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O CÃO FAREJADOR E A CALCINHA

Ronaldo José de Almeida


Orquídio, após muitos anos de polícia, trabalhando na capital do estado, mais precisamente no setor de combate às drogas, aposentou-se, voltando a morar com a mãe.

Trouxe consigo o fiel companheiro de tantos anos de luta. Era um cão pastor alemão, também “aposentado”, muito bem cuidado e vistoso, que atendia pelo nome de Valentino, não se sabe a razão. Presume-se que se tratava de uma homenagem ao grande ator Rodolfo Valentino, quem sabe?

Todas as manhãs, Orquídio e Valentino saíam para o passeio pelo bairro, despertando olhares de admiração.

Altamirano era um senhor de 50 e poucos anos, baixa estatura, aposentado da Rede Ferroviária, casado em segunda núpcias com Valéria. Esta era uma loura de 25 anos, cabelos longos, curvilínea, grandes olhos azuis, alta e que se destacava por sua exuberância. Uma verdadeira atração do bairro.

Diante de tanta beleza, o maridão não tinha sossego enquanto ela não voltava para casa. Qualquer demora era motivo para pensamentos terríveis.

O ciúme do homem era doentio, uma saia mais curta redundava numa discussão. Um olhar aparentemente malicioso, um cumprimento, uma gentileza de alguém, tudo era motivo de atritos entre o casal.

Porém, Valéria conseguia superar tudo isto com maestria. Chegava manhosa e irresistível junto ao marido. Com alguns afagos, recolocava tudo em ordem, fazendo-se merecedora de um carinho e presentes.

Os mimos recebidos podiam ser desde um jantar no mais caro restaurante da cidade até uma jóia ou uma viagem à capital do estado - ficava a critério dela.

Altamirano sentia-se orgulhoso ao adentrar-se num restaurante, ou lugar parecido, de braços dados com Valéria, despertando olhares invejosos e de admiração dos presentes. Para ele era a glória.

Certo dia, antes do almoço, Valéria recebeu um telefonema e saiu apressada sob o olhar indagador da empregada Cida, que nada entendeu.
 
Lá pelas duas da tarde, Altamirano, que também tinha saído, chegou em casa e foi logo perguntado pela esposa, tendo a serviçal lhe respondido:

- Dona Valeria saiu, “seu” Altamirano, já tem tempo.
- Como assim, Cida? Ela disse aonde ia? – retrucou o homem.
- Não, senhor, não disse, atendeu ao telefone e saiu apressada.

- Meu Deus, aonde será que ela foi?  Indagou novamente perplexo aquele ser já inteiramente tomado pela desconfiança. Ademais que, mais cedo, tinha lido numa revista uma matéria sobre um deus mitológico, Amon-Rá, representante hodierno dos chifrudos.

Recordando-se da leitura, Altamirano não teve mais sossego. De olho no relógio, andava de um lado para o outro. Era visível a sua preocupação.
 
O tempo passava, o relógio marcava 5 horas da tarde. Nada da mulher.  O marido já tinha telefonado para todas as amigas e mais os parentes, ninguém tinha qualquer notícia. Desesperado, procurou seu grande amigo Orquídio, expondo-lhe os fatos.

Com espírito aventureiro e fantasioso, Orquídio levantou-se e, com a autoridade de militar que ainda preservava, embora aposentado, ordenou:
- Vamos para a sua casa agora!

Cida já estava na porta esperando pelo patrão, inteiramente angustiada.
- Achou dona Valéria? Perguntou a empregada.
- Vamos encontrá-la agora mesmo, moça, adiantou-se na resposta Orquídio.

- Altamirano, preciso de uma roupa usada recentemente por sua esposa, pediu com autoridade o militar aposentado.

- Cida! -gritou Altamirano – traga-me uma roupa usada por Valeria!

Logo depois, Cida chegou esbaforida.

- “Seu” Altamirano, toda a roupa já foi para o tanque. Todas já foram lavadas. Mas tem esta calcinha, serve?

Um pouco sem graça, Altamirano voltou-se para Orquídio.

- Serve, lógico que serve. Vamos, amigo, adiantou-se Orquídio.

Os dois foram para a casa do aposentado, que entrou deixando o agoniado marido na porta. Logo voltou com o fiel cão Valentino.
Orquídio deixou Valentino cheirar a calcinha de Valéria por alguns segundos e, em seguida, saiu pelas ruas com o amigo. O cão comandava as investigações.
Após percorrer algumas ruas, o trio chegou próximo da Mercearia Viena, umas das melhores do bairro, especializada em queijos, vinhos e artigos importados. Aproximando-se mais, o cachorro, num arranco, soltou-se da mão do dono e invadiu a mercearia, saindo em seguida com uma peça inteira de bacalhau presa na boca. Correndo atrás do animal, estava Crispim, proprietário do estabelecimento, que esbravejava aos quatro ventos.

Assumindo a responsabilidade dos fatos, Altamirano voltou para sua casa, não sem antes desqualificar o cachorro Valentino, chamando-o de indecente, obsceno e ouitros impropérios. Tudo sob o olhar envergonhado de Orquídio.
Instantes depois apareceu Valéria linda como sempre e totalmente alheia ao acontecido. Ela estava no salão de beleza, preparando-se para a festa de formatura do irmão do seu marido.

A correria que se deu, quando ela atendeu ao telefone, foi motivada pelo horário marcado no salão.


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RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Enviado por RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA em 02/09/2007
Reeditado em 18/12/2007
Código do texto: T635187

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Sobre o autor
RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Montes Claros - Minas Gerais - Brasil
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