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MELHOR É A FRUTA


Se você não parar de comer como um leão esfomeado e de beber como se fosse um camelo no deserto, breve estará voltando às origens. Sim, aquelas para onde só existe passagem de ida.

Porque, não há esconder, só existem velhos magros, a quem foi reservada a primeira classe nesta curta viagem.

Bem por isso, permita-me perguntar-lhe. Era fome verdadeiramente o que você sentia quando cavoucou a cumbuca daquela feijoada pela segunda vez atrás daqueles derradeiros pertences. Ou será que foi a sensação de estômago vazio que lhe impeliu a repetir o prato daquela macarronada. Ou mesmo foram aquelas lancinantes dores estomacais que lhe obrigaram a estraçalhar aquela leitoa assada.

Responda-me, também: é verdade que todos aqueles whiskys do sábado só foram motivados por uma repentina e abrasadora sede, totalmente fora de controle? E, aquela quantidade descomunal de cerveja gelada só foi ingerida naquela madrugada porque o calor estava insuportável e você tinha que repor no organismo o líquido que havia perdido durante o dia?

Essas indagações vêm-me à cabeça porque estava a conjeturar.

Nós sabemos que a natureza define com precisão e cuidado, para cada espécie, o que ela deve e pode comer. Assim a alimentação natural dos ruminantes, é capim e outras ervas. Um carnívoro, outra coisa não come a não ser o que caça. Os pássaros comem sementes e insetos. Os peixes geralmente se alimentam de seus parentes menores. E o mesmo ocorre com todos os outros seres.

Mas e o Homem, pergunto, qual seu alimento natural? O que é que lhe foi reservado no grande armazém da vida.

A resposta não é fácil. Porque sou um simples degustador e pouco entendo de biologia, antropologia, ou ciências afins, que me permitiriam desvendar com segurança esse grande segredo.

Entretanto, pelo que pude ler, perguntar e ouvir, tomei conhecimento que nossos ancestrais, os mais antigos e primitivos, primos dos macacos, da mesma forma que estes, eram arborícolas. E, árvore não produz qualquer outro alimento senão fruta.

Esta é uma das razões pelo qual inclino-me a acreditar que essa é a nossa verdadeira vocação alimentar.

Por outro lado, mesmo um superficial exame do nosso aparelho digestivo revela que ele apresenta diferenças substanciais com aqueles dos carnívoros, a reforçar ainda mais essa proposta vegetariana que muitos defendem.

Depois, há outra circunstância de significativo relevo que igualmente não pode ser descartada: o fato de que a fruta nos apetece mais que qualquer outro alimento. E confere-nos aquela peculiar sensação de leveza quando ingerida, porque menos trabalhosa e de mais tranqüila digestão.

Não se duvida que nestes milhões de anos de evolução, o Homem logrou adaptar-se ao alimento que encontrou na planície onde passou a viver. Mas seu organismo, fundamentalmente, ainda continua a amar e desejar a fruta.

Neste instante percebo que meu interlocutor já não me ouve. Um pouco a bebida e de outro lado a força dos argumentos que acabo de expender. Seu olhar vago, distante e concentrado está a revelar que vivencia uma verdadeira tempestade cerebral. E, ao retornar à realidade, depois de outro gole, passa a filosofar:

Está certo. Estou convencido, diz ele. Mas, não vivo em árvore e, ao contrário de qualquer selvagem que se preze, tenho uma quantidade adoidada de compromissos, que um comedor de frutas nunca acreditou que alguém pudesse assumir.

Como vou fazer para pagar o absurdo aluguel do apartamento onde moro se não puder tomar meu whisky todas as tardes depois do serviço.

                Como conseguirei enfrentar a mensalidade escolar das crianças e toda parafernália que a acompanha se tiver que abandonar no almoço aqueles salutares aperitivos.

                De que maneira farei frente ao pagamento da luz, água, telefone, do malsinado imposto de renda e um número inimaginável de compromissos se não puder encher a cara de vez em quando com algumas inocentes cervejas geladas.

               E de que forma irei suportar condução lotada, trabalho de escravo e comida de balcão de lanchonete se não puder, pelo menos aos sábados sentar calmamente à mesa para degustar uma satisfativa feijoada.

               E roupa, calçado, gasolina, mensalidade de clube, parente chato, como irei agüentar todos esses infinitos encargos se não me for permitido, quando menos aos domingos, deliciar-me com uma estimulante macarronada a bolonhesa ou uma crocante leitoa pururuca?

Agora sou eu que volto a pensar. Para concluir que é você que está com a razão.

Ninguém, com absoluta certeza poderá prescindir das frutas. Elas são benéficas, indispensáveis ao organismo e, absolutamente necessárias.

      Mas de preferência devem ser bem socadas, com açúcar, algum gelo e uma boa dose de cachaça.

               Em reverente respeito à mãe natureza!
Tagobar
Enviado por Tagobar em 22/11/2005
Código do texto: T74997

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Tagobar
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