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A ENXAQUECA



A casa estava às escuras. Gomes abriu a porta e entrou de mansinho. Eram 22 horas. Não queria acordar a esposa, que ele supunha estar dormindo, depois de árduo dia de trabalho. Não era justo.  Ali, na sala, tirou os sapatos e os colocou atrás da mesinha de canto. Foi até a cozinha. Acendeu a luz, o gato saltou assustado da cadeira onde dormia. Ele fez psiu para o gato. Olhou ao redor. Tudo estava arrumadinho. Santa mulher – pensava ele. Abriu a geladeira, pegou a jarra de leite, pôs um pouco para o gato que estava se enroscando em suas pernas. Tomou um copo do líquido branco gelado. Apagou a luz.
Silenciosamente subiu as escadas que leva aos quartos da casa. Abriu a porta do quarto do Marquinhos, olhou o filho dormindo. Falou com ele em pensamento:
- Oi filhão, o papai já está de volta!
Fez o mesmo no quarto da Marcinha, a menina de sete anos que ela chamava de “minha princesinha”. Ajeitou as cobertas da filha e saiu do quarto com um sorriso no rosto pensando o quanto era feliz. Tinha a mulher que amava e dois lindos filhos. Desejar mais o quê?
Encaminhou-se para o quarto do casal. Entrou. Quando levantou a mão para acender a luz, a mulher reclamou:
- Por favor, não acenda a luz. Estou com uma tremenda enxaqueca. A minha cabeça parece uma bateria de escola de samba. A luz é como uma faca entrando nos olhos e furando os miolos.
Enquanto a mulher falava, ele foi tirando a roupa no escuro e jogando as peças na velha poltrona em frente à cama do casal. Estava só de cueca. Deitou-se.
- Querida, você não tomou remédio pra enxaqueca? – disse acariciando o rosto da mulher.
- Não – disse ela – essa dor começou a coisa de meia hora e não tem remédio aqui em casa.
Então Gomes sugeriu uma massagem.
- Massagem não resolve nada. Só o remédio. Vai comprar, meu bem!
- Já passam das 22 horas, as farmácias estão fechadas!
Mesmo assim disse que ia. Levantou-se, e no escuro pegou as roupas na poltrona. Vestiu-se, calçou os chinelos que estavam do seu lado da cama e lá se foi em busca de uma farmácia aberta para comprar remédio para enxaqueca. Rodou por várias ruas, todas as farmácias estavam fechadas. Já estava desistindo quando se lembrou do Genésio, seu amigo de infância. Genésio tinha uma botica na periferia da cidade. Partiu pra lá.
Depois de uns quinze minutos chegou. A botica estava fechada, mas havia luz no seu interior. Abriu a porta do carro, colocou o pé na calçada, foi aí que reparou que estava com os chinelos da mulher. Foi o escuro e a pressa – pensou. Bateu na porta. Lá de dentro veio a voz do Genésio:
- Tá fechada, ocê vorte aminhã.
Desesperado ele gritou:
- Genésio, é o Gomes, por favor, é uma emergência.
O boticário abriu a porta. Os dois se abraçaram. Saudade dos velhos tempos. Depois de um rápido bate papo, Gomes disse:
- Amigo, eu quero remédio pra enxaqueca da minha mulher. Ela está muito mal.
O boticário Genésio embrulhou o remédio. Gomes perguntou o preço, Genésio disse que ficava por conta da amizade e do tempo que ficaram sem se ver. Quando já estavam chegando à porta de saída, Genésio, como todo bom caipira, disse:
- Amigo, que mar le pregunte, quando foi que largou seu trabaio de vendedor de traia pra trabaiá na poliça? Inté que ocê fica bem com esta farda de sordado, mai sordado sem butina e de chinela de muié no pé é duvidoso, né não amigo?

27/09/05.
Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 27/09/2005
Código do texto: T54364

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Sobre a autora
Maria Hilda de Jesus Alão
Santos - São Paulo - Brasil
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