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JOCELEI APARÍCIO FERREIRA DE SOUZA

Jocelei Aparício Ferreira de Souza nasceu num bairro pobre de Tempestade-MG. Vítimasb das enchentes, seus pais perderam tudo nas chuvas de 1970. Desiludidos, eles foram para o Rio de Janeiro, onde, desempregados, não tiveram outra alternativa a não ser morar de favor no barraco de uma tia de Jocelei, na favela da Rocinha.
   Jocelei Aparício Ferreira de Souza tinha tudo para se tornar um marginal, mas resistiu às más companhias e aos apelos da miséria. Estudou numa escola técnica e se formou técnico em eletrônica. Aos dezoito anos, entretanto, o destino reservou para Jocelei aquilo que, para alguns, seria um desastre em suas vidas. A filha de um traficante foi assassinada e, no local do crime, foi encontrado o CPF de um quase homônimo de Jocelei. Jurado de morte pelo traficante, Jocelei acabou sendo preso pela polícia. Apesar de jurar inocência durante todo o processo e julgamento, Jocelei foi condenado a trinta anos de prisão e o traficante, satisfeito com a pena, resolveu não matá-lo, considerando que seria melhor castigo para o nosso herói mofar na cadeia.
    Na cadeia, Jocelei revelou-se excelente cozinheiro. Conseguiu certas regalias cozinhando para os presos e resistiu novamente à tentação de, sob a influência de colegas escolados, enveredar pelo mundo do crime. Um terrível acidente, entretanto, mudou a vida de Jocelei na prisão. Um botijão de gás explodiu e Jocelei quase morreu, tendo perdido os dois braços no acidente.
   Mas Jocelei não desistiu. Impossibilitado de cozinhar, aprendeu a costurar com os pés e se revelou um artista na arte da tapeçaria. Impressionado com o trabalho de Jocelei e tendo boas informações sobre o comportamento do mesmo na prisão, um juiz resolveu, após nosso herói cumprir um terço de sua pena, conceder-lhe a condicional. Jocelei saiu da cadeia e voltou para a Rocinha, onde passou a confeccionar seus tapetes, que tiveram excelente aceitação numa feira de artesanato em Copacabana. A família de Jocelei melhorou de vida e até já pensava em deixar a Rocinha e se mudar para o bairro do Flamengo, quando o traficante que havia perdido a filha, inconformado com o fato de Jocelei estar circulando em liberdade pela favela, mandou que seus capangas matassem nosso herói. Entretanto, quando os capangas do traficante atiraram nas pernas de Jocelei para impedir que ele fugisse, a polícia apareceu e os pretensos assassinos de Jocelei fugiram, tendo sido nosso herói resgatado pela polícia.
    No hospital, devido às péssimas condições de higiene do mesmo, Jocelei acabou tendo gangrenadas as duas pernas atingidas pelos tiros dos capangas do traficante, sofrendo a amputação das mesmas. Mas, mesmo perdendo os dois pés, com os quais ganhava a vida confeccionando tapetes, Jocelei Aparício Ferreira de Souza não desistiu. Arranjou um emprego de locutor numa rádio do Rio de Janeiro e fez sucesso apresentando o programa “Hora dos Amputados”, dedicado a todos aqueles que haviam, em algum momento, perdido algum membro do corpo. No programa, Jocelei confortava, aconselhava alternativas de trabalho para os amputados e defendia aqueles que tinham sido prejudicados em seus direitos. O traficante, apesar de um quase homônimo de Jocelei Aparício Ferreira de Souza, Jucilei Aparício Ferreira de Sousa, ter sido preso por outro crime e confessado o assassinato da filha do bandido, havia tomado implicância com Jocelei e, indignado com o sucesso do nosso herói na rádio, resolveu mandar um de seus homens invadir o barraco da família de Jocelei e cortar sua língua. Tendo perdido sua tia, assassinada ao tentar defendê-lo, e metade da sua língua, Jocelei não pode mais fazer seu programa de rádio.
    Mas Jocelei não desistiu. E nem se submeteu a trabalhar para o crime, apesar de, após o assassinato do traficante que o perseguia por outro concorrente, ter sido convidado a ficar com um apito no alto do morro, trabalhando como olheiro para o traficante que agora dominava a Rocinha. Ao invés disso, Jocelei se ofereceu para trabalhar como informante da polícia, comunicando para um policial disfarçado que sempre o visitava, através de apitos em código Morse, todos os movimentos suspeitos que presenciava na favela. Porém o traficante que agora dominava a Rocinha acabou descobrindo as novas atividades do nosso herói e mandou que seus homens invadissem o barraco de Jocelei, que agora morava sozinho, já que perdera seus pais, assassinados por engano por policiais num beco da favela. Os homens do traficante dominaram Jocelei e, como o bandido ordenara, furaram seus olhos.
    Apesar de cego, Jocelei não desistiu. Dotado de excelente ouvido para a música, nosso herói conseguiu emprego numa gravadora, ouvindo e aprovando novos valores que queriam gravar seu primeiro CD. Entretanto, uma forte infecção auditiva mal-tratada por um médico de um posto de saúde fez com que Jocelei ficasse surdo, não podendo mais exercer suas atividades na gravadora.
    Entretanto, Jocelei não desistiu. Aposentado pelo Inamps, enfim por invalidez, Jocelei encontrou um jovem com capacidade extra-sensorial que, capaz de ler seus pensamentos, está escrevendo um livro sobre a vida de Jocelei, que promete se transformar num grande best-seller. Jocelei, apesar de todas as adversidades nunca desistiu porque Jocelei Aparício Ferreira de Souza é brasileiro e brasileiro não desiste nunca.
   
Luiz Lyrio
Enviado por Luiz Lyrio em 09/08/2005
Código do texto: T41387
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Sobre o autor
Luiz Lyrio
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 67 anos
17 textos (1899 leituras)
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Luiz Lyrio