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ATO HERÓICO

                                                Ronaldo José de Almeida
Ainda mocinha Crisália já se enveredava pelo caminho da costura e com pouco tempo de profissão ganhou fama de excelente costureira arrebanhando grande cliente-la.
Pedalando uma velha máquina de costura marca Leonam, Crisália passou a vida ao lado de Tristão, seu marido caminhoneiro e das filhas Florência e Floriana, já casadas.
Com a chegada muito justa da aposentadoria a costureira resolveu visitar a filha mais velha que residia no Rio de Janeiro, preparou durante alguns dias a viagem cercada de grande expectativa e partiu num final de semana.
No Rio de Janeiro foi recebida com grande alegria pela filha Florência, Arcândio seu marido e o filho Paulo Romário de 8 anos.
Durante o almoço Crisália manifestou vontade de visitar uma amiga de infância, sabia o endereço, porém o genro Arcândio, não dispunha de tempo para levá-la, devido o expediente de serviço.
---Não tem importância Arcândio, eu pegarei o lotação, disse Crisália.
---É muito perigoso mamãe, disse Florência.
---Não se preocupem, sou velha mais não sou boba, sei me cuidar, falou Crisália decidida.
---Tudo bem mamãe. O ponto do ônibus é aqui perto, e o bairro não é muito distante.
---Irei amanhã bem cedo e voltarei após o almoço.
 Na manhã seguinte Crisália postou-se toda arrumada no ponto do lotação, ao lado de vários usuários, a tudo observava e assim que o ônibus chegou, juntou-se aos demais passageiros na fila de entrada.
Quando subiu o degrau à costureira levou um forte esbarrão do lado esquerdo, voltou-se e não viu quem lhe deu o tranco, mas notou que o relógio que portava tinha sumido do seu pulso.
Muito assustada Crisália acomodou-se numa poltrona, de repente avistou um negrão muito alto e forte de pé no corredor com o braço erguido e segurando a alça de apoio.  No pulso do negrão espadaúdo, reluzia o relógio da velhinha costureira.
Muito nervosa Crisália abriu a bolsa e despejou no colo alguns poucos reais amarrados por uma borrachinha, (o dinheiro maior estava dentro de um saquinho de pano, fechado por um cordão e sob o vestido, preso a cintura),  um carnê do Ponto Frio com duas prestações a vencer, um santinho de Santo Expedito, um batom cor de uva já bastante usado, uma escova par cabelo, um molho de chaves, um retrato do Sidney Magal recortado da capa da revista Contigo, cartelas de Lexotan, Neosaldina e Celozok, gotas inseparáveis para pressão, além de uma tesoura e fita métrica.
Apanhou a tesoura e colocou tudo novamente dentro da bolsa, levantou-se e postou-se atrás do negrão.
Disfarçadamente colocou a tesoura nas costas do rapaz pressionando-a e fazendo com que o homem assustado desse um passo a frente.
Em seguida a velhinha costureira disse em voz baixa:
--- Devolva meu relógio, ladrão.
O negrão mais assustado ainda olhou para ela de olhos esbugalhado e entregou o relógio.
--- Agora desça no próximo ponto, disse com autoridade a velha senhora cutucando o homem com a tesoura.
O negrão com o corpo enrijecido sob a ponta da tesoura obedeceu e Crisália sentou-se novamente satisfeita.
No final do dia ao retornar a casa da filha, Crisália a mesa de jantar expôs a sua façanha mostrando a todos o relógio, quando então Florência ficou de pé e muito sobressaltada falou:
---Minha mãe a senhora saiu de casa sem o relógio, o esqueceu no lavatório do banheiro!!!
RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Enviado por RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA em 10/10/2007
Reeditado em 28/02/2009
Código do texto: T687994

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Sobre o autor
RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Montes Claros - Minas Gerais - Brasil
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RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA