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JOGADA GENIAL (CONFISSÃO CULINÁRIA)



Padre. Não creio tenha cometido qualquer pecado. Mas na dúvida prefiro confessar-me.

Meu marido costumava chegar tarde em casa todas as noites. Às sextas-feiras e sábados dificilmente antes do amanhecer. Sempre profundamente embriagado.

Nunca tive receio de qualquer ato de traição. Há muito tempo já desistira de sexo. Sua paixão sempre fora o jogo de cartas. E tinha um bom número de parceiros igualmente fanáticos.

Nosso relacionamento era difícil e tornou-se decididamente insustentável. Já quase não nos falávamos e nossos filhos ressentiam-se de orfandade paterna.

Precisava tomar uma providência urgente.

E foi o que fiz.

Encontrei um momento para abordá-lo. E delicadamente contei-lhe que gostaria muito de conhecer seus amigos. Sugeri que os convidasse para uma noitada de fim de semana. Na nossa casa. Disse-lhe que faria uma deliciosa peixada para agradá-los. Com certeza ficariam muito satisfeitos.

Inicialmente ele recusou a idéia e criou mil obstáculos à sua realização. Depois, lentamente, passou a aceitá-la. Nem meia hora se passara já a defendia ardorosamente buscando programar a compra das bebidas e dos ingredientes para a elaboração da comida.

Quis inteirar-se dos detalhes, pois pretendia convidar uma dúzia ou pouco mais dos amigos mais íntimos. Pediu-me que estudasse algumas entradas e petiscos e não esqueceu de sugerir inclusive sobremesa.

Tudo foi acertado para a noite de sexta-feira.

A preparação foi frenética. Não sei de onde trouxe, mas três mesas redondas revestidas de feltro verde foram colocadas na sala. Poltronas estofadas, cinzeiros e aparadores. Fichas e baralhos. O ambiente final era de um verdadeiro cassino.

Eu igualmente me preparei. Além de todos os ingredientes normais para a elaboração do prato, comprei oito quilos de postas de badejo. Ao chegar em casa coloquei-as, cuidadosamente, sobre o telhado, para que repousassem ao relento. Ao amanhecer esquentaram ao sol. E, novamente dormiram ao luar. No segundo dia tive que envolve-las num plástico bem grosso, senão as moscas iriam consumi-las por inteiro. Além disso, passaram a exalar um fortíssimo odor de peixe podre. Ali permaneceram por outro dia e pude perceber a presença de inúmeras larvas e uma significativa mudança de cor da carne que começava a pretejar. O cheiro era insuportável.

Recolhi-as horas antes da festa. Tive que usar máscara para lavá-las. Joguei fora todos os vermes, lavei-as em água corrente e fiz o melhor que pude. Em seguida mergulhei-as em puro suco de limão com vinagre, acrescentei bastante pimenta do reino e sal. Percebia-se que estavam levemente escuras e com textura macilenta, mas o cheiro forte que desprendiam quase desapareceu por completo.

Satisfeita com meu trabalho guardei-as na geladeira para que aguardassem o grande momento.

Os convidados foram timidamente chegando. Totalizaram vinte e dois e a sala tornou-se pequena para abrigá-los. À medida que bebiam tornaram-se mais alegres e ruidosos. Em pouco mais de meia hora o ambiente enfumaçou-se de tal forma que mal dava para distinguí-los naquele nevoeiro.

Eu, obediente e solícita fazia a minha parte, servindo-lhes alguns salgadinhos. Com parcimônia, pois não desejava que perdessem a fome.

Por volta das dez horas da noite pedi permissão para servir-lhes a peixada. Os pratos que montei ficaram alegres, bonitos e vistosos. Comiam, bebiam, babavam, gritavam, fumavam e jogavam, tudo ao mesmo tempo. Gostaram tanto do peixe que alguns insistiram em repetir.


Foi por volta da meia noite que pude ouvir as primeiras queixas. De indisposição estomacal. Os antiácidos logo acabaram. Uma embalagem gigante de bicarbonato de sódio foi rapidamente consumida.

Alguns se queixavam de forte dor de barriga e outros de ânsia de vômito. Dois deles ficaram extremamente pálidos e um desmaiou. Um gordo ficou completamente vermelho e um magrelo totalmente empipocado. Aos poucos todos abandonaram as cartas e, a maioria, rolava pelo chão contorcendo-se de dor.

Todos me olhavam furiosos. Afirmavam que alguma coisa deveria estar estragada na comida.

 Neguei. Disse-lhes que todo o material era de primeira e talvez o problema fosse resultado da grande quantidade de bebida que estavam tomando. Ou alguma alergia coletiva.

Aquele caos em que se transformara a sessão de jogo só terminou quando chegaram duas ambulâncias para levar os mais afetados. Mas todos foram levados ao pronto socorro para que pudessem ser medicados. Alguns permaneceram internados até o dia seguinte.

Meu marido, nos dias que se seguiram, deixou claro que não gostou nem um pouco do que tinha acontecido. Seus amigos menos ainda, pois não lhe perdoaram e o culpavam pelo que ocorrera. Disse que perdeu as amizades e não tinha mais com quem jogar.

Passou a chegar cedo e a permanecer em casa todas as noites.

Foi só então que descobri meu erro. Porque era impossível agüenta-lo. Pois sem ter o que fazer só lhe restava atazanar a vida de todos. O ambiente familiar, que era calmo e tranqüilo, transformou-se num verdadeiro inferno.

Não tive alternativa senão sugerir-lhe adquirisse uma cota familiar num clube do bairro. Em nome de nossos filhos que estavam precisando urgentemente de alguma atividade física.

Mas confesso, reverendíssimo, logo ele descobriu que esse mesmo clube tem uma excelente sala de jogos. Que funciona todas as noites. E, nos fins de semana e feriados abre também durante o dia.

A paz finalmente voltou ao meu lar.



Dedicada, ainda que tardiamente, aos amigos  Hugo e Janete
Tagobar
Enviado por Tagobar em 14/12/2005
Código do texto: T85957

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Tagobar
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