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Cássia


  Quossapé era  a típica cidadezinha da região sul. Um ricaço, um cacique político, população de maioria caucasiana descendentes de italianos  e alemães . Comércio ativo pela agricultura e um pouco pelo turismo. Pouco a se fazer quando se sai da adolescência.

Cássia estava com vinte e um anos. Foi a Rainha do Morango dois anos atrás. Deixou-se seduzir por um dos filhos do ricaço, investindo numa relação que a levasse à igreja. Falhou.

O bucolismo da cidade a sufocava. Ela sabia de seu potencial de conquistar seus sonhos. Ali, era como pérola atirada aos porcos. Decidiu ir pra Blumenópolis.

Família radicalmente contra no início, chorosa no final. Parentes e amigos cumpriram toda a rotina de lhe darem roupas, pouco dinheiro e alguns endereços onde ela poderia ficar. Dona Leilinha  ainda lhe pediu um favor quando chegasse lá.

Cássia era dessas pessoas que o desconhecido não intimidava, pelo contrário, lhe estimulava a agarrar o destino pelo pescoço e fazê-lo seu criado. Sua angelical beleza escondia uma calculista guerreira. Enfim, tudo junto, era mulher pra quatrocentos talheres.

Em seu acanhado quarto da pensão, Cássia  concentrava-se nos diversos papeizinhos a sua frente. Depois foi até a janela, deu uma longa tragada no cigarro enquanto seu olhar se fixava no vazio. Ficou assim por um tempo até um leve sorriso lhe aflorar aos lábios e a cinza do cigarro se aproximar do filtro.

- Aqui trabalha o Paulo, de Quossapé – Cássia pergunta à funcionária de Recursos Humanos que lhe atende.
- Sim. O ponto dele é ao lado do Cine Odeon.- Responde à Cássia, recolhendo o formulário para pedido de emprego na firma que tinha diversos quiosques que vendia pipocas, guloseimas etc.

Ao fim da tarde Cássia foi até as cercanias do Odeon e de longe identificou Paulo. Ele tinha saído de Quossapé há quase dez anos atrás e devia estar por volta dos trinta anos. Depois de tanto tempo o máximo que conseguira fora ser vendedor de cachorro-quente.

-Idiota! – Murmurou Cássia com um muxoxo caminhando até o pequeno quiosque.

- Me vê uma coca?

Paulo vê a beldade alourada, olhos verdes e um sorriso largo de lábios polpudos encarando-o de um modo que mulher alguma tenha feito antes. Ele incorpora toda solicitude que há no mundo e em pouco tempo consegue o nome dela, onde mora e um pouco da história da vida dela. Ás dezoito horas ele foi substituído e ela esperou por ele. Saíram. Ela teve a iniciativa  de tomar-lhe a mão. Dez minutos depois ele tomou a iniciativa de beijá-la. Em poucos segundos se abraçavam freneticamente. Paulo não acreditava que tinha tanto poder de sedução assim, mas como ela era uma mocinha inocente do interior, ela imaginava todas as vantagens e favores que iria tirar dela.

De repente ela o afasta bruscamente, fechando a blusa com a bela face crispada em ódio. Paulo, assustado e frustrado faz a clássica pergunta.- O que foi...?

- Você está se aproveitando por eu simpatizar com você! Mas isso não vai resolver meus problemas! Eu preciso é de dinheiro pra resolvê-los... Me deixa ir, por favor!

- Não, não! Quê qué isso! – Paulo a segura em ambos os braços – Qualé o probrema?
- Isso mesmo que escutaste!

Paulo fazia mil elucubrações pra não perder aquela uvinha. Afinal se ela precisava de grana, ele prometeria tudo que ela pedisse e depois bláu bláu! Ele caía fora.
- Quanto que tu precisa?
- Quinhentos...- Cássia falou quase num sussurro temendo que Paulo fosse sair andando.
-Quinhentos? Quinhentinhas? Tá doida?

Cássia saiu caminhando enquanto abotoava a blusa. Paulo via sua gostosura escorregando de suas garras. O único jeito era dar um aplique.
-Tudo bem! Mas só que tu tem que esperar até o fim do mês. Aí ti pago. Legal?
-Pagar não? Você vai me dar. Não é mesmo? Promete? Promete?
-Claro, claro...

Dia seguinte, perto das dezoito horas, o sorriso de Cássia fez a protuberância de Paulo arder de antecipação. Então Cássia deu-lhe um banho de água fria. Disse-lhe que apesar de gostar muito de ter deitado com ele, não poderia mais fazer isso e que no final do mês ela viria pegar o dinheiro. Paulo estava confuso e embaraçado com suas duas pernas e um terço lhe atrapalhando os movimentos e provavelmente por isso disse: Ti dou o drobro!

Apesar do mau português e do péssimo carácter, Cássia se agradava dele. Paulo exultava por possuir aquela deusa toda certinha que falava tudo certinho como uma professorinha. No fundo, no fundo ela era mesmo uma putinha, pensava ele. Não era moça pra casar. E casar é pra otário. E o otário aqui era ela, que nunca iria ver a cor do dinheiro dele!

Deu seis e meia e nada! Paulo começou a sentir uma ponta de rejeição. Correu pro próximo orelhão. Cássia atendeu e quando soube que era ele, começou a soluçar. Embora canalha, Paulo se condoeu enquanto ela se autocomiserava, se sentindo suja, uma prostituta! Jamais voltaria a vê-lo!

Por um momento Paulo achou melhor que deveria parar por aí  e não mais vê-la. Mas, o demônio da luxuria lhe sussurrava no ouvido que mal teria em dar mais uma? O mundo era dos espertos! Que se foda a dor dela!
- Olha, não fica assim. No final do mês eu não vou te dar os mil real. Vou te dar mais duzentinhos, tá bem?
-Não! Sai da minha vida! – E Cássia desligou o telefone. Ficou olhando pro receptor contando os segundos. Antes de chegar em doze ele tocou. Ela deixou tocar cinco vezes e atendeu.
-Ti dou o drobro! O drobro, ouviu? O drobro!

Mesma seis e meia do dia seguinte. Paulo ria consigo mesmo. Ela estava se fazendo de difícil de novo. Ele lhe prometeria agora que se casaria com ela. Esperou dar sete horas e então ligou. O telefone tocou por longo tempo. Ele achou que tivesse discado errado. De novo ninguém atendia ao telefone. Ele resolveu ir até onde ela morava.

-Hei! Pra onde tu tá indo?
- Pra Quossapé. – Responde Cássia, entrando num carro.
-Quossapé? – Paulo pára surpreso – É lá que mora minha mãe, dona Leilinha...
- Eu sei. – Cássia diz já acomodada dentro do carro – Foi ela que me pediu pra ti entregar os dois mil reais...que você me deu!
E olhando pro motorista, Cássia finalizou: Pode ir Osmar!

Raferty
Enviado por Raferty em 04/06/2006
Código do texto: T169478
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Sobre o autor
Raferty
Santos - São Paulo - Brasil, 58 anos
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