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As Aventuras de Tonico- "Deixa Comigo!"


“Que Deus me livre dos meus amigos, que dos meus inimigos me livro eu”, disse Voltaire, o grande pensador francês do século XVII. E depois que eu contar para vocês algumas histórias sobre meu amigo Berto, vocês hão de concluir que não só Voltaire estava certíssimo, como eu, desde o começo, deveria ter fugido de Berto assim como o diabo foge da cruz....

Conheço Berto desde os tempos de meninos, quando roubávamos goiabas nos quintais das casas do bairro do Apeadouro, em São Luís do Maranhão, ou subíamos nas árvores altas que circundavam as fontes para flagrar as mulheres tomando banho.

Berto tinha a mania de achar que podia resolver tudo. O seu grito de guerra era: “Deixa comigo!” A gente deixava. Hum, mas, nem sempre dava certo.

Lembro-me da última partida do campeonato de futebol do bairro, de 1958. Estávamos perdendo por dois a um, quando, no finzinho do jogo, o juiz marcou um pênalti a nosso favor. Um empate daria o título para o nosso time, e tínhamos três bons batedores de pênaltis: eu, meu irmão Joaquim, e o Jiquiri, mulato forte, que tinha uma pegada incrível na perna direita. Mas, o Berto arrancou lá de trás, gritando, freneticamente:

- Deixa comigo! Deixa comigo!

Deixamos. Berto botou a bola na marca do pênalti, tomou distância, correu, chutou forte. Para o alto. A bola subiu como um foguete por cima da trave e foi acertar a bela vidraça do prédio de dois andares que havia no fundo do campo de futebol. Onde morava o delegado. Perdemos o jogo, o campeonato, e tivemos que botar sebo nas canelas, pois o homem, furioso, invadiu o campo, dando tiros a torto e a direito.
Anos depois, reencontramo-nos no Rio de Janeiro, ambos na condição de bancários. Berto tinha um bom papo, era uma companhia agradável, e retomamos a amizade de infância. Às sextas-feiras, eu, ele e alguns outros amigos costumávamos tomar uns chopes no Bar Amarelinho, na Cinelândia.

Um dia, ele nos convidou para uma festa de 15 anos da filha de um general, no Engenho de Dentro. Quando nos encontramos na Estação, tive a idéia de perguntar:
- Berto, com quem conseguiste o convite?
- Que convite?
- O convite para a festa da filha do general, ora!
- Não tenho convite, mas não precisa, deixa comigo!

Tinha um senhor levemente grisalho, de alta estatura, recebendo os convidados, e Berto cochichou para a gente:
- Aquele ali deve ser o mordomo. Deixem comigo, rapazes!
Tomou a frente e, na porta, falou alto:
- Olá, sou sobrinho do general, moro em Copacabana, faz tempo que não ando por aqui. Estes rapazes estão comigo, são meus amigos. Onde está meu tio?
E foi entrando e convidando:
- Entrem, entrem, rapazes, vou procurar meu tio!
O mordomo chamou Berto:
- Ei, você!
Berto respondeu com maus modos:
- O que é, cara?
- Quem é você?
- Sou sobrinho do general, já disse.
- Eu sou o general, cretino! Fora daqui, tu e essa cambada! – e fez um sinal para três fortes rapazes que, pelo corte dos cabelos, deviam ser recrutas. Apanhamos que não prestou...

Ainda no Rio de Janeiro, caminhávamos pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana quando passou uma mulher de parar o trânsito. Por Deus e cem milhões de diabos, aquela mulher era um monumento! E quando o avião passou por nós, Berto falou::
- Deixa comigo...
E lançou o famoso:
- Gostooooosa!
O pedaço de mau caminho parou e retrucou, séria:
- Gostoso é meu marido, rapaz.
Berto não perdeu o rebolado:
- Pode ser, mas não é o seu marido que quero comer, é...
E nem terminou, pois a mão pesada de um negão de uns 1,90 m de altura estalou no pé do seu ouvido direito, fazendo-o cair no chão feito uma jaca podre. Era o marido da gostosa...
E se eu não me escafedesse rápido, com certeza, sobraria para mim também...

Depois disso, nos perdemos de vista. Voltei para o Maranhão, Berto também. Eu entrei para a Faculdade de Letras e Berto, para a de Medicina. Em 1985 tive uma crise de apendicite e fui levado às pressas para o Pronto-Socorro Municipal. Uma acadêmica de Medicina atendeu-me na emergência hospitalar, diagnosticou o caso e me falou:

- Seu caso é de cirurgia. Deite-se ali, que vou avisar o cirurgião.

Passaram-se 20 minutos e nada da moça voltar. Já tendo tomado uns analgésicos para controlar a dor, dirigi-me para a sala dos médicos. Ao chegar mais perto, pela porta entreaberta, percebi que a acadêmica falava com alguém que me parecia muito familiar. Fui chegando mais perto e ouvi o diálogo:

- Doutor, o senhor vai operar o paciente com apendicite?
- Sim, Tereza, prepara o freguês lá direitinho, e o resto, deixa comigo!

Pelos chifres de Satanás, tinha que me escafeder dali urgentemente! Corri para a porta do hospital, chamei um táxi, peguei-o, e fui para uma clínica particular, onde fui submetido a uma apendicectomia.
Gastei uma boa grana, mas, como vocês podem comprovar, continuei vivo...




Antonio Maria S Cabral
Enviado por Antonio Maria S Cabral em 26/10/2007
Reeditado em 25/10/2011
Código do texto: T711570
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Antonio Maria S Cabral
São Luís - Maranhão - Brasil
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Antonio Maria S Cabral