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Pérolas do Cotidiano - Por essa ningúem esperava.

PÉROLAS DO COTIDIANO

* Paulo Guiné – 24/10/2007 *


POR ESSA NINGUÉM ESPERAVA

         Os jogadores da Espanha calçavam chuteiras pretas e meias vermelhas. Vestiam calções azul-marinho e camisas da mesma tonalidade das meias.  Os adversários — a briosa equipe da Nigéria — estava toda de verde.  Da cabeça aos pés, inclusive as chuteiras e os cabelos dos craques africanos eram todos dessa cor.  O jogo era de vida ou morte.  Quem perdesse estaria praticamente fora da disputa pelos primeiros lugares.  Copa do Mundo é torneio de tiro curto.  Quem perde está roubado.  Os times têm que fazer das tripas coração para se recuperarem de uma má  performance. E eles sabiam disso mais do que ninguém.  Por isso, naquela tarde de um lindo sábado parisiense,  quando as equipes entraram em campo, os nervos estavam a flor da pele.  O jogo era decisivo e, por isso mesmo, de alto risco.
   
                Para controlar com mão de ferro os entreveros que poderiam ocorrer em campo,  a  FIFA, mui sabiamente, diga-se de passagem, escalou um trio de arbitragem da pesada, desses pra nenhum fariseu botar defeito:  como juiz, nada mais nada menos do que o Mike Tyson.  Para bandeirinhas,  Evander Hollyfield e Adílson Maguilla. Com esses brutamontes, segundo pensaram os dirigentes da Entidade Mater do velho e violento esporte bretão, o bom andamento da partida estava garantido.  Todo o cuidado era pouco.  Além do mais, o técnico da Nigéria era tido e havido como um grande criador de casos.  Quando discordava da marcação de alguma penalidade contra o time que dirigia, queria logo partir para os  finalmentes.  Por isso toda essa precaução.

                O estádio estava lotado. Representantes de Jornais, Revistas,  Emissoras de rádio e de TVs de todo o mundo estavam  presentes, cobrindo o evento.  Todos foram unânimes em reconhecer que as providências tomadas para resguardar o bom andamento do espetáculo foram, deveras, supimpas.  Aqueles três armários ambulantes dariam, com sobras, conta do recado.  Quanto a isso, não havia dúvidas.

                O jogo até que transcorria com certa tranqüilidade, havendo lealdade de ambas as partes:  carrinhos só na bola, as faltas ocorriam sem dolo ou violência, na hora dos corners, os empurrões e os agarra-agarras eram bem discretos. Parece que o trio escalado estava impondo mesmo respeito aos contendores.  Também, não era para menos, pensarão os leitores, com razão.

                Quando faltava apenas um minuto para o encerramento da pelada, que estava 0x0, placar que consultava, perfeitamente, os interesses de ambas as seleções,  um atacante da Nigéria entrou na área da Espanha com a bola dominada e, quando ia fazer o gol, foi derrubado por trás.  Falta claríssima.  PENALTY,  PENALTY,  PENALTY !!!! Gritou todo o estádio em uníssono.  Só quem não achou a mesma coisa foi justamente o juiz, que nada marcou, fazendo sinais para que o jogo prosseguisse.   Como os jogadores nigerianos reclamavam veementemente,  Mike Tyson foi consultar os seus auxiliares.  Tanto Hollyfield como Maguilla, talvez até para não contrariar o “Chefe”,  fizeram sinais com suas bandeiras, dando a entender à platéia que Tyson estava certo quando nada marcou.

                Como não concordou com a garfada da qual estava sendo vítima, e fazendo jus à fama de que era precedido, o técnico da seleção nigeriana partiu pra cima do trio de incompetentes com tudo o que tinha direito. Estava transtornado.  Uma verdadeira fera.  O que será que iria acontecer ?

                Quando Tyson e sua troupe perceberam que o homem tinha mesmo virado uma fera e tinha partido pra cima deles, foi um Deus nos acuda.  Saíram os três disparados para o vestiário dos árbitros com o comandante da esquadra verde, possesso, correndo atrás deles.  Os espectadores vaiavam estrepitosamente.   Até a polícia foi pega de surpresa.  Em vez de proteger os mediadores da contenda, saíram também disparados, em direção à porta de saída do estádio.

                A confusão foi de tal monta que só no dia seguinte se pôde saber, realmente o que havia ocorrido.  Foi numa entrevista do trio —  a essa altura dos acontecimentos, mais famoso ainda — a uma emissora de TV.  Quando o repórter indagou porque eles saíram disparados sem  esboçar nenhuma reação, eles esclareceram:

 -  QUEM É QUE PODE COM O INCRÍVEL HULK ???
             

                                                           *************

                                       
Paulo Guiné
Enviado por Paulo Guiné em 24/10/2007
Código do texto: T707384

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Sobre o autor
Paulo Guiné
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
22 textos (1258 leituras)
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