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ACAMPAMENTO FATAL (CONFISSÃO)





“Padre, admito que errei. Preciso confessar-me”.

“Conte-me do início, meu filho”.

“Ela era minha colega de trabalho. Amiga, dedicada, prestativa e até me ensinara o serviço quando ingressei na empresa. Dividíamos responsabilidades realizando a mesma tarefa e, por isso, permanecíamos praticamente juntos durante quase todo o dia”.

Almoçávamos no mesmo horário, chegávamos e saíamos juntos, tínhamos idênticas idéias, anseios semelhantes e nossos laços de amizade foram se estreitando cada vez mais.”

“Foi quando, num fim de semana prolongado resolvi conquistá-la. Já sabia de sua inclinação para as coisas agrestes e pela vida selvagem. E, conhecendo um local bastante ermo e retirado, convidei-a para acampar onde pudéssemos ficar longe de tudo e de todos em contato íntimo e direto com a natureza.”

“Ela ficou radiante. E, com muito entusiasmo ajudou-me a programar a viagem. Entre outras coisas, sabedora que eu sempre fora um bom “gourmet”, pediu-me que a deixasse cuidar da comida. Sempre afirmara que um dos pontos fortes de sua personalidade era a cozinha onde eu jamais lhe dera chance de atuar. Por outro lado, asseverou, desde tempos imemoriais, essa sempre fora obrigação de toda mulher. Da qual ela não pretendia se furtar.”

“Não tive como discordar. E foi por esse motivo que esmerou-se sozinha  na aquisição e acondicionamento de todo acervo culinário.”

“Saímos com um potente veículo tipo jeep na sexta-feira de madrugada. A viagem foi longa e demorada pois tivemos que atravessar uma região inóspita e abandonada, improvisar pontes e pinguelas, contornar obstáculos, atravessar atoleiros e, as últimas três horas do percurso, improvisar a própria estrada que deixara de existir”

“Somente ao escurecer, conseguimos chegar a um local decididamente selvagem, bem no alto de uma montanha perdida no mapa e de todo desconhecida.”

“Ao chegarmos logo percebi que era uma companheira formidável. Apesar de haver dirigido sozinha o pesado veículo que nos transportava, encontrava-se lépida e disposta. Eu, todavia, não escondia o cansaço que me dominava. É que, diferentemente dela, eu nunca fora fã nem estava acostumado com esse contato direto com a natureza.

Embora extenuado inclinei-me por realizar um prévio levantamento dos arredores. Ela não esperou porque quando retornei pude notar que com presteza já descarregara sozinha todas as caixas e tralhas, desbastara o terreno e já estava fincando as estacas para montar a barraca. Deixei-a terminar esse serviço que demonstrava conhecer com perfeição, mesmo porque eu nada dele entendia.

Disse-lhe que estava com muita fome e iria improvisar algo para comer. Ela não permitiu. Informou que havia programado para o jantar um risoto de camarão e passou, com desenvoltura a montar rapidamente a cozinha do acampamento. Vi, de relance, um pacote de arroz arbóreo italiano e, dentro de um isopor com gelo, alguns enormes camarões rosa temperados.  Então, tranqüilo, afastei-me para não perturbá-la.

Recostei-me para aguardá-la. Acabei por dormir. Fui despertado suavemente com seus carinhos e um prato da iguaria que terminara de fazer.

Sentei-me para degustá-lo. Entretanto o visual não estava a me agradar. Na primeira garfada senti que o arroz se transformara em pura polenta cremosa e um camarão que ousei mastigar tinha a consistência do isopor que o contivera. O tempero do prato era nenhum e o sabor lembrava o da cola branca escolar.

Não senti qualquer constrangimento em participar-lhe que estava profundamente desapontado, pois ela preparara uma verdadeira droga. E, com todo o respeito iria servir-me de alguns biscoitos com patê de “foie gras” que vira numa das caixas de mantimentos. Não sem antes ressaltar, todavia, que a cerveja estava ótima.

Ela aceitou com humildade as críticas que lhe enderecei. Procurou desculpar-se informando que o fogão não estava funcionando a contento e o lampião era pequeno e de fraca luminosidade. Além disso encontrava-se excepcionalmente esgotada. Mas prometeu caprichar no almoço do dia seguinte. Não tive como deixar de aceitar suas escusas. E fomos dormir.

Quando acordei ela já se encontrava de pé. Serviu-me café com leite, pão, aquelas geleias de sempre, queijo, presunto e algumas frutas. Nada de excepcional, mas também coisa alguma a comprometer aquele desjejum improvisado.

Participou-me que o incidente alimentar noturno fora esporádico e acidental. Por isso nenhuma resistência ofereci ao cardápio que se propunha a fazer: lulas a dorê de entrada, camarão na moranga com arroz de açafrão e fritas como prato principal e torta folhada de morangos de sobremesa. Disse-me que trouxera todos os ingredientes necessários e tinha todo o tempo do mundo para dedicar-se ao seu preparo. Pediu-me fosse dar um passeio e desfrutasse de toda aquela deslumbrante paisagem. E informou-me que não gastaria mais de três horas na preparação do almoço.

Concordei e fui a pé conhecer o outro lado da montanha. Estávamos muito alto e a vista era magnífica. Encontrei um pequeno lago de águas límpidas e cristalinas onde resolvi mergulhar. Sentia-me no paraíso e, absorto, cheguei mesmo a dormitar.

Retornei renascido ao acampamento. Logo percebi que ela se empenhara na tentativa de resgatar sua credibilidade culinária. Improvisara uma mesa, escolhera uma belíssima toalha e até recolhera algumas flores silvestres para decorá-la.

Decididamente procurava agradar-me. Serviu-me, de início, uma batida de limão que sabia do meu gosto. Mas, lamentavelmente limitei-me apenas a experimentá-la, pois estava por demais ácida além de melada.

Apressou-se em buscar as lulas. Duras, emborrachadas e com sabor de sola de sapato. Surpreendeu-se quando lhe disse que estavam intragáveis.

Rapidamente trouxe-me a moranga.

Não sei onde aprendeu a prepará-la, mas logo no primeiro olhar notei que estava crua. Os camarões, retorcidos pelo cozimento exagerado encontravam-se imersos num mingau insosso e descolorido. O arroz era uma papa e a batata queimada nas bordas.

Fui forçado a reclamar veementemente informando-lhe que não iria ingerir aquela jostra. E duvidava mesmo que ela o conseguisse.

Ela procurava desculpar-se e já quase a soluçar indagou-me se apesar de tudo aceitaria provar a sobremesa.

Sim, respondi, porque estava com uma fome de doido. Aliás, desde o dia anterior.

Trouxe-me uma fatia do que deveria ser uma torta folhada. Macilenta, sem sabor, triste e horripilante.

Levantei-me indignado e disse-lhe tudo o que merecia ouvir. E, não me importei quando começou convulsivamente a chorar.

Nesse momento tomei a decisão de abandoná-la. Ali mesmo, pois estava a merecer ficar só e meditar no ato ignóbil que praticara.

Apesar da longa distância a volta foi mais fácil. Não me preocupei com ela, pois tinha a certeza que não teria dificuldades em sobreviver. Como já dissera estava bem suprida de mantimentos. E não lhe faltaria água, pois a menos de uma hora encontrava-se o lago onde eu estivera. E, habituada aos ambientes agrestes logo o encontraria.

Entretanto acabei por arrepender-me. Comecei a pensar que não deveria ser nada agradável suportar sozinha aquela quantidade enorme de mosquitos, além de aranhas cabeludas e escorpiões gigantes que infestavam aquele lugar.

Lembrei-me também que ela poderia estar no escuro, pois os botijões de gás haviam permanecido no carro e voltaram comigo. Juntamente com a caixa principal de mantimentos, ainda intocada.

Além disso, senti sua falta no trabalho logo na segunda feira, pois fui forçado a fazer o serviço dos dois. Fato que se repetiu por todos os dias seguintes.

Já meio arrependido resolvi ir buscá-la. E, refiz sozinho toda aquela longa e penosa viagem.

Foi difícil localizá-la. Encontrei-a apenas no dia seguinte há mais de cinco quilômetros de distância do local onde havíamos acampado, num estado deplorável, com as roupas sujas e rasgadas, faminta e assustada.

Além de tudo estava furiosa. Contei que viera buscá-la e ela concordou que a levasse de volta à sua casa. Permaneceu em silêncio toda a viagem. Também nada reclamou. No fundo, creio, a solidão talvez tivesse sido benéfica, pois permitiu tomasse plena consciência do que fizera.

Mas depois de passado um bom tempo, conjeturando, cheguei a conclusão que estava errado. Está certo que ela mentiu e demonstrou ser uma péssima cozinheira. Mas tinha a seu favor a circunstância de que havia se esforçado ao máximo para acertar. E, com abstração do aspecto culinário, mostrou ser uma mulher quase perfeita e bastante interessante.

Padre! Reconheço que pequei!

Pequei! Pequei! Pequei!

E penitencio-me publicamente por ter pecado!

Não poderia tê-la abandonado por mais de dez dias, sozinha, naquele lugar inóspito e selvagem.

Três teriam sido mais que suficientes!
Tagobar
Enviado por Tagobar em 12/11/2005
Código do texto: T70549

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