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Eventos da classe média

Quem nunca teve que participar daqueles almoços chatíssimos de família que atire a primeira almôndega! O mais incrível é que existe um fenômeno que é quase uma catarse, esta tese vem apenas para endossar aquela famosa máxima "família é tudo igual, só muda o nome do cachorro, e olhe lá!"
 De fato existe um padrão imutável na chamada "família típica", e não existe ocasião mais conveniente para constatar isso do que o ALMOÇO DE DOMINGO! As iguarias sempre preparadas pela matriarca, muito raramente auxiliada por uma cunhada que sempre chega mais cedo por morar mais perto, ou pra ter vantagem sobre as demais na hora de fofocar, Sempre trazendo a tiracolo o casal de pimpolhos, a menina cheia de soberba e entojo, o menino... a própria besta em forma de gente, nunca consegue adentrar num ambiente sem quebrar uma moldura, um vaso, ou dizimar qualquer objeto que esteja ao alcance das mãos.
 Aos poucos, no desenrolar da conversa, chega o avô, depois do dominó no boteco do Dimas regado a ovo em conserva e licor de amendoim. Sempre cansado e resmungão, após ser interceptado na porta da cozinha pelo moleque e pelo gato da vizinha que foge em desabalada carreira com uma bombinha amarrada na cauda, ele solta o famoso jargão:
 "-Moleque filha duma égua, vou te passar a vara de marmelo!!!"
 Mais tarde chega o outro filho, solteirão convicto, o protótipo do bicho-grilo, não está desempregado, apenas trabalha de "maneira alternatina" hora de eletrecista, hora de repositor na quitanda, diz que a mãe se preocupa a toa, que não está magro, apenas tem uma dieta fora do convencional.
  Eis que chega uma personagem chave no recinto, quase um clichê. A tia gorda e escandalosa, tenta beijar os sobrinhos, o moleque revida na base da cotovelada, a menina refugia-se atrás das pernas da mãe que, sem graça diz:
 "-Que feio Bianca! Dá um beijinho na tia, olha que a mãe não traz mais você pra passear..."
 A criatura se retorce mas acaba cedendo meio a contragosto, e prova uma das experiências mais traumatizantes de sua vida, um beijo melado que deixa uma marca horrorosa de batom púrpura em sua face.
 Os demais integrantes da horda vão chegando até que a tão esperada hora acontece, o almoço, seguido é claro de uma saraivada de bolinho de arroz do moleque na irmã. Começa a choradeira, o capetinha é içado pelas orelhas pela mãe, o almoço continua, a tia adiposa repete o prato pela quarta vez e ainda tem a capacidade de perguntar o que tem pra sobremesa...
  No início da tarde as mulheres organizam uma estratégia para enfrentar a pilha de louças, os homens formam dois grupos, um pra jogar caxeta, outro pra ver o jogo do Ituano, o avô recosta na beira do sofá, de olhos empapuçados, quase desfalecido, ao que a esposa solícita surgere:
 "-Vai deitar na cama meu velho, descansa um pouco."
 O homem rançoso apenas franze a testa e balbucia qualquer coisa entre os dentes, vira para o braço do sofá e cochila. Quase meia tarde chega o tio caminhoneiro e beberrão, sem camisa, com uma bermuda um tanto sugestiva expondo seus atributos glutões, transpirando cachaça, chamando o sobrinho solteirão de viado, trocando os nomes das crianças e esperando pelo almoço. A mãe correr secar um prato recém lavado e requentar as sobras, o obtuso homem devora as sobras, a tia gorda acompanha para não fazer desfeita é claro...
 Na cozinha, a rádio família reverbera solta:
 "-E a Bete, hein!?! Diz que tá de candango novo!!
 "-Jura? Mas não faz nem seis anos que se divorciou?
  "-Essa não perde tempo."
 "-Agora, ajuizada mesmo é a Helena, não bebe não fuma, não se mistura, tem vinte e seis anos. Já dá pra começar a namorar..."
  "-Mas eu tenho um sobrinho, pelo lado do Jaime que é um guri por demais obediente!! Ele vai se formar adevogado..."
 "-Mas olha, que Deus abençoe o caminho desse menino, eu mesma vou rezar um terço pra minha santinha Rita de Pórris pra que esse menino tenha saúde..."
  Com o final do dia todos se dispedem, menos o tio caminhoneiro que vai dormir por ali mesmo e depois tocar pra Goiás madrugada adentro, na saída o moleque se distrai e dá uma cacetada na caixa de correio, a mãe socorre desesperada o "anjinho", a avó esconde veladamente uma sensação de satisfação e promete fazer um bolo pro Mathias que instalou a caixa justamente ali, o velho levanta do sono de cinco horas no  sofá, reclama da dor nas costas e diz que irá comprar um colchão ortopédico pois o antigo está acabando com ele...
Boca
Enviado por Boca em 14/09/2007
Código do texto: T652023

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Sobre o autor
Boca
Curitiba - Paraná - Brasil, 31 anos
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