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Os percalços da vida no campo

Tinha uma visão romântica da vida no campo. Ali seria fácil viver; bastaria erguer o braço para colher as mais deliciosas frutas pendentes dos galhos encurvados de tanto peso; jogaria umas sementes na terra e esta, em profusão, devolveria, em pouco tempo, a multiplicidade de verduras supervitaminadas e saudáveis. Ah! a natureza farta que devolve mil grãos para cada grão lançado à terra: melhor do que a bolsa de valores! Mais fácil do que pescar, mais seguro do que tomar bala de criança! Trabalharia algumas poucas horas e depois teria o dia inteiro para si, nas redes sob as arvores copadas, olhando o profundo céu azul e vendo a viagem das nuvens embaladas pelo vento altíssimo... Nada melhor do que sombra e água fresca! Calma que o Brasil é nosso, como se dizia antigamente.

Mas, assim como o Brasil não é nosso, a água, apesar de fresca, abrigava numerosíssimos cisto de ameba, entamoeba coli, dor de barriga na certa. Sua mulher alegava que tinha alergia aos campos: bastava sair na grama para ficar com a perna empolada e cheia de coceira que exigiam tratamento com corticóides; suas mãos calejadas de lutar contra uma terra dura colhiam minguados rabanetes que ardiam na língua, e, freqüentemente, tinham que ir almoçar na cidade, cansados de tanto comer chuchu com taioba, que era o que crescia com facilidade no campo.

 Resolveu melhorar o almoço de domingo: mataria uma galinha para comer com arroz. Logo se viu com o animal nas mãos, trêmulo, sem saber se cortava ou quebrava o seu pescoço com um safanão. Após alguns minutos de hesitação, resolveu perguntar a mulher o melhor modo de sacrifício. Ela torceu o nariz e disse: “Eu não vou comer a Belinha. Não vou nem limpar para você. Começas matando uma galinha e daqui a pouco queres matar o vizinho...” “Esta bem. Então vou pedir ao Chiqinnho para matar. Matar e limpar”. ”De jeito nenhum. Vê se pode, contratar capanga para matar a galinha... Estás virando um coronel?”.  “Esta’ bem, então eu vou pescar. Peixe não se precisa nem matar; basta tirar da água que ele morre sozinho”. “Eu não vou comer peixe desse açude sujo da água do banheiro do vizinho”. “Então não tem jeito, vamos ter que comer no restaurante”.

Na cidade, ela pediu uma enorme pizza sem questionar de onde vinha o ovo, ou quem matou o porco que foi usado para fazer as deliciosas rodelas de lingüiça calabresa que a cobriam, e ele frango ‘a passarinha.
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 10/11/2006
Código do texto: T287498

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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