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COQUILLES SAINT-JACQUES





-“Há cinqüenta e quatro anos reino de forma absoluta, disse o califa de Aldebaran. Posso afirmar que nestes longos anos nunca nada me faltou. Sempre fui amado pelos meus amigos e temido pelos inimigos. Tive todas as mulheres que quis e obtive todos os prazeres e venturas que a vida pode proporcionar a um homem. Foi, então, que resolvi contar os dias que desfrutei de genuína e verdadeira felicidade: foram quatorze” .

Foi algo deste teor que efetivamente afirmou o tal califa. Eu confesso, não estava lá para ouvir e, de forma imperdoável, não recordo quem disse ou escreveu algo bem parecido com esta deliciosa passagem.

Mas, dela lembrei-me quando, outro dia, encontrava-me a divagar. Porque tive pena do personagem. Quantos dias de ventura não poderia ter acrescentado à sua triste existência, tivesse conhecido um bom chefe de cozinha.

Um daqueles criativos e versáteis que sempre existiram em todos os tempos. Provavelmente deve ter faltado tato ao governante. Ou quando menos iniciação gastronômica.

De qualquer forma seja-me permitido sugerir uma delicada iguaria que, convenientemente preparada, bem poderia ter se transformado no seu décimo quinto dia feliz de vida terrena.

Cuida-se de um molusco de rara beleza e inconfundível sabor: a vieira.

Vive na mais graciosa e atraente das conchas marítimas movimentando-se lentamente nas areias da praia. Você talvez nunca a tenha notado, mas está cansado de vê-la reproduzida em desenhos, pois uma multinacional do petróleo adotou sua concha como símbolo.

Come-se dela apenas o núcleo central, alvíssimo, e suas ovas de cor coral, em formato de meia lua. As mais bonitas que vi surpreendentemente eram nacionais, vindas do litoral sul e, a parte comestível media cerca de quatro centímetros.

Mas vamos ao seu preparo.

Se V. quiser humilhar seus convidados, prepare como entrada quente, algumas Coquilles Saint-Jacques.

Comece elaborando um molho branco tradicional de média consistência utilizando alguma cebola picada, manteiga, farinha de trigo e leite. Acrescente alguns cogumelos fatiados e, mais tarde, creme de leite correspondente a uma terça parte do volume do creme. Reserve.

Leve a frigir delicadamente as vieiras em manteiga, apenas por alguns minutos. Junte-as ao molho e, a tudo, acrescente parmesão ralado.

Prove. Resista a tentação de renovar por inúmeras vezes esse ato, mas preocupe-se em encher as conchas com o precioso amálgama.

Para encerrar recubra-as tenuamente com um queijo parmesão de boa qualidade.

Quando os convivas chegarem leve-as ao forno para gratinar. Não sem antes separar meia dúzia que você deverá esconder bem no fundo da geladeira para poder desfrutar de seu delirante encanto quando estiver sozinho.

Faça com que sentem todos à mesa, preste informações sobre a rara iguaria que irão degustar e insista que se mantenham comportados. E, em silêncio.

Aproveite para lembrá-los que esse bicho é caro e esse prato é só a entrada. Por isso mesmo de nada adiantará tentar repeti-lo porque você não irá permitir.

E sente-se também.

Afinal de contas, você não é nenhum desavisado califa e não vai querer perder um dos dias mais preciosos da sua vida, desperdiçando essa fina iguaria que acabou de preparar.
Tagobar
Enviado por Tagobar em 08/11/2005
Código do texto: T68930

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Tagobar
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