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A DIETA PERFEITA












Senhor Juiz:

Permita-me dizer-lhe que sou totalmente inocente. E, para prová-lo pretendo contar-lhe os fatos com total franqueza. Pois nada tenho a temer ou esconder.

Há cerca de vinte anos atrás conheci Hermengarda, minha mulher.

Era linda, um rosto gracioso, pele morena, olhos grandes e negros, cabelos longos e lábios deliciosos. Além disso possuia um corpinho encantador, cinturinha fina, carne rija e não pesava mais que cinqüenta quilos.

Todavia, meritíssimo, ela era muito gulosa e comia demais. Por isso a medida que o tempo foi passando acabou por engordar de forma exagerada. Todos seus atributos femininos começaram a cair para os lados transformando seu corpo encantador em algo parecido com uma bola disforme e intumescida.

Pesem tais circunstâncias desanimantes, posso assegurar a Vossa Excelência que sempre fui um marido que defendeu de forma intransigente os deveres do casamento.

Cujos laços, sentia, se esgarçavam.

Preocupado percebi que precisaria tomar uma providência urgente para reverter esse quadro.

Foi quando, depois de muito pensar, tive um idéia brilhante que iria propiciar-lhe ostentar novamente aquela terna figura dos dezoito aninhos.

Examinei o plano em todos os seus ângulos e não vislumbrei qualquer falha. Era rápido, dispensava o uso de qualquer droga, custo reduzidíssimo, perfeito em todos seus aspectos.

Resolvi colocá-lo em prática.

Comecei por adquirir uma forte argola de aço dotada de cadeado que mandei prender a uma forte corrente. Dirigi-me a fazenda onde criamos gado e chumbei-a na parede de um silo abandonado no extremo da propriedade.

No fim de semana convidei-a a visitar o local. Mostrei-lhe a argola. Curiosa ela perguntou para que servia. Aproveitei a chance para prender seu pulso esquerdo.

Ela pediu-me que parasse de brincar e a soltasse.

Mas eu, excelência, imbuído dos mais meritórios desígnios, participei-lhe que pretendia fazê-la ali permanecer por um bom período. Sem comer. Apenas com a água que trar-lhe-ia todos os dias.

Ela inicialmente não acreditou. Mas quando percebeu que eu falava sério, passou a xingar-me chamando-me de louco e dirigindo-me um sem número de palavrões horríveis que prefiro não reproduzir.

Além disso procurava freneticamente libertar-se do grilhão que firmemente a prendia.

Indiferente às pesadas ofensas que me endereçava procurei explicar-lhe que tudo o que estava sendo feito era em seu exclusivo benefício.

Porque a receber apenas água e deixar de ingerir a quantidade maluca de porcarias que comia todos os dias, iria perder toda aquela gordura supérflua que a enfeava. E voltaria a desfrutar do corpinho lindo que já tivera.

Creia, excelência, ela não me entendeu. E passou histericamente a gritar e a se debater.

Participei-lhe que de nada adiantaria tentar fazer-se ouvir. Estávamos bem longe de qualquer possível interferência de estranhos.

Seus gritos e contorções tornaram-se incomodantes.

Resolvi retirar-me. Não sem antes deixar-lhe ao alcance uma boa jarra de água puríssima e cristalina.

No dia seguinte retornei. Quando percebeu minha presença ficou enlouquecida. Sacudia e esperneava. E, apesar de totalmente rouca procurava ainda gritar.

Procurei fazê-la entender que todos aqueles impropérios que me dirigia eram totalmente inúteis. Melhor seria conformar-se com a situação. Que talvez lhe parecesse traumática num primeiro momento. Mas era executada com o único propósito de ajudá-la.

Aos poucos acalmou. Disse que estava com o estômago retorcido de fome, pois nada ingerira nas ultimas vinte e quatro horas. E morta de sede, pois derrubara a água que eu lhe deixara.

Recomendei-lhe que tomasse mais cuidado com aquele líquido precioso. Falei que iria deixar-lhe uma nova jarra. Mas a fome ela teria que suportar, pois era muita a gordura que deveria ser queimada. Contei-lhe que não precisaria preocupar-se porque com todo aquele excesso de peso jamais poderia morrer de inanição. E, a sensação de fome que sentia, era ilusória e logo passaria.

Contei-lhe que tinha muitos afazeres e precisava a eles retornar. Voltaria amanhã, no mesmo horário, para novamente abastecê-la e aferir seu progresso. Mais uma vez ela ficou enfurecida passando a gritar com o pouco de voz que lhe restara, renovando todos os xingamentos anteriores.

Indiferente a todos esses injustos impropérios calmamente me afastei.

Voltei todos os dias seguintes, com religiosa pontualidade suprindo suas necessidades hídricas com absoluta regularidade. Sei, de longos anos de convívio, que sempre preferiu água mineral sem gás. Respeitei até a marca que sempre exigia para que nada pudesse reclamar.

Com o passar dos dias ela foi se acalmando. Senti que no lugar de atacar-me com os costumeiros palavrões procurava dialogar e convencer-me a libertá-la.

Jamais faria isso. Porque somos casados, quero-a bem e sempre tive o maior interesse em preservar nossa união.

Mesmo porque ela estava emagrecendo a olhos vistos. E, gradativamente voltava a ser aquela apetitosa menina que eu conhecera e desposara.

Excelência. Foram apenas vinte e oito dias. Ela passou a ostentar um corpo escultural e ficou linda. Apenas um pouco pálida pela natural falta de sol.

Percebi que estava na hora de soltá-la. Meu método fora um sucesso. Naquele instante pensei até em patenteá-lo.

Procurei mostrar-lhe esse fato, com a certeza de que ela ficaria eternamente agradecida.

Mas inexplicavelmente, excelência, estava profundamente enganado. Pois quando dela me aproximei para entregar-lhe um pequeno espelho, ela arrebatou-o das minhas mãos e por pouco não acertou minha cabeça com ele. Senti que era portadora de um rancor indizível. Não consegui compreender, mas ela me olhava deixando transparecer que nutria um ódio mortal pela minha pessoa.

Confesso que tive receio de libertá-la sem qualquer cautela. Pois conhecendo seu gênio agressivo e difícil, poderia prever as seqüelas que se seguiriam.

Foi então que fui buscar o automóvel e estacionei-o, funcionando, defronte ao silo. E, da porta, joguei-lhe a chave do cadeado.

Ao celeremente retirar-me pude ainda vê-la pelo espelho retrovisor a perseguir-me. Corria leve e com movimentos graciosos. Mas não conseguiu alcançar-me.

Pensei que com o passar do tempo, depois de meditar sobre os fatos de forma calma e refletida, voltaria a procurar-me. Estaria disposto até a perdoá-la. Mas a ingrata, ao contrário, inexplicavelmente resolveu processar-me.

Meritíssimo. Permita-me pedir-lhe, agora, no final deste desabafo. Desnecessário será ouvir testemunhas ou prosseguir nesta alentada instrução. Bastará exigir-lhe que exiba uma foto sua. De corpo inteiro. Datada de seis meses atrás. Vossa excelência terá muita dificuldade em reconhecê-la.

Mas será o suficiente para uma perfeita e completa aferição de ambas as situações: o antes e o depois.

Tenho a certeza que V. Exa. não hesitará em absolver-me desta ignominiosa e infundada acusação.
Tagobar
Enviado por Tagobar em 30/10/2005
Código do texto: T65298

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