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Pequena história de um queijo

Sou uma pessoa que sempre se cerca de todas as formas de proteção imagináveis. Por isso, antes do meu primeiro vôo de avião, fiz pesquisa sobre as possibilidades de catástrofe, até as estatísticas me convencerem de que eram realmente pequenas. Conversei com amigos que já haviam viajado, li sobre o funcionamento dos aviões, escolhi uma boa companhia aérea. E no dia D embarquei, mala de um lado, amiga do outro para dar apoio moral, em um vôo de 15 min Recife-João Pessoa.

“Você é adulta, aviões voam a 3 X 4 todos os dias e esta cia. é ótima. Não há razão para temer qualquer fatalidade”, foi o que ouvi. Bem, algumas fatalidades aconteceram.

Chego ao guichê e a atendente informa que meu vôo vai atrasar. Peço detalhes, enquanto ela insiste em repetir a informação com outras palavras, pedindo meu telefone, me chamando de “senhora “ pra aqui, “senhora” pra acolá... Atitudes respeitosas, quando vindas de quem não deseja ajudar, soam extremamente irônicas. Eu me pergunto onde estão aquelas moças simpáticas e eficientíssimas das propagandas da Telemar. Deviam ser elas pra atender a gente. Pelo menos não matam o cliente com gerundismo.

Mas eu queria falar do avião. Depois de usar toda a minha habilidade lingüística, consigo ser transferida para outro vôo no mesmo horário, onde coisas interessantes me aguardam.

Estou preparada. Embarco e planejo um cochilo. Assim, a viagem de 15 min fica mais curta e, se eu morrer, talvez nem fique sabendo. Infelizmente, o avião está lotado de barulhentos passageiros de até 9 anos de idade.

Pergunto à aeromoça se não errei e vim parar numa creche. Ela ri, me dando força. Abençoada seja.

Afinal, são apenas 15 min. Claro que é tempo suficiente para uma catástrofe acontecer, bombas atômicas devem matar populações inteiras em muito menos que isso, mas, caramba, é a primeira vez, não vou dar esse azar. É bem verdade que esse negócio de “primeira vez não dá azar” é engodo, as mães dos meus ilustres colegas de vôo podem ter pensado assim... E olha só as criancinhas aí, reais e saudáveis, chorando, correndo, fazendo necessidades fisiológicas, que bonitinho...Pois é, primeira vez não dá imunidade a ninguém, sobre nada, minha nossa senhora, o que é que eu estou fazendo aqui? Engravidar, não, mas morrer, tem chance. Vou escafeder, vou embora.

Mas a moça percebe e me conduz de volta à poltrona D5, como se eu tivesse 6 anos. Amarra meu cinto. Uma voz anuncia a decolagem. Tudo transcorre sem problemas. Outra voz fala ao microfone.

“A cia. tal gostaria de sortear entre os passageiros uma lembrança de nosso vôo: um queijo suíço. E, atenção, o queijo vai para o passageiro sentado na poltrona D5”.

D5? Ganhei. Ganhei! Vou lá...

“Repito, passageiro B – de bola - 5. Para evitar controvérsias”.

Controvérsias não evitadas. Com os glúteos já no ar, finjo que me levantei para alongar e volto à poltrona. Minha vizinha do outro lado do corredor, com um bebê indeciso entre chorar e gritar, levanta-se e vai buscar o prêmio, recebe o queijo nas mãos e começa a preencher um formulário assegurando que o recebeu. Mas, de repente...

- Opa, perae que o queijo é meu, viss...

Todos os olhares se viram para o sujeito sentado na poltrona ao lado da dela.

- Nós trocamos, lembra? Esta poltrona onde eu estou era da sra. e a sra. pediu pra trocar porque estava com criança e queria o corredor. Mas quem comprou a passagem fui eu.
A aeromoça fica confusa, a mulher indignada. Passageiros começam a se manifestar. “Dá pra ela! Cadê o cavalheirismo?”. “Dá pra ele, ele comprou a passagem”. “Por que essa briga, isso é falta de Deus, cadê a palavra do Senhor...”.

- Senhores – a aeromoça tentando tomar o controle da situação - quanto à questão do queijo...

- Sim, MEU queijo, pois não?

O avião inteiro (menos o piloto, espero) volta o rosto para a última poltrona do corredor. É um senhor de lucidez duvidosa, agarrado a uma latinha de skol.

- Antes de trocar com o rapaz aí, a senhora trocou comigo. Portanto, é meu o queijo.

A mulher impaciente solta que o homem até que gostou da troca, porque queria ir para o rabo do avião encher o r... A cara. Aí, baixou o nível.

- Isso que dá viajar com bêbado...

- Unhêêêê...

- Ó, se quiser que eu mostre o papelzinho da passagem que eu comprei...
- Buááá...

- Minha senhora...

- O quê?

- CALE A BOCA deste menino, pelo amor de Deus!
E as crianças chorando a uma altura que eu nunca imaginei ser possível. A tripulação se amontoava a um canto, a aeromoça tentava manter a compostura, pedindo que chegássemos a um consenso.

- Eu tenho uma idéia para um consenso.

Mais uma vez giramos o pescoço, voltando ao vizinho da mulher com a máquina de choro.

- Seguinte: já se passaram 12 min, e daqui a pouco o avião vai pousar. Enquanto vocês brigavam, eu preenchi o formulário, de modo que o queijo é meu. Não dá tempo de mudar mais nada. E fica justo assim: o sr. com sua latinha, a sra. com seu menino e eu com meu queijo.

A aeromoça correu ao microfone, anunciou o prêmio, e deu as instruções de sempre, sob uma chuva de palmas e um ou outro protesto.

Desembarcamos. O homem do fundo com sua latinha, a mulher com seu menino, o rapaz com seu queijo, e eu com minha vida, que era tudo o que eu queria, graças a Deus. Além do prazer de pisar na terra onde o Sol nasce primeiro e, é claro, de contar essa história.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 06/06/2006
Código do texto: T170694
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
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Jéssica Callou