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Como deixei a tartaruga fugir.

Sim, eu deixei uma tartaruga fugir, confesso.
E antes que vocês comecem a rir e a fazer comentários jocosos
a respeito de minha agilidade e de minha capacidade mental e motora, peço
que leiam minha versão dos fatos. Mas, livrem-se dos preconceitos e
das falsas idéias sobre o comportamento desse monstro que as
pessoas conhecem como tartaruga, cágado, jaboti etc.
Aí sim, vocês poderão fazer um julgamento isento e, com certeza, olharão
com outros olhos esses terríveis quelônios.
Era uma tarde quente de verão, me lembro como se fosse hoje.
Meus amigos estavam me chamando no portão de casa e fui até lá conversar com eles.
Passando pela garagem, vi a tartaruga (na verdade era um jaboti) se arrastando perto da porta da sala, lerda como sempre.
Não nutria por ela nenhum tipo de sentimento em especial. Nem medo, nem carinho, nem nada. Minha mãe gostava dela, talvez por isso a tenha comprado, mas eu sempre achei que possuir uma tartaruga era como ter uma pedra como mascote. A diferença era que a tartaruga comia, fazia sujeira e a cada hora estava num lugar diferente, e é esse pequeno detalhe que tomo como base de minha defesa.
Experimentem ficar vigiando a tartaruga, bem ali, do seu lado.
Horas vão se passar, o sol percorrerá a abóboda celeste, as estações do ano se sucederão, Fidel Castro fará um discurso inteiro, e a tartaruga mal sairá do lugar. Mas se vocês virarem as costas e se distrairem por um momento que seja, poderão notar que a tartaruga já estará em outro lugar a metros de distância sem que se perceba como ela foi parar lá. É assim que age esse animal astuto e dissimulado. Faz uso de sua fama de vagaroso para despistar as pessoas, e assim que vê uma chance, záz...
Foi assim que aconteceu comigo. Enquanto conversava com meus amigos, deixei o portão aberto sem me preocupar. Se possuísse um cachorro, um coelho, um leopardo ou um antílope, nada aconteceria. Estaria atento, vigiando para que o animal não fugisse. Mas como era apenas uma insignificante tartaruga, baixei a guarda, relaxei e fui mais uma vítima.
Depois daquele dia, nunca mais voltei a ver a tal tartaruga. Às vezes ela surge em meus pesadelos, fugindo sorrateira e com um sorriso debochado na face. Carrego desde então esse fardo sobre meus ombros, mas eu sei que não tive culpa.
Talvez vocês não acreditem em mim. Mas eu sei que a realidade quase sempre é mais extraordinária que qualquer obra de ficção. Por isso, tomem cuidado. A verdade está lá fora...
Marcelo Kbral
Enviado por Marcelo Kbral em 17/06/2005
Reeditado em 17/06/2005
Código do texto: T25235
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Sobre o autor
Marcelo Kbral
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Marcelo Kbral