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Matou,Bebeu o Sangue e Depois Comeu o Fígado

MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU O FÍGADO!
“Rasga-lhe o peito o demônio,
tombando a velhinha aos pés do altar.”
(Vicente Celestino)

   No segundo semestre de 68, ficava cada vez mais difícil mobilizar a massa. Acuadas pelo medo, vítimas da propaganda avassaladora da Ditadura que visava desgastar e colocar no descrédito os movimentos populares, as pessoas comuns começaram a tapar os olhos, os ouvidos e as bocas. Melhor não se comprometer, pensava a maioria das pessoas, principalmente as de classe média que já sonhavam com os benefícios que já começavam a vislumbrar para si, mesmo antes do “milagre brasileiro”. Passada a revolta com a morte do Edson Luís e de outros estudantes e a febre de contestação que varreu o país, a omissão e o  medo  tomaram conta de grande parte da massa que participara das mobilizações do primeiro semestre de 68. A segunda parte do glorioso ano passou a ser palco  das ações da militância mais comprometida.
   Eu, porém, não me conformava com a situação. Membro da AP,  uma organização que propunha uma revolução popular com ampla participação das massas para se chegar ao poder, eu estava disposto a tudo para dar a minha contribuição no sentido de fazer as massas retornarem ao movimento estudantil.
   E foi com este espírito que saí de casa naquela manhã. Teríamos que convocar uma assembléia dos estudantes do Colégio Estadual Central  e era vital que aquela assembléia não se resumisse a  uma reunião de meia dúzia de gatos pingados da AP, do Partidão e da POLOP.  Eu queria que a assembléia fosse numerosa, com ampla participação dos estudantes do Estadual.
   Caminhando para o Colégio, ao passar diante de uma banca de jornal, veio-me a idéia luminosa. Foi quando vi, em exposição, uma enorme manchete que ocupava quase toda a  primeira página do “Noticias Populares”, um jornal sangrento da  época: MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU O FÍGADO!
   O estalo foi imediato e a idéia já nasceu pronta. Sem titubear, comprei um exemplar do jornal e fui mais animado para o Estadual Central. Chegando lá, cola, tesoura e papel pardo, e – pronto! – nasceu o cartaz que certamente todos leriam. Afinal, este era um dos motivos pelo qual mobilizávamos pouco os estudantes naqueles dias: nossas formas de comunicação estavam saturadas e  a maioria das pessoas nem liam mais nossos avisos.
   O cartaz foi sucinto e objetivo. No alto, colei a manchete da primeira página do “Noticias Populares”: MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU O FÍGADO! Embaixo, em letras menores, mas não pequenas, escrevi:
“Assembléia, amanhã, às 10 horas, perto da rampa.
Pauta: Próximos passos do movimento secundarista. Participe!”
  Colado estrategicamente na entrada da cantina, o cartaz foi um sucesso. Ninguém que passou naquele dia na cantina do Estadual deixou de lê-lo.
E a assembléia também foi um sucesso. Foi a que teve o maior número de participantes no segundo semestre de 1968.
Luiz Lyrio
Enviado por Luiz Lyrio em 27/05/2005
Código do texto: T19997
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Sobre o autor
Luiz Lyrio
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 67 anos
17 textos (1899 leituras)
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Luiz Lyrio