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De mulheres, eu entendo!

     Com certeza...
     Quando eu tinha 12 anos, apaixonei-me por duas menininhas. Uma, morena, que se chamava Rita, outra, lourinha, que se chamava Ângela. Todas as duas me enviavam lânguidos e significativos olhares, de modo que calculei que já estava tudo dominado, só faltava mesmo as minhas respectivas declarações.
     Assim, escrevi uma declaração de amor para a Rita e outra para a Ângela. Coloquei-as em dois envelopes, subscritei, e pedi para um colega entregar às respectivas musas, porque, sim, já nesse tempo, eu garatujava algumas ridículas afirmativas, tipo “ Para te defender, querida, /Serei capaz de matar um leão/Com as minhas próprias mãos”, e dizia que eram versos!
     Mas, voltando às menininhas, nunca mais falaram comigo! Motivo: no envelope para Rita, eu colocara a declaração para Ângela, e no envelope para Ângela, a declaração para  Rita!...

     Aos 14 anos, apaixonei-me outra vez por uma lourinha. As louras sempre foram o meu fraco, mas nunca dei sorte com elas...
     Era linda, a gatinha... Eu sonhava com ela, fazia versos, ensaiava declarações que não tinha coragem para fazer, e quando ela passava por mim, eu dava um suspiro tão profundo que se ouvia à distância de cem metros...
     Então, um dia, a deusinha passou por mim, e olhou-me firmemente com aqueles bonitos olhos verdes, fazendo-me lembrar da canção da Emilinha Borba: “Aqueles olhos verdes/Translúcidos, serenos/Parecem dois amenos/Pedaços de luar”. Depois dessa mirada, que quase fez meu coração sacar do peito, parou mais lá na frente, e fez sinal de que queria falar comigo.
     Fui correndo! Aquela já estava no papo!
     E ela, com uma vozinha que parecia doce acorde de uma harpa celestial, falou:
     - Oi, Tonico, tudo bem?
     Tonico!? Eu detestava aquele apelido! Mas, como se tratava de uma deusinha, estava perdoada!
     Emocionado, mal consegui balbuciar:
     - Tudo bem, tudo bem...
     E ela, com a mesma vozinha doce:
     - Tonico, podes me fazer um favor? Entrega este bilhete para o teu irmão Joaquim.
     Ah, a danada estava de olho era no meu irmão! Respondi, ríspido:
     - Não sou pombo-correio, vá se danar!
     Fui embora amargurado, resmungando palavrões, mas lembrando do resto da canção da Emilinha Borba: “........ Mas têm a miragem/ Profunda do oceano/ E trazem todo engano/ Das procelas do mar...”
     E foi a minha primeira e grande desilusão amorosa...

     Aos 18 anos, filho de mãe viúva, tão pobre que marcava encontro com as namoradas dentro do cinema, pois não podia pagar-lhes as entradas, apaixonei-me outra vez. A moça era encantadora, mas tinha um gênio forte e arrebatado. Eu estava de viagem marcada para o Rio de Janeiro, destino de todos os rapazes nordestinos pobres da época, e pretendíamos casar tão logo eu arranjasse um bom emprego na antiga Capital Federal.
     Um dia, caminhava com essa minha namorada para a sua casa quando caiu um aguaceiro. Depois que passou, retornamos a caminhada por entre as ruazinhas de piçarra inundadas. Ficamos com os sapatos totalmente encharcados de água. Quando chegamos à casa da namorada, ela disse:
     - Meu bem, tira os sapatos, para eu lavar e enxugar as suas meias.
     Respondi, nervoso:
     - Não, não precisa, vou já para casa.
     - Mas você pode pegar um resfriado com essas meias molhadas.    Tira, rapaz, me deixa enxugá-las!
     Fingi-me zangado:
     - Já não te disse que não quero tirar as meias? Tu és muito chata, poxa!
     - Hum, tu não gostas de carinho? Estou apenas sendo cuidadosa contigo.
     - Pois deixa-me em paz! Quero ficar assim mesmo, com as meias molhadas!
     Como eu tinha fama de arreliado, casca grossa, ela não insistiu, mas vociferou:
    - Estúpido, não admito que me trates assim, está tudo acabado entre nós!
     Maldição! Perdi a namorada, mas mantive o meu segredo...
     Eu só tinha um par de meias, e destas, só restava mesmo o cano! Do peito do pé em diante era um buraco só! Não poderia tirar os sapatos na frente da deusa...

     Quando cheguei ao Rio de Janeiro, tornei-me amigo íntimo de um cara, que tinha uma interessante teoria a respeito de relacionamentos com as mulheres:
     - Só ando com casadas ou noivas, assim não corro o risco de casar com elas!
     Passei a rezar por essa cartilha e comecei a namorar com uma menina lindinha, um verdadeiro petisco, e noiva, de anel no dedo e casamento marcado.
     Mas o diabo da menina apaixonou-se por mim, largou o noivo, e casou comigo...
     O casamento durou pouco, pois ela não tolerava as minhas cervejas e a minha paixão pelo futebol. Também não tolerava outros esportes, tipo “pular a cerca”. Um belo dia, colocou minhas roupas numa mala e mandou-me para “o raio que me partisse”...

     Não exatamente para esse lugar, saí de casa e assumi a confortável posição de descasado franco-atirador. Aí me apaixonei por uma colega de serviço. Morena linda, 1,72m, 28 anos, mas com um problema: era virgem e fazia questão de continuar assim para entrar “zerada” num eventual casamento.
     Era início da década de 70, ainda não havia divórcio no Brasil, - se houvesse, eu me divorciaria correndo para poder casar com aquele pedaço de mau caminho -  e a morena que dormia comigo algumas vezes era fogosa,  aceitava todas as carícias, posições e estilos, mas, penetração vaginal, nem pensar!
     Ter a tinta, o carimbo e a carimbeira, e não poder carimbar, é demais, não é mesmo? Por isso, desentendemo-nos e a morena me largou, passando a namorar com um outro  colega de serviço, também separado. Nunca tive coragem de perguntar para esse colega como funcionava o seu caso com a morena, mas um dia eu a encontrei numa parada de ônibus, convidei-a para tomar uma cervejinha num bar próximo dali, ela aceitou, e passamos a conversar. A morena parecia muito feliz e confessou-me:
     - Foi difícil esquecer você. Eu o amava muito. Mas você era muito devagar, só queria as coisas pela metade, só me dava prazer pela metade...

     Depois do advento do divórcio, casei-me pela segunda vez. Eu já tinha uma pequena empresa,  e a minha segunda esposa era a minha secretária e uma das suas principais funções era fazer depósitos bancários. Andava, pois, sempre com razoáveis quantias em cheques e em dinheiro, e, como não tínhamos carro próprio, eu lhe dera taxativas ordens: “Nunca pegue coletivos. Ande sempre de táxi!”
     Até que ela me abandonou, apaixonada por um chofer de táxi...

     Ah, o título deste conto foi uma pegadinha! Na verdade, nem Deus entende as mulheres, e o Diabo sempre é enganado por elas!...
Antonio Maria S Cabral
Enviado por Antonio Maria S Cabral em 31/08/2007
Reeditado em 26/06/2012
Código do texto: T632381
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Sobre o autor
Antonio Maria S Cabral
São Luís - Maranhão - Brasil
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