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12 de Junho

Dando pano pra manga

Passavam apressados, diminuiam os passos, diante daquele apelo visual. Um out-door à margem da avenida, vistoso, colorido, apresentava uma frase sutil que mareava a cabeça das pessoas. Dizia: “ Quando o mundo era plano, bola levava gente à fogueira”.
Junto a frase uma foto, um desenho de fogueira junina com gravetos incandescendo; a foto, uma morena selvagem trotando com passos firmes e jogando ‘olhar de salto alto’, pra rua. Maroto, o olhar siderava as pessoas transformando aquela ‘massagem’ visual em cobiça.
Out-door é como zero, princípio, esperando um infinito de pares de olhos pondo fim as inquietações, ou a realização de um desejo.
Aquele, ramificava idéias, embaralhava cabeças, uma maluquice que lembrava coisa de mandingueiro. Feitiçaria. A frase pegava de assalto.. houve tempo que contestar ou contradizer, levava gente à fogueira. Aquela gatinha manhosa, dando bola pra quem passava, e ao lado a fogueira, provocavam desordem nas cabeças.
Do lado de fora surgiam discussões:
___ Viver foi sempre uma arte marcial, e olhando esse painel de joguinhos  de metáforas, acabo acreditando que tem coisa que chega a ser matéria prima pra veneno.
___ Antigamente, se dissesse que esse mundão era uma bola, virava churrasquinho, e olhando essa milongueira dando bola, arriscaria ser assado.
___ Que idéia de babalaô! Como fica então?
Caminhavam, o out-door dando pano pra manga, porque se hoje ninguém vai à fogueira e aceita mudanças com liberdade, essa liberdade acabou problematizando a vida. Só pensar um pouco. Enquanto isso:
___ Frase perversa, ameaçadora. Se depender da bola de um rabinho-de-saia como esse, viro churrasquinho.
___ Bola assim vem empacotada pra presente; acaba com qualquer solidão.
Era gente que ia e vinha, para cima e para baixo, grupinhos se formando nas redondezas. A saga possuia a astúcia de provocar comentários. Um, mais engraçadinho saltava para agarrar-se ao painel, simbolizando o desejo de alçar vôo até a morena. Severo e menos liberado, alguém se expressava:
___ Menina assim insolente, com essa tentação, deveria ser levada à fogueira, e antes, ser açoitada.
Oito da noite estava nesse pé. Churrasqueiro vendendo espetinhos à sombra do painel, faturava. Uma situação entre dois fogos encompridava a discussão e o out-door ganhava vida. Uns diziam que os lábios da morena até mexiam. Ah, se mexiam! Brisinha outonal refrescando à noite, refrescando cabeças, emudecendo; o visual ficava na linguagem do silêncio, e mesmo assim algumas mulheres cochichavam:
___ Bola! Dar bola é ofensa?
___ A vida é uma bola, e aí?, eu iria pra fogueira? Essa coação não me intimidaria.
___ Muito menos eu; o mundo gira e rola e se pintarcoisa boa no pedaço, dou bola mesmo.
Tudo ficou claro no dia seguinte. O out-door que ameaçava discussão pra rinha de galo amanheceu com mais uma sugestão, no cantinho direito do painel: “ Dia 12 é pra namorar, curtir, presentear. Dê bola à sua namorada, mesmo que pra isso queime seu último vintém.”
( Waldomiro Rosciano de Camargo )
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Miro Camargo
Enviado por Miro Camargo em 11/06/2005
Código do texto: T23967
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Sobre o autor
Miro Camargo
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 81 anos
13 textos (1719 leituras)
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