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CORRETOR AZARADO

Depois de quase 1 ano de procura, finalmente
eu tinha conseguido arrumar um emprego de auxiliar
de corretor de imóveis (ainda não estava devidamente credenciado no órgão de classe).
Eu já estava cansado daquele maldito trem lotado,
daquele quartinho de aluguel, dos empréstimos com o pessoal da família, dos sanduíches de botequim. Nossa,
eu já podia me ver como o melhor auxiliar que aquela corretora teria empregado. Em um mês, 10 imóveis
vendidos, em seis meses, eu mesmo compraria um.
Viajei...
Era meu primeiro dia o meu chefe foi logo me
entregando os dados de um terreno, lá pelas bandas de Jacarepaguá, um bairro da zona oeste do Rio, na
localidade conhecida como “Deus me Livre”, ainda desabitada, contando apenas com um hospital para tuberculosos e algumas casas mal construídas,
todas de invasão. Mas isso não seria problema,
daria o máximo de mim, era minha grande oportunidade.
O terreno tinha uns doze mil metros quadrados, em
declive, na verdade, um morro, com um riacho passando
pela parte inferior do mesmo. Nada a direita, nada a esquerda, nada pela frente, nada por trás, longe de
tudo e de todos, sem água potável, infra-estrutura ou qualquer coisa que se possa dizer favorável para
valorizar o dito cujo. Bem, Seu Arnaldo (meu chefe),
me explicou que era para eu levar um cliente e possível comprador ao terreno. Disse-me que não era para eu me
preocupar, pois ele já tinha conversado com o homem
e que a venda já estava praticamente acertada, o proprietário estaria lá nos esperando, apenas para acrescentar algumas informações. Seria minha primeira venda, se bem que, como disse meu chefe, já estaria
praticamente acertada, mas não custaria nada eu dar
minha contribuição, tecendo uns elogios para a
mercadoria (se é que era possível elogiar aquela
porcaria de terreno).O cliente chegou e lá fomos
nós para o terreno. Chagando lá, o proprietário,
de fato, estava lá nos esperando. O comprador,
com muita educação, diga-se de passagem, começou
a arrumar defeitos (coisa que eu não esperava,
já que ele tivera um primeiro contato com o Sr.
Arnaldo e teria gostado, até porque, perece que
ele teria conhecimento do local). Caramba, isso
eu não esperava,não deveria, ou melhor, não poderia
perder uma venda praticamente acertada. Foi ai que
eu entrei com o meu papo de vendedor, algo me dizia
que essa venda não seria tão fácil assim e que seria preciso eu desenvolver minhas habilidades profissionais. Ser vendedor estava no meu sangue (como dizia Chico Anízio, se eu estivesse no tempo de Cristo, quem
estaria na bíblia, seria eu e não Judas). E para cada ponto negativo eu tinha uma resposta na ponta da língua.
Fiz questão de falar dos projetos da prefeitura para aquela área, em razão dos jogos pan-americanos que serão realizados no Rio de Janeiro em 2007. Que um simples lote de duzentos metros quadrados,  estaria custando quase
um  quarto do valor pedido pelo dono do terreno. E falei da nova estrada que seria construída, inventei sobre o clima, que seria o terceiro melhor do mundo (todo mundo diz isso ),  Que na verdade aquilo era um negócio de
pai para filho, que como investimento, não tinha igual.
Pra falar a verdade, eu realmente achei o preço muito abaixo do mercado e embora tenha inventado algumas coisas para tentar valorizar o terreno, ele realmente valia bem mais do que o cobrado pelo proprietário. Continuando, depois de tantos elogios, agora foi o comprador que fez cara de espanto, tentou conversar separadamente com o vendedor do terreno (claro que eu não deixei, não desgrudei dos dois). O comprador já estava quase
oferecendo até mais do que foi pedido, quando toca
o meu telefone, era meu chefe. Pedi licença, me
afastei um pouco e fui logo dizendo pro chefe.
- Sr. Arnaldo, estou quase conseguindo um valor ainda maior pelo terreno.
Parecia que o meu chefe estava ao meu lado, pelo grito que deu pelo telefone.
- Seu Filho Da Puta, o que é que você está fazendo???
Foi ai que ele me explicou que já teria combinado com o comprador, pois ele estaca cansado de saber que o terreno teria uma valorização muito grande (muita pretensão minha) com o tal pan-americano e que o vendedor, pelo tempo de demora na venda, estaria praticamente dando o terreno por
qualquer preço. Então o próprio comprador tentaria baixar o
preço, repassando um percentual do que baixasse, para ele (também não teria custado nada ter me explicado).
Bem, desliguei, retornei aos dois e fui logo dizendo.
- E então?
Responde o vendedor -  Sabe rapaz, eu não fazia idéia que esse tal pan-americano iria valorizar meu terreno tanto assim, e se quer saber, negócio de pai para filho é o cacete, que meu filho só tem 17 anos. Não vou vender
mais porra nenhuma, posso muito bem esperar mais uns quatro anos, já esperei tanto tempo até agora. Desculpem-me, mas desisto da venda. Pra falar a verdade, andar em trem lotado até que não é tão ruim assim.
Jose Carlos Cavalcante
Enviado por Jose Carlos Cavalcante em 01/02/2005
Reeditado em 01/02/2005
Código do texto: T3231
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Sobre o autor
Jose Carlos Cavalcante
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
713 textos (53675 leituras)
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Jose Carlos Cavalcante