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Pérolas do Cotidiano - Botando banca.



Fisicamente falando, existem três tipos de bancas de jornais, a saber:

Modelo número 1:   é a mais chué. O local é exíguo. Tem somente o essencial para o jornaleiro exercer sua nobre profissão. Se ele entra de frente tem que sair de frente, não dá pra se virar.  Se for um pouquinho mais rechonchudo, corre o perigo de ficar entalado.  Tudo é na conta do chá. Modernamente, 10% da banca destinam-se ao abrigo dos jornais e das revistas.  Os outros 90% são ocupados por bilhetes de loteria, raspadinhas diversas, fitas de vídeos (a maioria pornô),  CD-ROMs de todos os tipos, papa-isso, papa-aquilo, tele-isso, tele-aquilo e tudo quanto é jogo que se possa imaginar (menos o do bicho, porque é o único proibido).

Modelo número 2: além de dispor de muito mais espaço para toda a parafernália já enumerada acima, esse tipo possui, adicionalmente, vestiário para o vendedor de jornais, frigobar, televisão preto-e-branco, rádio AM/FM, porta-petiscos e porta-refrigerantes.  Nesse modelo, o jornaleiro pode até se virar lá dentro.

Modelo número 3:  essa banca é demais.  Tem até banheiro com chuveiro elétrico.  É imensa.  Tem lugar para 20 fregueses ao mesmo tempo.  Possui jardim interno, 5 mesas para leitura e 2 sofás-cama, televisão a cores, geladeira dúplex e máquinas  caça-níqueis.  É o máximo.  Só vendo pra crer.

De tempos em tempos, os donos das bancas procuram melhorar as condições de trabalho de seus empregados, oferecendo aos que mais se destacam a possibilidade de troca,  para melhor,  dos modelos por eles utilizados.

Um dos mais competentes profissionais do ramo é um gajo conhecido pela alcunha de Bin Laden, dada a sua semelhança física com essa impoluta figura. Bin tem a sua banca localizada em uma certa rua de Niterói (RJ) , em frente ao Estabelecimento lotérico de Mr. Tião, muito conceituado na praça pela seriedade com que conduz o seu negócio.  Um belo dia,  o patrão de Bin Laden o chamou e disse:

— Meu caro Bin, antes de viajar para a Itália, eu gostaria de informa-lo de que vou trocar o seu gabinete de trabalho.  Você merece maior conforto.  Amanhã mesmo vou providenciar a troca, ok ?  O modelo número três vai cair como uma luva.

— Agradeço muito Sr. Genaro, porém vou-me permitir declinar a sua oferta.  Esse modelo de número três vai-me criar muitos problemas:  não gosto de tomar banho quando trabalho;  não tenho condições de controlar mais de 10 fregueses ao mesmo tempo; não sei cuidar de jardim;  detesto arrumar móveis;  televisão tira a minha concentração no serviço;  além disso, só bebo bebida quente. E, para finalizar, tenho certeza de que essa máquina de caçar níqueis vai acabar com todo o meu trocado.  Assim se pronunciou Bin, para espanto do italiano.

— Então aceite, pelo menos, a modelo de número dois.

— Não faz a minha cabeça, Sr. Genaro.  Não necessito de vestiário;  como já disse, não tomo gelado;  ouvir música, nem pensar;  não belisco em horário de expediente; e tem mais:  não sou chegado a ficar me virando.

— Você é mesmo radical Sr. Laden  Não achei, todavia, os seus argumentos suficientemente fortes.  Tem algum outro motivo para a sua atitude ?  Desses que convencem qualquer um  ???

— Tenho sim, meu patrão, redargüiu nosso personagem:  tanto a banca modelo dois como a banca modelo três não têm uma coisa essencial, da qual não posso prescindir.

—  E que coisa tão importante é essa, afinal de contas ???

— É o subsolo, somente disponível na banca de número um, onde dormem as minhas rolinhas de estimação.  Banca sem subsolo, nem pensar.

Diante da resposta, o Sr. Genaro não teve outra alternativa senão a de colocar o rabo entre as pernas, adentrar na padaria existente  ao lado da Casa lotérica de Mr. Tião, traçar uma broa de fubá, deixando paga, como não podia deixar de ser, uma para as rolinhas  do nosso Amigo Bin.

Paulo Guiné
Enviado por Paulo Guiné em 20/11/2007
Código do texto: T744233

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Sobre o autor
Paulo Guiné
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
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