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MAL-ENTENDIDO


   
      - Alô. É da casa do amor?
     - É
      -Eu queria falar com a Ágda...
      -Com a Magda?
     - Não! Com a Ágda. Ágda. Começa com A, de anta.
     - O que adianta?
     - Não é adianta! É A...de Anta. Como a senhora...- Pensou alto.
 - Peraí, agora eu entendi! O senhor me chamou de anta!
     - Mas, que diabo! A senhora é surda?
     - O que que o senhor tem contra os curdos? Por acaso, é o Saddam?
     - Minha senhora, aí é ou não é a Casa do Amor?
     - Claro que é!...Eu já falei que é!...
     - E a senhora é puta?
     - Claro que escuto! Escuto muito bem! Só que meu aparelho não tá legal, tá dando uma chieira. Não dá pra ouvir direito...
      - Tá bom!Tá bom...Mas já que a senhora tá com problema de audição...
      - Tição?!Quem é tição? O senhor é racista também?
      - Ai, meu saco!...
      - Olha o respeito!
      - E eu queria só tirar o atraso...
      -Criar um caso? Quer dizer que o senhor ligou só pra criar um caso?
      - Minha senhora, já que tá  tão difícil a comunicação entre nós...
      - Isso eu entendi. E concordo plenamente!...
      - Pra simplificar as coisas, eu vou querer a foda com a senhora mesmo...
      - Mas, eu não entendo nada de moda!...
      - Não é moda, sua anta! É foda! Efe...o...dê...a!
      - Será que eu ouvi o que penso que ouvi? Afinal, o senhor pensa que pode ir ligando para uma casa de família...
      - Que casa de família, minha senhora?! Aí é ou não é a Casa do Amor?
      - Claro que é!E o senhor é um covarde que se esconde atrás do anonimato...
      - Dorinato, Nonimato, não me mato, sei lá! Aqui não tem ninguém com esse nome que a senhora falou aí...
      - Ih!...Seu telefone agora também tá com ruído? Eu disse que o senhor se esconde atrás do anonimato pra ofender uma mãe de família!
     -Se a senhora é uma mãe de família, por que resolveu ser puta? Ora bolas! A senhora tem que escolher: ou é puta ou mãe de família!
     - Agora quer por minha filha no meio...
     -Que filha?...Peraí, sua filha tem quantos anos?
     - Olha, meu senhor, já que o senhor não me respeita, respeite pelo menos minha filha!
Luiz - Ah!...Agora eu entendi! A senhora está querendo é um cachê mais gordo!...Diz! Vai! Diz aí quanto é mãe e filha juntas!Eu pago! Eu pago o quanto for! Eu tô abonado. Ganhei uma grana no bicho ontem...
     - Olha, moço, se eu não estivesse desconfiada de que isso é uma pegadinha da televisão, eu já teria desligado há muito tempo...
     - Claro que isso não é uma pegadinha! Aliás, esse papo tá começando a ficar excitante. Se a senhora estivesse aqui ao vivo e a cores, ia pedir pra senhora dar...uma pegadinha!
     - Meu senhor, mas o senhor não tem limites mesmo! No princípio, até pensei que o senhor era um dos amigos do meu marido, mas...
     - Ih!...Lá vem outra proposta! Não! A senhora pode ir tirando o cavalinho da chuva!A senhora, sua filha e seu marido, nem pensar! Tenho alergia a homem!
     - O que que o senhor disse? O ruído do telefone tá aumentando...
     - EU DISSE – Gritou o “cliente” -  QUE EU NÃO QUERO TRANSAR COM A SENHORA, SEU MARIDO E SUA FILHA!!!
      - Não! Agora eu ouvi! O senhor ofendeu toda a minha família!Nenhum ator de pegadinha falaria esses horrores! Muito menos um amigo do Walmor! Vou desligar!
Luiz - Peraí! Peraí, minha senhora! Quem é o Walmor?
      - Meu marido, o dono da casa...
      - Ah, o cafetão!...
      - Não. Ele ainda não é capitão. É só cabo...Mas um dia ele chega lá!...
      - E a senhora gosta muito do cabo?
      - Claro!
      - Mas chifra ele por grana...Que vergonha!
      - O que o senhor disse?
       - Nada. Deixa pra lá. Olhe, a senhora já esticou esse papo muito. E eu só tô na linha ainda porque esse papo tá me dando um tesão danado!...
       - É, seu tarado? Agora, eu entendi. Pois saiba que eu só tô na linha até agora porque eu achei que o senhor era um amigo do Walmor metido a engraçadinho...
      - Mas, o que a levou a pensar que eu sou amigo do corno do seu marido?
      - Ah...Graças a Deus, aquela chieira no aparelho deu um tempo! Quando o senhor ligou, o senhor não perguntou se era da casa do Walmor?
      - Não.
      - O que?
      - Claro que não! Eu perguntei se era da Casa do Amor. CASA DO AMOR! – Berrou.
      - O que é isso, Casa do Amor?
      - É uma zona, um prostíbulo, uma casa de encontros, um pu...
      - Chega! Chega, seu indecente! Já entendi! Mas, pra qual número o senhor ligou?
      - 44343232.
      - Estranho, é daqui mesmo. Mas, que eu saiba, minha casa nunca foi uma zona. O Walmor, de vez em quando, até diz que tá uma zona, mas aí, eu largo a preguiça de lado, dou uma arrumada...
      - Minha senhora,- interrompeu o “cliente” que, mesmo tardiamente, percebeu que algo estava errado -  aí não é a Casa do Amor e sim a casa do Walmor?
      - É. Mas o número é o mesmo que o senhor me falou. Onde o senhor arranjou esse número?
      - Num anúncio do jornal “Galpão”. Tá aqui, ó: “Casa do Amor – Ágda e suas amigas levam você ao paraíso. Atendemos homens, mulheres e similares. Promoção: 10% de desconto à vista ou 28 dias no cheque. Fone: 44343232”.
      - Pois é, moço. Pois o anúncio saiu errado. Não tem nenhuma Ágda aqui. Minha irmã se chama Magda, mas ela só vem aqui uma vez por semana pra me ajudar na faxina. E meu marido, o Walmor – mentiu -é super musculoso e campeão de Karatê! Se ele tivesse atendido...Ah, se ele tivesse atendido!...
     - Minha senhora, mil desculpas! Esqueça tudo que eu falei.  Agora, se quer uma dica, ligue pro Galpão e reclame!
     - Claro que eu não vou só reclamar! – Declarou ela, agora sim, muito puta. -  Vou processar aqueles incompetentes!


      E esse foi apenas o primeiro de muitos telefonemas que a família recebeu de homens, mulheres e similares em busca do prazer. O Walmor processou o jornal e, no juizado de pequenas causas, a honra e o sossego da família do Walmor valeram apenas um salário mínimo. Tendo esperado quase um ano pelo desfecho da causa, Walmor aceitou a mísera compensação, juntou à “indenização” parte do seu 13o salário e comprou um aparelho de telefone novo. Daqueles que vêm com bina...






Luiz Lyrio
Enviado por Luiz Lyrio em 20/08/2005
Código do texto: T44043
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Sobre o autor
Luiz Lyrio
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 67 anos
17 textos (1899 leituras)
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