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OS MINEIROS

                    Ronaldo José de Almeida

Vieram do interior de Minas, Custódio conheceu Anita no grupo escolar, ainda garoto apaixonou-se pela linda moreninha de olhos verdes e cabelos longos e negros como a asa da graúna. Daí ao casamento foi coisa rápida. Juntos e trazendo os pais da moça a reboque foram para o Rio de Janeiro, onde com o dinheiro economizado e somado ao amealhado com a venda da gleba e alguns animais arrendaram uma padaria pequena, mas de boa clientela.
Custódio nas horas de lazer prometia a Anita levá-la a Lapa do Bom Jesus, na Bahia, que a morena admirava só de ouvir os relatos dos amigos e parentes que lá estiveram. As promessas arrancavam suspiros da menina.
Custódio também não conhecia a cidade baiana, mas sonhava em conhecer, desde menino ouvia os romeiros contar maravilhas do lugar.
Com o passar dos tempos, o sonho de ambos se perdeu. Ela descartou primeiro e ele desistiu de relutar com a engorda dela.
O casal comemorou uma boda, Anita também engravidou, mas não se sabe o motivo perdeu a criança.
 O trauma também comprometeu futuras concepções da esposa; fatos que nem os parentes ou verdadeiros amigos souberam além do necessário.
Daí em diante, acostumaram-se a conviver com a amargura e com a dor, que se tornaram tantas a ponto de Custódio pensar em voltar para seu torrão natal, fato de pronto aceite de Anita.
 Ao pé do balcão permaneceram por mais de duas décadas, com o trabalho árduo conseguiram algum patrimônio, desfrutando assim de uma vida com certo conforto.
Custódio conheceu a inflação e investiu o pouco que lhes sobrara na agiotagem.
Fez o dinheiro crescer sozinho à base de muito suor - na captura de seus devedores - e sacrifícios pessoais.
Moravam até então, numa cabeça de porco: quarto e banheiro num imenso casarão do século dezoito, onde se amontoavam mais de vinte famílias - bairro da Glória.
Trabalharam com afinco até que abriram sua própria padaria. Era o recomeço.
 Financiaram um pequeno apartamento e compraram um carro utilitário usado.
 No segundo aniversário do estabelecimento, já mantinham - mensalmente - metade dum automóvel zero no caderno e forneciam pães, queijos e doces para dezenas de refeitórios e restaurantes da região central.  ---O horizonte parecia lhes sorrir.
 O astuto Custódio jamais abandonara o crédito pessoal e muito se garantia com ele, entre permutas e confiscos; tinha um fiel escudeiro, antes bancário, que comandava suas cobranças com severa brutalidade, se preciso fosse.
 Adotaram um órfão e deram-lhe o maior dos sentimentos, na tentativa vã de estancar a dor, mas o tempo tratou de espelhar no adotivo, a tragédia do herdeiro morto.
A infelicidade era um dom, uma melancolia que os martirizavam com a saudade do interior de Minas Gerais.
O filho já adulto enganjou-se na Policia Militar e assim não tardou a ser morto numa troca de tiros com traficantes no morro.
Anita dizia que a criança morta era prenúncio de que não lhes era de bom grado proliferar.
Envelheceram cercados deste turbilhão de más recordações.
Passando dos setenta, Custódio encontrava-se mergulhado na nostalgia juvenil e nos imensos atropelos emocionais que a vida os conduzira.
Qual a valia de sua existência? Como determinara pífia existência a sua amada Anita?
Respondia-se com silêncio profundo de olhos fundos marejados.
Certo dia após pagar seus funcionários e baixar a porta comercial, o mineiro entornou bons e cheios cálices de vinho até findá-lo e seguiu na aguardente de cana, embriagando-se lá e cá.
Completamente alto, uma idéia o embaralhou, levaria sua querida Anita a praia.
Torná-la feliz virou sua nova obsessão. Queria aproveitar a vida.
De manhã bem cedo, Custódio tomou um comprimido azul e disse a Anita que decretara feriado na data e iriam à praia de Copacabana, aproveitar um dia disfarçado de domingo.
Anita desgostou a princípio, mas o marido suplicou e ela então acatou.
Relaxaram-se na areia durante horas e, depois de meia-dúzia de caipiras, Custódio revelou-lhe seu plano de aproveitar a vida doravante.
Ela estranhou a idéia de súbito, porém, a vida toda fora convencida pelo marido e estava velha demais para começar a discordar dele.
Dançaram uma valsa com os pés n'água e lançaram-se ao mar. Beijaram-se sem pudor, afagaram-se, pegaram jacaré, riram à toa e foram se despindo, até não lhes sobrar roupa alguma.
Abraçaram-se por alguns minutos, e nus, deixaram o mar e atracaram-se na areia, num ato próprio de adolescentes afoitos - escandalizado pelo intumescimento atemporal e farmacêutico do marido, milagre dos novos tempos.
Copacabana parou.
Alguns riam, outros se escandalizavam. Aprovações e reprovações. A multidão aglutinou-se para ver a aventura do casal. A seguir, veio a polícia, que com o respeito devido aos anciãos, cobriu-os e removeu-os - de camburão - à delegacia mais próxima.
Ficharam o casal de primários e liberaram-no, para uma vasta fatia da imprensa que o esperava à porta.
Entrevistas, participações especiais na TV, convites para revistas e filmes pornos...
Atingiram enfim, toda a mídia, de modo inusitado e inovador.
Custódio viu dobrar o movimento da padaria, e perdeu a conta de quantas vezes repetiu a história para os amigos e clientes.
Quando, de abusado, o fato transformou-se em patético, recolheram seus pertences e retornaram ao interior mineiro, onde compraram uma pequena gleba para findar suas existências.
Anita não realizou o seu sonho de conhecer a cidade baiana de Bom Jesus da Lapa.

RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Enviado por RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA em 17/10/2007
Reeditado em 18/12/2007
Código do texto: T698822

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Sobre o autor
RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Montes Claros - Minas Gerais - Brasil
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RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA