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JANTAR DE NEGÓCIOS (CONFISSÃO)





“-Padre! Penso que pequei! Sinto que preciso confessar-me”.

“-Pode falar meu filho”.

“- Padre. Há oito anos sou funcionário graduado de uma empresa multinacional. Trabalho como um condenado. E o senhor sabe o quanto é difícil subir de posto”.

“- No mês passado surgiu uma vaga junto à sub-chefia. E resolvi lutar por ela”.

“- Consegui aproximar-me dos dois chefes mais diretos, aqueles que iriam tomar a decisão da escolha e convidei-os para um jantar íntimo em minha casa. E consegui fazer com que aceitassem”.

“-Cheguei eufórico em casa”.

“- Meu bem! Desculpe-me, mas preciso fazer-lhe um pedido. Você está sabendo da minha promoção. E a luta que tenho travado para consegui-la.

Consegui convencer meus dois chefes a virem jantar em casa. Com suas mulheres.

Carmem! Sei que nosso relacionamento não está muito bom. Mas nunca precisei tanto de você como agora. Preciso conquistá-los.

Quero pedir-lhe que prepare um jantar super incrementado para recebê-los. E os recepcione como uma dama. Já ficou acertado que virão na sexta-feira. As oito da noite”.

“- Tadeu! Acho que você pirou de vez! Quando nos casamos você sabia que eu era uma negação na cozinha. E disse-lhe que nunca iria aprender porque não gosto.

Além disso, nunca suportei aquela velharada do seu escritório. Lembra daquele churrasco que você me obrigou a ir? Os homens só falam de negócios e, as mulheres não tem outro assunto que as gracinhas dos netos.

Não conte comigo. Invente uma desculpa que não vou topar! ”

“- Amor. É a minha grande e única chance. E, depois, não dá para voltar atrás”.

“- Então faça você mesmo a comida. E também sirva e faça sala para aqueles babacas! ”

Imploro, meu bem. Faça pelo menos a parte mais fácil. O jantar você pode comprar pronto. Será apenas o trabalho de servir. Vestir-se bem você sempre soube. E tudo não durará mais que algumas horas. Juro que se você me ajudar nunca mais pedirei nada. Por favor!

“- Está bem! Vou fazer esse sacrifício. Mas você sabe que não sou boa nisso. Não me venha com críticas se não der certo”.

Obrigado Carmem. Você é um mulherão e merece mil beijos.”

“- Padre, ficamos assim acertados. Ela pediu dinheiro para comprar um traje adequado, roupas íntimas, sapatos, etc. E para encomendar um jantar caprichado para seis pessoas”.

A noite de sexta chegou. Atrasei-me. Fiquei preso no escritório até mais das sete horas, atendendo uma reunião com revendedores. Trânsito difícil, cheguei em casa quase às oito horas.

Assustei-me.

“- Carmem. Carmem. Onde está você? ”

“- Aqui em cima. Pode subir”.

“- O que houve? ”

“- Eu disse que não ia dar certo”.

“- A costureira, às pressas, fez um vestido torto. E não vou usá-lo´.

“- E a comida? ”

“- Já devia ter chegado. Deixei claro na rotisserie que deveria ser entregue antes das oito”.

“- E a arrumação da mesa? Os drinks que você prometeu fazer? Não vejo nada pronto”.

“- Sinto. Também atrasei. Cheguei agora e não deu tempo”.

“- Padre, nessa hora senti o som da campainha”.

“- Vá atender”, disse ela. “- Ou são seus amigos ou a comida”.

Corri. Eram meus chefes e suas mulheres. Eles sempre se gabaram da pontualidade.

A sala de estar era uma bagunça. Cinzeiros com tocos de cigarro, roupão de banho jogado sobre a poltrona, revistas espalhadas por toda parte e até um prato com restos de macarrão instantâneo sobre a mesa.

“- Desculpem-me pela desordem. Mas é que fiquei preso no escritório até tarde. E minha mulher também se atrasou com as compras”.

“- Padre. Pela cara que fizeram senti o impacto. Mas estava jogando tudo naquela cartada”.

Procurei por alguma ordem na sala.

“- Minha mulher está tomando banho e já desce. Enquanto isso vocês tomam alguma coisa? Uísque, guaraná, água?”

“- Eu aceito um uísque. E uma água com gás para minha mulher”, disse um deles.

“- Nada não, obrigado”, disse o outro.

“- Um instante que pego gelo na cozinha e já retorno”,

Voltei.

“- Dr. Richard! Não sei o que houve, mas estamos sem gelo. O senhor aceitaria um doze anos puro? ”

“-Aceito”.

“- Deixe-me ver. Eu tenho uma garrafa aqui no bar, mas não a vejo. Engraçado. Sempre esteve aqui na ponta deste lado esquerdo. Mas não está mais”.

“- Doutor. Não estou encontrando. Tenho aqui um uísque nacional e uma garrafa de conhaque. Poderia ser qualquer deles?

“- Deixa pra lá, Tadeu. Traz água pra dois. Se tiver, com gás”.

“- É pra já “.

“- Doutor. Só tenho sem gás. E não está gelada”.

“- Traz essa mesmo”.

Mas não deu tempo. A campainha tocou de novo.

“- Por gentileza. Só um instante que vou ver quem bate e já volto”.

“- Trouxe a comida encomendada, moço. São duzentos e quinze reais”.

Peguei todos aqueles pacotes e levei a cozinha. Estava sem dinheiro no bolso. Subi as escadas. Encontrei- a a assistir novela.

“- Meu bem. Você tem dinheiro?”

“- Não. Não sobrou”.

“- Por favor, estamos muito atrasados. Seria bom você descer e dar uma esquentada na comida. Diga-me. Essa calça jeans que você está vestindo não vai combinar com nada. As mulheres estão trajando vestidos sociais e eles vieram de paletó e gravata. Será que você não tem nada mais adequado para vestir?”

“- Não sei. Talvez tenha. Mas não estou com vontade. Daqui a pouco eu desço”.

“- Padre. Sofria e suava”.

Desci, paguei a comida com cheque e dispensei o rapaz. Trouxe as águas. A Carmem desceu.

“- Boa noite a todos. Tudo bem com vocês? ”

Não conhecia as mulheres. Mas sabia o que meus chefes estavam pensando. Senti aquele frio na espinha e a sensação de que perdera a promoção.

“- Desculpe o atraso, continuou ela. Mas a comida que comprei para vocês é de primeira. E já vou esquentar tudo.

“- Tadeu”, disse-me o Dr. Richard. “- Eu sei que vocês dois tiveram um dia muito atribulado. E nós não somos de cerimônia. Vamos deixar o jantar para outro dia. Nós preferimos deixá-los à vontade e ir a um restaurante do que dar todo esse trabalho. Não está bom assim? ”

E nessa última pergunta senti meu chefe fazer uma afirmação daquelas que não permitia contrariedade.

“- Tudo bem, doutor. Garanto que no próximo tudo vai dar certo”.

Foi quando a Carmem resolveu intervir:   “- Vocês já vão? E o que vou fazer com toda essa comida que comprei?”

Ele não se dignou a responder-lhe. Virou-se para mim e disse: “- Tadeu! Talvez você possa congela-la, não sei.”  E completou, como sempre, de forma inteligente. “Mas esse é o menor dos problemas que você tem a resolver. Nós já estamos indo. Segunda-feira nos veremos no escritório.”

“- Padre! Pensei fosse morrer. Entretanto ela pouco estava se importando. Subiu para o quarto para terminar de assistir sua novela”.
“- Não preciso dizer, padre, que poucos dias depois a promoção coube a meu colega. Um bobão safado e incompetente”.

“- Mas foi nesse momento que resolvi vingar-me. Porque aquilo que ela fizera não era justo! Afinal de contas ela continuava sendo minha mulher! De que adiantaram todas as juras que fizemos nesta casa de Deus? Melhor seria separar-me dela. Mas antes teria que dar-lhe o troco.”

“- Sabia do seu terror maluco por ratos e baratas. E resolvi investir nesses bichos. Fui ao nosso sítio. A fossa do chiqueiro dos porcos era um ninho de baratas. Pedi ao caseiro que recolhesse um maço delas. Das mais graúdas e voadoras. Ele encheu uma pequena caixa de sapatos com elas. Trouxe-as e guardei-as na dispensa”.

“- Mas precisava também de algumas ratazanas. Fui ao depósito de lixo da Prefeitura. Informei ao lixeiro que precisava duas dúzias delas. Das maiores. Pagaria bem! ”

“- Padre, o senhor precisava ver! Ele encheu uma lata de vinte litros com uns bitelos de assustar. Fizemos alguns buracos na lata para elas pudessem respirar. O rapaz afirmou que elas estavam amontoadas, mas iriam resistir dois ou três dias sem problema”.

“- Era quarta-feira. No dia seguinte aguardei que ela saísse para a academia de malhação. Então tranquei externamente as janelas do quarto. Prendi firmemente a porta do banheiro para que permanecesse sempre aberta. E, esperei-a voltar”.

“- Chegou, subiu e entrou no quarto. Tomava banho, fechada no boxe quando entrei. Abri as duas caixas. Algumas baratas correram. Outras escaparam voando. Os ratos, quando se viram livres saíram adoidados e procuraram rapidamente se esconder. Debaixo da cama, do travesseiro, dentro do guarda roupa e em todo buraco que encontraram. Vi duas enormes ratazanas entrando no banheiro.

“- Não tardaram os gritos. Histéricos e lancinantes. Pude vê-la pelada a correr tentando escapar. Nesse instante saí e fechei a porta por fora”.

“- O que é isso?” gritava. “- Você ficou louco? Deixe-me sair daqui”.

“- Você vai dormir hoje com seus amiguinhos”, respondi-lhe.

“- Ela correu às janelas, mas não consegui abri-las. Foi ao telefone. Percebeu que estava mudo.”

“- Seus gritos eram aterradores. Parecia um porco a grunhir quando o arrastam para matá-lo”.

“- Mas reverendo, confesso que cometi um erro. Seus gritos foram ouvidos pelos vizinhos que acorreram para ver o que se passava. E acabaram por liberta-la”.

“- Ela saiu enfurecida. E, talvez, não tenha permanecido mais que meia hora trancada em agradável companhia”.

“- Foi-se embora. No dia seguinte mandou seu advogado e sua irmã buscar suas coisas. Ingressou também com o pedido de divórcio. Padre! Sabe quem foram suas testemunhas? Meus diletos vizinhos”.

“- Que igualmente resolveram processar-me por ter infestado o prédio com ratos e baratas”.

“-Mas estou aqui porque no fundo estou com um pouco de remorso. Sei que a carga de bichos pestilentos que empreguei para assustá-la foi excessiva. Meia dúzia daquelas ratazanas gigantes teriam bastado. Ou quando não, apenas vinte ou trinta baratas graúdas voadoras.”

“- Deveria ter optado por uma alternativa menos traumatizante”.

“- Mas padre! Sei que de algo jamais serei perdoado.”

Da próxima vez não vou errar.

Não poderia ter praticado esse ato ignominioso!

Sem antes tê-la firmemente amordaçado.
Tagobar
Enviado por Tagobar em 20/11/2005
Código do texto: T73857

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