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COMO ERA GOSTOSO O MEU GATO !




Padre! Há tempos não durmo direito porque sinto remorsos. Não que tenha cometido qualquer imperdoável pecado. Mas preciso contar-lhe para desabafar.

Tudo começou quando resolvi mudar-me da casa onde morava para um apartamento de cobertura. Éramos apenas dois, eu e meu marido. Não temos filhos e, aquela casa enorme, a exigir vários empregados a cuidá-la, estava tornando-se muito onerosa.

Por isso transferimo-nos para um apartamento menor mas dotado de todas comodidades inclusive uma ensolarada piscina, conforto que ambos julgávamos difícil dispensar.

Não demoramos em conhecer o casal que morava no andar de baixo. Tinham a nossa idade, eram alegres, cultos e se revelaram, com o tempo, excelentes companheiros.

Também não tinham filhos mas dedicavam incomum afeição por um casal de lindíssimos gatos siameses cujos nomes eram Toby e Tata.

Eu também fiquei apaixonada por eles. Eram afáveis, ternos e amorosos. Permaneciam bom tempo comigo, pois se acostumaram a tomar sol sobre a casa de máquinas da piscina do nosso apartamento.

A medida que o tempo foi passando os laços de amizade com o casal vizinho foram se estreitando. Fato aliás que se refletiu no relacionamento global, pois quase todos os programas que realizávamos passaram a ocorrer a quatro.

Restaurantes, cinemas, teatro, clubes e até viagens só aconteciam quando era do agrado de todos. E, confesso, vivenciamos um bom período participando em conjunto de um número incontável de atividades de lazer.

Entretanto, reverendíssimo, um fato muitíssimo estranho despertou minha atenção.

Nós nos encontrávamos num pequeno restaurante típico, a meia luz, a degustar uma deliciosa paella valenciana quando, por um espelho decorativo fixado na parede, pude notar meu marido a roçar, por baixo da mesa, com as suas, as pernas descobertas da minha amiga.

Imediatamente pensei. Isto é um engano!

Mas não era. Porque passei, disfarçadamente a observar a cena e a perceber que ambos estavam perfeitamente a vontade. Meu marido chegou mesmo em determinado instante a inserir seu joelho esquerdo profundamente entre as ansiosas coxas da energúmena a sua frente. E, reverendíssimo, ela também não hesitou em prensar a perna dele entre as suas, retendo-as descaradamente por um bom tempo.

Confesso que perdi por inteiro o apetite. Continuei a olha-los de forma distraída, mas a rotulá-los como estavam a merecer: vagabunda e cafajeste.

Permaneci quieta. Também nada comentei passando a observá-los mais atentamente nos dias seguintes.

E o que pude ver e sentir, reverendíssimo, dispensa qualquer comentário. Eram íntimos de longa data e desfrutavam de intensa vida a dois.

Não escondo que a mágoa e ressentimento que passei a sentir eram intensíssimos e precisavam ser urgentemente exorcizados.

Calma e cuidadosamente elaborei um plano para vingar-me.

Que culminou com o convite que fiz a todos para um jantar que faria realizar no meu apartamento.

Empenhei-me. Pus em uso aquelas porcelanas antigas, copos de cristal e decorei a mesa com velas e flores.

Naquele ambiente envolvente regado a champanha servi-lhes coelho chileno a caçadora com arroz de passas e purê de mandioquinha salsa.

Alegando indisposição estomacal passageira, abstive-me de experimentar. Mas todos deliraram com o finíssimo sabor da iguaria. Os homens chegaram até a repetir o prato. E, mais não comeram porque fiz apenas pequena quantidade dele.

Foi quando participei a todos que tinha importante notícia a dar-lhes. E perguntei-lhes se não eram saborosos ambos os bichanos. Especialmente o macho mais carnudo. Porque haviam degustado o Toby e a Tata.

A cena que se seguiu, padre, foi patética. Todos vomitaram ali mesmo sobre a mesa, recobrindo a toalha de linho com uma lavagem horrível e malcheirosa. Minha amiga além disso não conseguia conter um choro angustiante e convulsivo. Os homens olhavam-me incrédulos e meu companheiro chegou mesmo a tentar atingir-me com uma enorme colher de prata.

Não preciso dizer que o jantar terminou naquele mesmo instante e o casal amigo retirou-se apressadamente. Meu marido também foi embora e, dois dias depois veio buscar seus pertences pessoais. Atualmente estamos separados.

Quanto ao Toby e Tata, hoje vivem comigo numa casa grande e ensolarada onde passei a morar. Adoro-os e a paixão é recíproca, pois eles me amam e não saem dos meus pés.

A reação maluca daquele fatídico jantar foi motivada por uma pequena mentirinha. Porque posso afiançar-lhe reverendíssimo, que era mesmo carne maturada de legítimo coelho chileno que servi a todos.

Mas, pese tal circunstância, ainda sinto remorsos. Afinal de contas o marido da minha amiga, nada teve e até mesmo desconhecia aquele romance espúrio da sua mulher.

Mas sofreu igualmente como eles.

Por tal motivo acabei por perdê-lo.

Paciência. Nunca fora mesmo um bom amante!
Tagobar
Enviado por Tagobar em 28/10/2005
Código do texto: T64583

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Sobre o autor
Tagobar
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