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Círculo vicioso

     
A menina e seu dever de casa; professora pediu: ‘Album de família’.
“ Toda vez que minha mãe vai à uma loja para preencher ficha de carnê de prestação-aquela que tem mil perguntinhas e que ela tem de responder de cabeça, faz sempre qüestão de dizer a profissão, enchendo os pulmões: Do...lar.
De primeiro eu ficava entusiasmada, porque a televisão dia sim outro também , anunciava: ‘ dolar em alta’. Não era bem assim.
Minha mãe passa o dia tirando e pondo, tirando e pondo as coisas no lugar, só pra permanecer tudo igual.
Faz isso enquanto meu pai vai pro trabalho, pra poder comprar espanador, pano de pó, lustra móveis e outra coisas que minha mãe vai usando, enquanto vai tirando e pondo, tirando e pondo as coisas sempre no mesmo lugar. Ela diz pra que eu vá olhando, porque quando crescer, vou saber como ir tirando e pondo as coisas no mesmo lugar, e ainda por cima saber usar espanador, pano de pó e até a enceradeira que meu pai comprou com o ‘suor do seu trabalho’ –é como ele fala; ele também diz que faz economia pra sobrar pra poupança, e diz mais :‘quem poupa tem’.
Tô achando meio cacete esse negócio de todo dia tirar e botar as coisas sempre no mesmo lugar, mas minha mãe sabe das coisas, e diz que uma boa dona-de-casa faz assim. Sei não.
À tarde, todo dia minha mãe lava e passa toda roupa que usamos ontem, porque amanhã vai ter também outras roupas usadas, que ela vai precisar lavar e passar. Diz ela: ‘ assim o cesto de roupa suja não fica cheio’. Eu não compreendo muito bem porque não  deixar encher o cesto de roupa suja, já que ele é tão grande. Se não é pra encher nunca, pra que compraram um cesto daquele tamanho. Num dia desses, minha mãe tava tirando a roupa suja do cesto e pondo no tanque pra lavar, e a cara dela era de ‘cesto cheio’.
Mas ela diz que é preciso ser assim, porque amanhã -graças a Deus só terá de fazer a mesma coisa de hoje, e assim –graças a Deus, será tudo igual.
Meu pai é chamado aqui como ‘dono da casa’ – minha mãe é a ‘dona’; ele chega do trabalho todo satisfeito da vida senta no sofá-cama da sala – não sei pra que sofá-cama, se nunca veio ninguém aqui pra dormir nele, e vai então contando todo gabola que saiu nova lista de dispensa lá na fábrica, mas ele com sempre não estava nela.
Ele conta que trabalha pra burro e ganha pouco, mas seu nome pelo menos não sai na lista de dispensa, porque ‘graças a Deus’ ele dá lucro pro patrão, porque empregado que não é bom empregado, não trabalha pra burro, e não dá lucro pro patrão, vai pra lista.
Enquanto meu pai vai contando sempre essa longa história de dá lucro, de empregado e patrão, minha mãe como boa dona-de-casa e excelente ‘patroa’- assim que meu pai apresenta minha mãe pros amigos, vem logo trazendo esbaforida os chinelos de dedo, do meu pai. Ele diz que seus pés ficam ‘presos’ o dia todo e sentem necessidade de ficarem livres pra poder respirar. Taí outra coisa que não entendo: só os pés é que precisam respirar livres. Ele não?
A janta aqui é sempre no mesmo horário, e é engraçado como a barriga da gente acostumou a roncar sempre no mesmo horário da novela das seis.
Minha mãe diz que está nas Escrituras que quem janta unido de frente pra novela das seis, permanece unido. Será que quando fizeram as Escrituras já existia a novela das seis?
Só sei que ela diz que dá tempo de comer, lavar os pratos e ainda por cima ficar de frente pra novela das sete.
Meu pai não perde por nada desse mundo o Jornal das oito, só que eu acho que isso não faz bem pra ele, porque a cada notícia ele põe a mão na cabeça e exclama: ___ O mundo vai acabar!
Mamãe acha que a novela das oito é muito sem-vergonha e educa mal as crianças, e por isso vou dormir sempre nesse horário.
Fico pensando porque eles assistem a novela das oito; acho que é porque eles já são bem-educados. Não sei o que eles fazem depois disso, porque estou sempre dormindo nessa hora.
Quando acordo pra ir à escola, o meu pai já foi pro trabalho, trabalhar pra burro, e minha mãe já está de espanador debaixo do braço, graças a Deus.

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Miro Camargo
Enviado por Miro Camargo em 25/06/2005
Código do texto: T27651
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Sobre o autor
Miro Camargo
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 81 anos
13 textos (1719 leituras)
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