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O Anjo Que Pedia Esmolas

     Jocivaldo, o marido, tolo, mas próspero capiau nordestino, costumava passar longas temporadas fora de casa, tratando de assuntos de compra e venda de gado. Sebastiana, a mulher, morena trigueira, cabocla interiorana taluda e dona de um verdadeiro furor uterino, aproveitava sempre as viagens do marido para enfeitar-lhe a testa com belos e memoráveis chifres.
     Tudo ia bem, até que, em certa ocasião, depois de dois dias de viagem, o cavalo de Jocivaldo assustou-se com uma cobra no caminho, derrubou Jocivaldo e desembestou pelo mato. Não o encontrando, após várias horas de procura, o caboclo retornou para casa. Depois de quatro dias de uma longa caminhada a pé, chegou a casa já noite alta e bateu à porta:
     - Sebastiana! Sou eu, abre!
     Problemão. Sebastiana estava empernada com Soró, um caboclinho alourado e franzino, metido a gaiato, que chegara ao povoado após a partida de Jocivaldo e que logo botara os olhos gulosos em cima de Sebastiana. A cabocla safada, logo que olhara para Soró, sentira-se dominada pela luxúria de conhecer “carne nova”. Então, Soró viera e agora estava ali, enrolado na mesma cama com a cabocla chifreira.    Sebastiana assustou-se:
     - Meu Deus, o meu marido, ele vai nos matar! Foge, foge!
     - Para onde?
     - Corre para o fundo do quintal, fica trepado no galinheiro!
     E Soró assim fez. Pegou um saco onde guardava as suas poucas roupas e escafedeu-se para o quintal. As galinhas ficaram um pouquinho alarmadas com a presença daquele estranho, mas aquietaram-se quando Soró empoleirou-se em dois grossos troncos, a dois metros do chão.
Sebastiana, já recomposta, abriu a porta para Jocivaldo que entrou, tirou o gibão, colocou a espingarda no chão e esparramou-se na cadeira:
     - Ah, mulher, até que enfim! Meu cavalo, assustado por uma cobra, desembestou pelo mato e não consegui mais achá-lo. Voltei do meio do caminho a pé! Estou...
     Não terminou a frase porque, nesse momento, veio lá do quintal um barulho horrível de paus e palhas quebradas, e um infernal cacarejo de galinhas. Jocivaldo pegou a espingarda e correu para o quintal, gritando:
     - É ladrão! É ladrão!
     Era noite de lua cheia e o quintal estava sob uma difusa claridade, de modo que Jocivaldo deu de cara com o caboclinho Soró, estatelado no chão. Apontou e engatilhou a espingarda, gritando:
     - Vou te matar, cabra safado, ladrão da peste!
     Soró, caboclo astucioso, cheio de artimanhas, pensou rápido (e tinha que pensar!...) e gritou:
     - Espere! Não atire! Não é nada disso que você está pensando!
     - É o quê, cabra safado? Fala!
     - Sou um anjo! Sou um anjo!
     - Um anjo?!
     - Sim, meu irmão, sou um anjo enviado pelo Nosso Senhor Jesus Cristo! Mas calculei mal o meu pouso e desci em cima do galinheiro!
     Jocivaldo vacilou e Soró tomou coragem, levantando-se e sacudindo do corpo a poeira e restos de palhas. Na claridade, Jocivaldo observou que o sujeito tinha os cabelos alourados, o porte esguio e fala mansa. Parecia um anjo mesmo, pensou. Retorquiu, já mais calmo:
     - E o que um anjo veio fazer aqui no meu quintal?
     - Está havendo uma crise danada lá no Céu! Está faltando alimentos e a maioria dos anjinhos está passando fome, uma tristeza! Nosso Senhor Jesus Cristo me enviou ao mundo para pedir aos homens de posses e de bom coração – assim como você - uma ajuda.
     - Que tipo de ajuda?
     - Comida para os anjinhos que estão passando fome. Eu já trouxe um saco, olhe!
     Jocivaldo olhou para o saco na mão de Soró e se convenceu. Chamou por Sebastiana:
     - Ô mulher, vem aqui!
     Sebastiana, toda se tremendo de medo, acercou-se.
     - Esse moço aqui é um anjo, enviado por Nosso Senhor Jesus Cristo. Veio ao mundo para conseguir comida para os anjinhos que estão passando fome lá no Céu. Pega esse saco aí e enche com farinha d’água e carne de sol. Coloca também uns pedaços de rapadura e um pouco de doce de goiaba.
     Soró, o caboclinho safado, conteve-se a custo para não rir. Pensou, divertido: “Que idiota! Comi a mulher dele e ainda levo a comida da despensa. Encho a minha barriga duas vezes!”
     Enquanto Sebastiana foi providenciar os mantimentos, Jocivaldo ficou conversando com o falso anjo sobre as novidades do Céu. A essa altura, já tinham providenciado uma bela cadeira de balanço e um refresco de maracujá para Soró, tendo em vista que a viagem do Céu para a Terra fora muito cansativa e ele precisava refazer as energias, porque os anjos também cansam...
     Dez minutos depois, Sebastiana voltou com o saco cheio de comida e o entregou a Jocivaldo, que falou de modo comovido para o anjo:
     - Tome, meu irmão, leve essa comida para os anjinhos. E que o Nosso Senhor me abençoe e me reserve um bom lugar ao seu lado no Céu!
     - Sim, meu irmão, o Nosso Senhor saberá reconhecer a sua caridade. Os seus pecados serão todos perdoados.
     - Amém, meu anjo, amém!
     Soró, o falso anjo, colocou o saco nas costas e dirigiu-se para a porteira de saída do rancho. Quando já estava bem próximo, Jocivaldo gritou:
     - Ô, seu anjo, peraí!
     Soró parou, voltou-se e falou mansamente:
     - Sim, meu irmão?
     - O senhor não veio voando, de lá de cima, do Céu?
     - Sim, claro!
     - E como quer voltar andando? Trate de subir, ora!
     E como o tal anjo demorasse a levantar voo, engatilhou a espingarda e apontou para o horrorizado Soró...





















Antonio Maria S Cabral
Enviado por Antonio Maria S Cabral em 15/10/2007
Reeditado em 06/02/2011
Código do texto: T695073
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Antonio Maria S Cabral
São Luís - Maranhão - Brasil
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