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Impedido









Sempre chegando em casa fora de horário, quando a novela das oito já ia além da metade.
Não era mais nada do que dois ou três chopinhos com amigos. Polaquinha. Fedorova, seu nome de batismo, andava sempre com a ‘chanca’ de madeira, tamanho 44 nos pés.
Na família, levava o apelido carinhoso de ‘Fedô’. E, era com ela que ele havia de se entender pelos atrasos. Razões de trabalho, sempre a mesma  isca que ele jogava para que ela fisgasse, mas ficava claro que não mordia isca de mentira, porém, restava sempre tentar, e tentava sempre.
“Era muito serviço, muita gente para conversar”.
Desculpas assim, sempre descartadas pela polaquinha, que não deixava para depois, dizendo:
“Impedido! Alta rotatividade esse negócio de muita gente. Isso é jogo pra motel”.
E não tinha jeito, jogava sempre no impedimento, joguinho de banheira.
“Depois de tudo, ainda precisei dar umas vassouradas na papelada. Despachar.”
“Impedido! Você tá misturando jogo sujo com candomblê.”
Fedorova não fisgava uma.
“Só depois de atender ao público é que pude aprontar os ...”
“Impedido! Nesse jogo quem apronta leva cartão vermelho.”
“Era um pacotão, e precisei analisar medida por medida, e...”
Impedido! Aquilo não é passarela e você não é juiz pra conferir medidas.”
Não era à toa que os amigos o chamavam de ‘borocoxô”, e ainda arriscavam criticá-lo.
“Você abre tanto as pernas que daquí um pouco tá passando caminhão no meio delas.”
“Eu tento, mas é que vocês não conhecem a Fedô!” – dizia ele. Realmente tentar tentava.
“Depois precisei passar pela Associação...
“Ïmpedido! Associação só de marido e mulher, fora disso não tem jogo.”
Às vezes arriscava todo otimista.
“Valeu! Sinto que minha vida tá mudando pra melhor...”
“Impedido! Dobre a língua, isso é jogo de equipe, diga: nossa vida !”
Também experimentava uma saída tipo suspense.
“Sabe!, estavam armando uma trama lá na firma, um tremendo boicote...”
“Impedido! Você sabe, boicote faço eu, da carne.”
Os clichês iam se repetindo, até que um dia partiu para ameaça.
“Chega! Estou seriamente pensando em...”
“Impedido! Aquí quem pensa sou eu.”
Era assim, Fedô detinha um poder secular, e quem sabe anotasse no diário-íntimo sua performance, botando o maridinho pra correr de susto, porque suas histórias sem um pingo de veracidade não estarrecia e nem sensibilizava a polaquinha. Pelo contrário, ela ainda esbravejava.
“Você é um carinha pirado, varrido, não dá pra entender patavina das suas desculpas, uma esculhambação”.
Num certo momento, no entardecer longo que ele gostava de esticar, amarrou um pileque, que numa dosagem alcoólica o resultado seria só uísque. Na volta, foi só enfiar a chave na fechadura e Fedorova foi se aproximando com tudo.
“Voltando a vaca- fria, qual a desculpa dessa vez?”
Ia entornar o caldo, porque a ‘chanca’ da polaquinha não estava nos pés, estava nas mãos.
“E então! “
O ‘borocoxô’  já vinha com aquela conversa abstrata, numa operação arrastão, puxando uma das desculpas sem pé nem cabeça, até que sem explicação, rasgou.
“Quer saber onde estava, não quer? Pois vá ouvindo, estava no motel, com uma potranquinha, banheira de ducha, uisquezinho, musiquinha ambiente, programinha completo.”
Desmontou a garbosa Fedô, que começou a chorar.
“E eu que pensei  estar lá na birosca com seus amigos, tomando uma cervejinha, e vai ver  estava num quarto do inferno, com uma diaba de saia.”
Hoje, o antigo ‘borocoxô’  conta satisfeito aos amigos.
“Achei a isca certa! Dessa vez ela mordeu e engoliu o anzol. Ô garçon, vê mais um chopinho!”





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Miro Camargo
Enviado por Miro Camargo em 15/07/2005
Código do texto: T34670
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Sobre o autor
Miro Camargo
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 81 anos
13 textos (1719 leituras)
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