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Noite do Frango [a versão feminina para "Missa do Galo"]

Ainda acho graça ao me lembrar de um conversa que tive certa vez. Era ainda casada com o escrivão Menezes e morava no Rio de Janeiro.

Lá pelos idos de 1861 ou 1862, não me recordo bem, um primo da primeira esposa de meu marido veio morar conosco para estudar os preparatórios. Moleque ainda, devia Ter por volta de uns 17 anos. Posto que eu tivesse já os meus 30 é de notar que a diferença era bem acentuada e, portanto, nunca dei importância a sua presença. Tratava-o com hospitalidade e só. Ora, tinha mais o que fazer do que ficar de conversa com um frangote daqueles. Além do que, era-se necessário manter as aparências, o que pensariam se me vissem pelos cantos com ele? Decerto me chamariam “desfrutável”!

Pois então, era uma noite de Natal e o mau-caráter do meu marido havia saído para dormir com a meretriz com a qual costumava me trair.

O “frangote”, acho que seu nome era Nogueira, mas como já disse, não me recordo muito bem de detalhes... Enfim, o Sr. Nogueira, ao contrário do que eu esperava, decidiu ficar na cidade para assistir a Missa do Galo. Imagine que o pobre me disse que gostaria de ouvir a missa da Côrte porque devia Ter mais luxo e mais gente. Ora, como se todas as missas não fossem iguais! Mas também, o que esperar de um rapaz vindo de Mangaratiba?

Naquela noite, ao jantar, descobri que o menino ficaria esperando acordado até a meia-noite para ir chamar o amigo, com quem havia combinado de ir à missa. Eu, que então estava entediada resolvi me distrair um pouco. Permaneci acordada enquanto todos foram se deitar e, depois de passado um tempo que o bastardo do meu marido tinha saído, eu desci sorrateiramente e me pus a procurar onde estava o garoto. Passei pelo corredor, arrastando levemente as chinelas para não fazer barulho. Olhei nas salas de visitas e de jantar mas só fui encontrá-lo na sala da frente, próximo a porta, absorto em um romance. Admirei a paciência do rapaz, por esperar tanto tempo acordado.

- Que estavas lendo?

Imaginava que fosse “Os 3 Mosqueteiros”, pois já o tinha visto atracado a esse livro várias vezes. Logo, completei:

-Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros

-Justamente: é muito bonito

-Gosta de romances ?

-Gosto.

-Já leu a Moreninha?

-Do  Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba

-Gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances tem lido?

Ah! Péssima hora em que fui fazer essa pergunta! Em questão de segundos meu interlocutor já estava enumerando uma lista gigantesca, enquanto que o que eu menos queria era discutir literatura. Recostei minha cabeça no espaldar. Lembro-me que meus olhos fechavam de sono e, então, para me distrair e ao mesmo tempo não ser grosseira comecei a reparar em seus traços, em seu rosto juvenil... Em pouco tempo tive uma idéia que me deixou eufórica. Porque não? Pensei eu! Acho que cheguei a passar a língua nos lábios, tal foi a cara de espanto que ele fez de repente enquanto falava. Quando finalmente acabou de falar eu já estava desperta, com os rosto sobre os cotovelos sem desviar os olhos dele. Mas ele não era muito esperto... Deve Ter pensado-me aborrecida, posto que disse:

— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...

— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

— Já tenho feito isso.

— Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

— Que velha o quê, D. Conceição

O elogio claro, me fez sorrir. Não que eu me achasse velha, mas ganhar um elogio é sempre bom. Além do que, achei que finalmente tinha entendido minhas intenções. De um salto, comecei a andar pela sala examinando algum trecho da cortina ou arrumando a posição de um ou outro objeto como desculpa para desfilar para ele. Como ele não tomasse nenhuma atitude retornei assunto das horas e da Missa. Foi quando ele me disse o que já contei antes: que decidira ficar porque nunca tinha ouvido a Missa do galo na côrte. Enquanto falava aproximei bem o meu rosto do dele, acho que até deixei cair as mangas. Sorria às vezes, aquele “sorriso-disfarce” de quem não presta atenção. O moleque não parava de falar!!!
Cansei-me então desta posição. Se quisesse atingir meus objetivos teria de ser mais audaciosa com aquele roceirinho. Sentei-me ao seu lado e disse baixinho:

 — Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

— Eu também sou assim.

— O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.

Minha intenção era a de que ele se aproximasse e, pelo menos uma vez ele entendeu o que eu queria – meio inconsciente disso eu acho – mas se aproximou.

— Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.

— Foi o que lhe aconteceu hoje.

— Não, não, atalhou ela.

Achei que finalmente ele entenderia, afinal, tinha sido uma grande indireta. Fiz ainda uma última tentativa: cruzei as pernas e, para que ele visse, bati nelas com o cinto do roupão. Como a conversa não prosseguia e ele também não agia, referi-me então aos sonhos e ele desatou novamente a fala. Ainda houveram algumas pausas. Creio que em uma delas o surpreendi embebido em minha pessoa.
Sonolenta, levantei para afastar o cansaço mas logo sentei-me novamente. Não tenho certeza, mas talvez nesse ínterim eu o tenha tocado, não sei porquê.

— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros
Se me recordo bem, eram dois quadros bem vulgares e um deles retratava Cleópatra

— São bonitos, disse ele.

— Bonitos são; mas estão manchados. E depois. Estas figuras são mais próprias para sala de barbeiro e não para casa de família. O que não devem pensar ??

— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro

Menino ingênuo! Acredita que tomou por verdade a desculpa esfarrapada que eu dei? Será que me achava tola o bastante para aceitar as traições de meu marido assim? Como se fossem a coisa mais natural do mundo? Ah não! De minha parte, o maldito poderia Ter até um harém, desde que eu também tivesse direito às minhas privacidades! De qualquer modo, tendo o infeliz se casado comigo apenas pelo dote oferecido pelo meu pai, decerto que nem ligava. Só sei que quase me denunciei. Um homem mais esperto teria percebido minha falha e sairia dali contando do meu caso com o barbeiro. Para evitar cometer mais gafes achei melhor falar de coisas sem importância, como anedotas de baile, casos de passeio, reminiscências de Paquetá e outras frivolidades.

A tal ponto já havia então desistido da idéia de seduzir o pobre roceirinho. Aliás, acho que seduzi-lo eu até consegui, pois não tirava os olhos de mim enquanto eu falava, mas faltava-lhe coragem para tomar-me nos braços. Sei que logo depois o amigo dele chegou e ele se foi. Acabara a brincadeira. Mesmo não tendo resultado, serviu para me divertir naquela noite enfadonha, em que todos estavam com suas famílias e o pulha do meu marido me trocava por uma divorciada desfrutável.
Na manhã seguinte, notei que durante o almoço, o rapaz tentava me impressionar com suas observações sobre a Missa. Ora, e eu queria saber de Missa? Já me bastava o oratório que tinha de sustentar em casa, sempre repleto de velas, para parecer que eu era a santa que nunca fui.

Quanto ao frangote, nunca mais o vi! Pouco tempo depois o Chiquinho morreu de apoplexia – deixando-me uma poupuda herança. Com o dinheiro, mudei-me para a Fazenda, distante dos burburinhos da Côrte, afim de casar-me com o escrevente juramentado do falecido, antigo caso que eu mantinha por mais de 3 anos.
Meg Casarin
Enviado por Meg Casarin em 27/07/2005
Código do texto: T38081
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Sobre a autora
Meg Casarin
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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