Jorge. Este corredor está repleto dos demônios que sabem nadar. Vieram do lago de fogo!-adivertiu-me o doido- Malditas criaturas!- acrescentou e cuspiu.
Tirou do porta-mala do celta uma outra espada e me entregou. Se posicionou com a espada desembainhada e com a escopeta mirada para o escuro da garagem e gritou:
-Saí criaturas dos infernos e enfrentai-nos, seus algozes divinos!
Eis que vejo centenas de miniaturas daquele que habitava meus sonhos, só que se vestiam diferente dele. Usavam apenas sungas verdes. Todos vieram em nossa direção e os primeiros foram abatidos pela escopeta, mas os outros chegaram e começamos a lutar cortando e estralhaçando todos os que chegavam perto de nós.
Não demorou muito para que nós nos separássemos, o meda que há pouco sentia, virou pavor, e do pavor virou alegria. A excitação da batalha entremeada por sons de tiros e de ossos se quebrando, gritos e o cheiro de enxofre que saia dos corpos mortos enquanto viravam pó em uma nuvem de fumaça e fogo.
Não demorou muito mais que 5 minutos, mas para mim pareceu uma eternidade para matarmos todos. Estava exausto e machucado pelos arranhões e dentadas por todo o meu corpo. Mas estava feliz e tremendo.
Fui até o final da garagem pegar o isqueiro sagrado. Ao tentar alcançá-lo um grande pilar de fogo surgiu entre nós dois e aquele demônio que habitava meus sonhos apareceu desse pilar quando se extinguiu. Devia ter uns dois metros e meio de altura. Carregava uma grande espada curva que no lado oposto do fio era serrilhada. Uma estocada daquela espada era meu fim. Pulei para trás e assumi posição de defesa. A fera retirou seus óculos escuros da Nike, jogou-os no chão e pisou em cima. Tinha um sorriso sarcástico no rosto e então ele me disse:
-Eram falsificados.
-Demônio! Você não vai me dominar, nem a mim nem a minha família!- Gritei para ele.
-Roberto, Roberto... Você não gostou de surfar no lago de fogo?
-Não!
-Então com sua morte irei celebrar meu reino na terra.
Atacou-me e me defendi, mas a força foi muito forte e quebrou meu braço. A espada estava no chão e só esperava o golpe de misericórdia quando ouvi um disparo e vi o gigante caindo em uma nuvem de fogo e fumaça.
-Ide! Jorge, vós tendes de ir e pegar o isqueiro mais santificado e queimar o possuído dever de português!- Gritou vocês sabem quem.
Ao pegar o isqueiro com a mão que me sobrou, o grande demônio apareceu e me atacou, porém o doido conseguiu me proteger. Pegou o dever debaixo do sombreiro que caiu no chão e me jogou o amaldiçoado. Consegui acender o isqueiro e queimar o dever de casa. Enquanto o dever queimava o demônio queimava junto.
Quando o doido me deixou em casa, entreguei o isqueiro para ele, ele agradeceu, disse que ia guardar em um lugar seguro e foi-se embora no seu celta. Dormi bem naquela noite.

Sexta-feira (a mesma que lá em cima)

-...Então foi isso que aconteceu professora.Tive que queimar o meu dever porque ele foi possuído por forças malignas.- Concluiu Jorge.
-Você não fez o dever, não é Roberto?- Insistiu a professora.
-Não.- Entristeceu-se nosso pequeno herói.


Nenhuma-feira.
BOI (Luciano Alencar)
Enviado por BOI (Luciano Alencar) em 04/06/2006
Código do texto: T169251
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
BOI (Luciano Alencar)
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 29 anos
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