As aventuras de Tonico - Uma pinga na madrugada...

      Nos meus tempos de cachaceiro safado, eu era muito guloso por uma pinga. Não me conformava com alguns goles ou em ficar um pouquinho inspirado ou alegre. Não, se tomasse a primeira, bebia até me apagar completamente.
      Uma noite, perambulei por quase todos os bares da orla marítima de São Luís. Eram duas horas da madrugada e os últimos trocados que eu tinha gastei-os numa corrida de táxi que me levou até a minha casa. Quando o táxi me deixou na calçada, eu fiquei parado, espiando para os lados para ver se encontrava algum barzinho aberto. Era muito conhecido no bairro e, com certeza, me venderiam uns goles fiado. Mas estava tudo fechado. De repente, ouvi batuque de tambores. Lembrei-me de que havia um terecô ali no bairro e, pelo visto, estava em pleno funcionamento! E lá, eu sabia, corria uma cachaça esperta.
      Fui bater lá. O negócio estava bastante animado. Atrás dos batedores de tambor e embaixo de uma mesa, havia uma caixa de isopor e logo percebi que era lá que estava “a criança”, pois vários participantes do terecô  de vez em quando, abaixavam-se ali.
      O que eu tinha que fazer era receber um "encantado” para entrar no terreiro e poder bicar a cana. Cabra safado, muito dado a presepadas, especialmente quando estava com umas e outras na cabeça, não pensei duas vezes. Dei um “Urrrre!” alto e pulei para o meio do terreiro. O pessoal me olhou espantado, mas o chefe do terreiro sorriu satisfeito: um assistente tinha sido tomado por espíritos, o que provava que a vibração espiritual do terreiro era contagiante.
      Comecei a dançar, a rodopiar e daí a mais alguns minutos, cheguei lá na caixa de isopor. Havia três garrafas de cachaça, uma das quais já pela metade. Dei uma boa golada e voltei para o meio do terreiro. Mas o meu “encantado” era insaciável. Dançava um pouquinho e corria logo para a garrafa. Depois de suas muitas idas e vindas, o chefe do terreiro, mulato alto e forte, macaco velho, logo desconfiou de um "encantado” assim com tanta sede ... Além disso, daquele jeito, dentro de alguns momentos, o "marafo"  inteiro logo sumiria pela goela da minha estranha e sedenta entidade.
     Veio cantando, gingando, e falou baixinho no meu ouvido:
      - Saravá, caboco, tá vendo aquela cerca ali?
      O meu “encantado” olhou. O terreiro era rodeado por uma cerca de varas e o lugar para onde ele apontava era um pouco escuro e se limitava com a rua.
      - Sim, caboco tá vendo -  murmurei, já desconfiado que iria me meter numa fria.
      O chefe continuou baixinho:
      - Já saquei qual é a tua, ô meu. Então, vou botar meia garrafa de cana lá. Sai de fininho, vai lá, pelo lado da rua, vê se ninguém tá te vendo, pega o grogue e vai encher o teu rabo de cachaça, mas fora daqui, seu filho de uma puta, senão arrebento tu e o teu "encantado" de porrada...
      -  Caboco já tá indo, urrrrre!
      Às 4 horas da madrugada, para fechar com chave de ouro uma carraspana porreta, ganhar meia garrafa de cachaça, que melhor coisa poderia esperar um bêbado sem-vergonha?

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Nota do autor:
O alcoolismo é doença. Se você tem problemas com o uso abusivo ou descontrolado de bebidas alcoólicas, busque ajuda junto ao A.A.(Alcoólicos Anônimos)
Tel: (11)3315-9333/ e-mail:aa@alcoolicosanonimos.org.br


Santiago Cabral
Enviado por Santiago Cabral em 10/09/2009
Reeditado em 22/03/2011
Código do texto: T1802571
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