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A Mulher Fantasma da Ilha Fit - Capítulo IV - Mulher, Mesmo que Fantasma!

Demorei a adormecer, agitado pela visão que tivera. Pela manhã estava cheio de sono e não sabia se devia contar aos outros o acontecido. Será que já estava tendo miragens? Mas fazia apenas uma semana que estava na ilha, e não podia estar tão desesperado assim. Talvez em mais uns quinze dias... Os outros notaram meu comportamento estranho. Juvenal, o que parecia sofrer mais com o esquecimento de como as mulheres eram, cismou comigo, como se uma intuição o alertasse. Juvenal era verdadeiramente obcecado pelo sexo oposto, e não se conformava com o ingrato destino de morrer sem saber a diferença entre Sheila Carvalho e uma samambaia. Eu não sabia realmente o pouco que eu apreciava o belo sexo até conhecer aquele infeliz. Finalmente, enquanto eu roia o pão do desconsolo lembrando da miragem de cabelos negros, fui sem perceber cercado pelos outros. Até Maúr estava entre eles, e com cara de poucos amigos. Juvenal era obviamente o promotor do cerco, e me perguntou nervosamente:
- Você tá diferente, sujeito. Alguma coisa aconteceu. Você viu, não foi?
- Vi o quê, cara? Tá me estranhando?
- Vá, confesse, seu coisa! Diga logo que eu sei que você viu!!!
- Tá bom, tá bom! Eu vi sim! Mas se você se incomoda tanto na próxima vez vá mais pra longe e use uma folha mais comprida pra se limpar, seu porco! Pensa que eu faço questão de ver um sujeito passando o dedo no...
- Não, não, não, não!!! Num é isso não seu filho duma égua!!
- Olhe, me respeite sujeito!
Íamos nos atracar ali mesmo, mas os outros nos contiveram. Juvenal insistiu:
- Diga seu porra, num se faça de sonso não! Você a viu, num foi? Isso é um infeliz mesmo! Passei dois meses trocando o dia pela noite pra conseguir ver, e na vez em que eu cochilo ela aparece e esse infeliz que chegou agora é que tem a sorte!
Vi que não adiantava negar. De fato eu ainda estava muito mais excitado do que a ereção matinal habitual.
- Tudo bem. Eu confesso. Eu vi uma moreninha muito linda ontem à noite parada bem ali onde esse outro bobalhão tá agora! E ela tava com um vestidinho curtinho e olhou pra mim. Acho que rolou até um climazinho...
- Oooohhhhhhhhhhhh!! Fizeram todos de espanto.
- Mas vocês são uns safados! Tinha uma gata aqui e vocês escondendo! Egoístas! Querem só pra vocês é? E a liberdade sexual? E os direitos da mulher? Ela é que escolhe, ela decide, quem pode mais chora menos, põe teu pingulim na mesa que eu ponho o meu...
- Calma, calma, cara, num é isso não!
- Calma é o escambau que eu tô a perigo e só penso nisso... Nisso e em sorvete de mangaba, bem lá pra trás!
- Mas não é uma mulher real não, Macartúrio, é um fantasma! É a mulher fantasma da ilha Fit!
- Oohhh! - fiz eu. - Puxa, ainda bem que ela morreu assim novinha num é? Uma tremenda gata, porra... imagine se tivesse morrido com o corpinho da minha vó...
- Pois é... tão gostosa e morta. De que adianta? Aquela carne que podia ser tão durinha e é só fumaça... eu queria passar por dentro dela mas não desse jeito.
Juvenal tinha um ar de desespero e resignação:
- Ah, minha fantasminha... Eu a vi umas seis ou sete vezes. A última faz cinco meses já. Eu fico às vezes imaginando aquela carnezinha morta... Aqueles peitinhos em decomposição... Aquela mãozinha gelada, gelada... Oh Deus! Por quê? Por quê?!
- Ah, é por isso que você passa horas com a mão dentro dágua antes de ir dormir... E depois põe dentro da calça! E a gente pensava: esse cara não sabe o que quer, deixa a mão congelada e depois vai esquentar no corpo. Cara, você é doente!!!!

Realmente Juvenal era um tarado, o sujeito passava do normal. Depois de um momento eu perguntei. - Mas que estória é essa de fantasma?
Maúr explicou:
- Eles dizem que quando as últimas mulheres estavam indo embora, uma delas caiu do barco e se afogou. O espírito dela vive vagando pela ilha, revoltada, à procura de uma manicure e uma liquidação de lingerie.
- Porra, mas parecia tão real, velho! Muito real... Vocês já pensaram alguma vez em investigar isso? E se o fantasma ainda tiver carne e osso? Se não for fantasma nada? Se ela estiver vivinha?
Os outros se entreolharam, espantados.
- Você acha possível?
Ficamos momentos em silêncio. Depois foram todos saindo, um por um. Eu acabei ficando só. Não insisti na idéia da busca, porque em seguida tive uma outra idéia. Procurar sozinho a mulher fantasma. Àquela altura eu estava louco por um encontro, mesmo que fosse numa mesa branca. Não contei foi com a possibilidade de que aqueles safados estivessem todos pensando a mesma coisa que eu. Foi meu engano.
Artur Silva
Enviado por Artur Silva em 28/11/2007
Código do texto: T756076

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Sobre o autor
Artur Silva
Recife - Pernambuco - Brasil, 49 anos
10 textos (278 leituras)
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