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Pérolas do Cotidiano - A invasão.



Quando o pessoal do Condomínio Santa Luzia acordou, havia uma novidade nada agradável.  No morro em frente, em vez de bois pastando, o que se podia ver eram diversos homens com enxadas na mão, destruindo o pasto.  Doravante, se os bois quisessem “rangar” teriam que procurar outras paragens.  O que estaria acontecendo ?

Não eram dez nem vinte.  Eram mais de duzentos.  Os melhores lugares estavam sendo, sofregamente, demarcados pela turba recém-chegada.  Um cara barbudo, que parecia mais afoito que os demais,  carregava uma bandeira de cor vermelho-sangue  onde se podia ler, em letras brancas, garrafais:  MST.

Contrastando com aquele burburinho insano,  o sol repousava plácido no horizonte, no momento azul-cerúleo e sem qualquer nuvem (um verdadeiro céu de Brigadeiro). Barracas começaram a ser armadas.  Dos mais variados formatos e matizes. A tal bandeira, agora,  já drapejava altaneira  na grimpa do morro,  marcando sua presença de forma incontestável.

Lá embaixo, já bastante preocupados (mormente os moradores da casa 8),  os condôminos do Santa Luzia tremiam nas bases. Já se podia antever a desvalorização de suas propriedades.  E depois,  quando a posse já estivesse em estágio mais adiantado, a chegada  do tráfego de drogas era coisa líquida e certa. As arruaças, contumazes nesses conglomerados de indigentes de plantão eram favas contadas. Naquele local, a futura exploração do baixo-meretrício seria “pule de dez”, como se diz na gíria turfística.

A coisa estava mesmo preta.  E agora ?  O que fazer ?  Chamar a Polícia ou queixar-se ao Bispo ?  O que seria mais eficaz ?  Será que botar um “berro” na cinta e partir pra cima dos caras seria uma boa ?  Essas perguntas eram feitas por todos sem que se atinasse com a melhor solução.

Como o que não tem jeito remediado está, como diz o ditado popular, ficou resolvido, por unanimidade, que seria promovido um churrasco, regado a geladas de muitas e muitas marcas,  para se aguardar de modo mais alegre o dia seguinte,  já que no domingo nada podia ser feito. Amanhã seria outros quinhentos.  Todas as providências estariam tomadas. A ordem, agora, era relaxar e gozar.

                                        *   *   *

Às 5 horas da matina da segunda-feira, conforme combinado,  estavam todos a postos. Ainda estava escuro.  O pessoal do condomínio Santa Luzia  estava em pé de guerra, injuriado pra valer.  Vários oradores pediam a palavra, vociferando palavras de ordem tais como:  Um, dois, três..., quatro, cinco, mil, queremos que os invasores..., etc.,  etc. .   Utererê, Utererê..., condomínio  Santa Luzia unido, jamais será vencido.  E por aí ia, com o povo cada vez mais empolgado.

Assim que o dia clareou, todos dirigiram seus olhares para o morro em frente,  pra  ver em que estágio estava a coisa.  Não entenderam nada.  O morro estava completamente vazio.  Nem boi pastando havia.  Tudo voltara, como por encanto, ao normal.   Nem vestígio dos “alienígenas”.  O que teria havido ?

O Síndico foi conferir, subindo o morro. -  Vou lá e já volto.  Aguardem-me, por favor.  Não demorou nem 15 minutos.  Quando voltou,  os condôminos, curiosíssimos, indagaram, em uníssono:

—  O que aconteceu, Sr. Síndico ???

— Os caras se retiraram ontem à noite mesmo.  Hoje eles têm que trabalhar.  Eram apenas turistas. Deixaram, apenas, como lembrança de sua passagem, restos de caviar, garrafas vazias de "champagne", tudo isso só para dar água na nossa boca.

—  E aquela bandeira, com os dizeres MST  ?

—  Tratava-se apenas da sigla do Movimento dos ditos cujos.

—  E que “Movimento” é esse, afinal de contas ?

—  “Movimento dos Só Turistas”.

                                *******************
Paulo Guiné
Enviado por Paulo Guiné em 23/11/2007
Código do texto: T748693

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Sobre o autor
Paulo Guiné
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
22 textos (1258 leituras)
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