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Fantasmagórico o fantasma da Lua Cheia. Lia Lúcia de Sá Leitão. (22/09/98)

Hoje tem lua cheia, é por isso que eu estou aqui contando mais uma história que aconteceu comigo e foi de arrepiar!
Fantasmagórico era um fantasma muito cri-cri, desses que larga do pé. Fui escolhida como a mais engraçadinha que ele achou para  encher a  paciência. O que vou contar ainda não é a nossa história, é só uma prova do quanto ele pode deixar uma pessoa azul de raiva!
Estava trabalhando num texto nessa última lua cheia, e estava super concentrada, sem ter nem porque; só a luz do meu quarto apagou. Levantei e reacendi, apagou novamente, acendi, apagou, fiquei em pé junto ao interruptor com a luz acesa, o computador apagou, tudo o que escrevi parecia estar perdido, logo em seguida, o computador acendeu e a luz apagou. Já estava ficando irritada: levantei-me e voltei para acender a luz e tive uma idéia, segurei o lençol da minha cama, quando vi o interruptou da tomada de luz baixando, não tive dúvidas, joguei o lençol, e vejam só quem estava no meu quarto, Fantasmagórico! Ele veio cobrar uma das suas histórias de assombração que eu havia prometido escrever e o tempo me fez esquecer.
Tudo começou assim:
Era noite de lua cheia, aquela bola enorme clareava o mundo, principalmente a linha do horizonte, ela crescia em pleno mar da praia de Pontas  de Pedras, litoral Norte de Pernambuco, estava sentada na varanda da minha casa admirando aquela maravilha da natureza com Andréa, a sobrinha sentada no colo,quase adormecida. Manuca e Jojoca contavam histórias de piratas;  Paulo César deitado numa  rede embalava outro caçula da turma, Driguinho.
Alguém cantava uma canção de ninar com uma voz pra lá de desafinada, os agudos, eram um horror! Até os cachorros na rua uivavam e  todos riam a valer.
A lua já estava alta, prateando o mundo, os sobrinhos mais velhos, namoravam, afinavam violões sentados ao redor da piscina, prontos para a seresta que preparamos.

(Coisa de gente apaixonada, quando vocês forem grandes vão saber o que é isso nessa história).

Mas a minha ordem era: só começar a festa quando os pequenos  estivessem dormindo. Imaginem só, todo mundo ajudando o soninho da pirralhada chegar mais depressa.
Pensamos que Andréa, Manuca, Jojoca e Rodrigo estavam  prontos para a cama. Faltou energia. Os adultos imaginam que escuro ajuda a criançada dormir, que nada! Faz é arregalar os olhos para tentar enxergar na escuridão, e foi isso o que aconteceu, o quatro deram um pulo só.
Tia Lalinha faltou luz?
Tia Lalinha estou com medo!
Tia Lalinha eu quero fazer xixi.
Tia Lalinha eu estou com fome.
Tia Lalinha quando a luz vai voltar?
Tua Lalinha pra onde vai o escuro quando a luz chega?
Era tanto Tia Lalinha que eu resolvi contar uma história. Os três Pintinhos, não quiseram. A pretinha do pixe, nada! A feia que não dormia, nem pensar! Olhei para os pequenos e perguntei que história queriam. Nesse instante, até os maiores pediram por um terrorzinho. Do tipo: O bandido da mão cotó? Uma só voz; não! A bruxa imortal do castelo? não! O Capitão Sendente e seus piratas? Não! O fantasma da Lua Cheia? é esse está bom! legal! ÔÔÔÔBA!
Sentaram-se todos bem juntinhos no terraço e ... tudo aconteceu assim...
Certo dia a cidade de Pontas de Pedras sofreu um ataque. Postes caídos, os bancos da praça municipal fora do lugar, arrancados pelo pé junto com as árvores, carros com os vidros quebrados, as portas das casas voaram longe por causa de uma ventania, quem estava na rua correu para um abrigo seguro, pois os fios elétricos quebravam feito barbante e davam rabiadas de fogo. Todos estavam assustados; os telefones funcionavam, porém as pessoas não ouviam o que as outras falavam. Os Bombeiros da cidade vizinha foram chamados, mas ninguém conseguia entrar na cidade, completamente tomada pela ventania, quando alguém tentava furar o vendaval só ouvia gargalhadas, daí todos resolveram deixar o vendaval rir de ficar mole, mas, muita gente podia precisar de ajuda e não era correto deixar de ultrapassar aquela barreira, mas toda vez acontecia à mesma coisa. Os próprios bombeiros tentaram entrar na cidade e não podiam,  não acreditavam, só ali estava acontecendo àquela coisa estranha. O que era aquilo? nunca acontecera nada igual! afinal bombeiro era coisa séria! A cidade estava virada de cabeça para baixo! Uns corajosos tentaram olhar pelos cantos das janelas para ver se era uma tempestade, um furacão, um raio. Do lado de fora só se ouvia  um HUUUUUUU! BUUUUUUUUUUUUUUU! KKKKKKKKKKKKK! desses de gelar a alma
Eu estava de férias na casa de uma amiga de escola e acordei assustada como todas as pessoas da casa. Mais que depressa troquei a roupa de dormir pela calça jeans e uma camiseta. Corri para a sala de visitas. Num sussurro perguntei a D. Vitória o que era aquilo, ela numa tremedeira de ouvir os ossos fazendo TRUM-TRIM-TROM,  disse baixinho rezem para o anjo da guarda, rezem para o anjo da guarda. Eu que também tremia não conseguia começar e muito menos terminar de rezar para o meu anjo da guarda com os sustos que tomava a cada instante. HUUUUU! HAHA SSSUJJEIRA! HULÁLÁ! HAHAHAHAH! HUUUUUUUU! POU! POM! PUM! TCHIM! HUMMMMMM! XXXXXXXIXI! esse barulho levou o resto da noite.
Adormecemos todos ali, grudados uns nos outros, os menores nos sofás, o maiores nas cadeiras de balanço, e o restante do meu tamanho, nos tapetes. Finalmente, o sol, o dia, a alegria, a vida voltara ao normal. Todos os estragos foram reparados, a Prefeitura colocou bancos novos na praças, os fios foram remendados. A cidade parecia nova, parecia que ia dar uma festa! e que nada de mais tinha acontecido, todos falavam sobre o fato e contando vantagens, eu fiz isso; eu fiz aquilo, eu vi isso, eu vi aquilo. Lá na casa em que eu estava tinha seis desses destemidos. A coragem deles deu para fazer um xixizinho fora do lugar adequado, xi! até eu e minha amiga amanhecemos numa poça de...de... ah! deixa pra lá já passou mesmo! Bom a tarde foi normal, só o limpa aqui, lava ali restavam umas melecas esverdeadas escorrendo pelas paredes de fora das casas, bastava jogar água e plim! desapareciam.
A noite foi chegando, a lua bem redonda iluminava o chafariz da praça, eu e minha amiga estávamos de olhos nas crianças brincavam nos balanços e escorregos, os rapazes compravam sorvetes para as moças que estavam sentadas no quem me quer da praça. A brisa do mar era suave no calor do verão. A calma voltara a reinar até o momento em que João Coveiro chegou aos berros. Vão todos para as suas casa! Todos para as suas casas! Corram para as suas casa! O fantasma está danado de raiva! corram!
Toda a cidade pensou que o pobre homem estava biruta
Daqui a pouco, uma luz fluorescente branca, foi crescendo, crescendo, crescendo  e BUUUUUUUUUUUUU! foram pernas pra que te quero! Eu e minha amiga fomos parar debaixo de um banco e vimos gente perder sapatos, chinelos, dentadura, óculos, jogar sorvete no chão, sacudir fora as pipocas, teve até dinheiro jogado na calçada! tudo por causa de um BUUUUUUUU de um fantasma. F A N T A S M A!
Eu fiquei paralisada. Nem meu coração não batia tum tum, fazia pisiuuuu pisiuuuu, baixinho!
Olha só o que aconteceu, o fantasma veio vindo, desceu e sentou-se no mesmo banco que eu e Marylu nos escondemos. Deu uma geleira na alma! e sem demora ele falou.
¾  Vocês querem fazer o favor de sentar-se aqui no banco? Os ossinhos de vocês parecem mais um reco-reco de escola de samba no carnaval. Eu não estou aqui para assustar ninguém na verdade uns fantasmas moleques invadiram o meu cemitério e roubaram justamente as mais lindas caveiras do meu jardim. Fiquei muito zangado e sai procurando quem arrancou Rosa, Violeta, Sempre viva, Margarida, as minhas companheiras de bate-papo nas noites de lua cheia. E ontem,  encontrei o Duende Maluco, a Bruxa Verde carregando na garupa da vassoura Pastosa, a meleca do mangue, o Alicate também estava com eles cortando tudo que encontrava pela frente. Ele é muito forte e mau. Tem dias que derruba até torres de TV.
Eu vi a cidade virar uma guerra! Nem imaginam a minha indignação com tamanha barbaridade e BRAU, BRUM, TRICHIPUM!  defendi todos vocês com o maior  redemoinho de ventos
Uma coragem tomou a minha fala.
Meu nome é Lia, tenho 13 anos, essa é Marylu e tem 14 anos, o que você quer?
Ter amigos ora essa! Só vocês podem ser amigas? sejam minhas amigas agora. Vocês tem amigos?
Claro que temos outros amigos, mas nenhum é fantasma! Qual seu nome? Ele riu, e depois fez cara de sério.
 Eu sou um Fantasmagórico, um fantasma assustador, moro lá em baixo! na rua 15 da Alameda das Almas. Gosto das noites de lua cheia saio para cantar serenatas com as caveiras do meu jardim, depois saio para passear com meus amigos fantasmundos, dou alguns sustos no povo, mas nada de grave. E vocês o que fazem?
No momento nós estamos nas férias do colégio, paqueramos, tomamos sorvetes, brincamos, andamos de patins e não temos medo de fantasmas, estamos dispostas a fazer amizade com você. ( Minha amiga quase desmaia. ) Mas me conte como é ser fantasma?
É assim; primeiro você tem que fazer um curso de assombração, depois encontrar os medrosos para assustar, passando nesse teste, é preciso encontrar uma pessoa para contar as histórias de um fantasma, só depois disso é que um fantasma pode virar anjo.
Ah! tá. e você quer virar anjo?
Claro! mas para isso você foi a escolhida. Quer contar que eu defendi Pontas de Pedras desse ataque dos bruxos vadios? Você contar  essa historia para os seus amiguinhos. Tá bom! mas, ninguém da minha escola vai acreditar. Posso deixar para quando eu crescer? Ai posso contar para os meus filhos, meus sobrinhos e para os amigos deles!
Poder pode, mas se você esquecer nunca vou virar anjo. E aí, o que eu faço?
¾ Ora fica sendo um fantasma!
¾ Posso lembra-la se você esquecer o nosso trato?
Pode.
E assim aconteceu, eu cresci, esqueci e num belo dia de lua cheia, ele reapareceu. Vocês não estão vendo ele ali? debaixo da nuvem fazendo piruetas? Olha lá no céu! ele está sorrindo! deu agora mais uma cambalhota! Xiiiiiiiii! lá vem ele!
(Foi um corre corre daqueles!)
Eu não fugi, porque já conhecia a história.
Oi, Fantasmagórico. Quer virar anjo?
 Eu nem sei!  a vida de fantasma está tão boa.
 Contei para todos que estavam aqui aquela história da cidade.
Eu tenho outras muito melhores. Descobri que muita criança precisa dos meus BUUUS! ora para sorrir, ora para um susto. Posso aparecer mais vezes para você?
É claro! só que daqui para frente eu quero saber de todas as suas peripécias, hoje, eu  sou escritora de histórias para crianças  e quando você quiser tornar-se um anjo, eu posso ajudar.
Ele sorriu, apontou a garotada que agora voltava para o terraço pé ante pé e todos desconfiados, perguntou se eu tinha filhos, respondi que não. E eles? perguntou. Respondi são os sobrinhos. Ele olhou um a um e perguntou-me se podia dar uma prova de que realmente estava ali. Eu balancei a cabeça afirmativamente e ele encheu os pulmões de ar e... BUUUU! fez um barulho tão grande que a luz ainda adormecida acendeu, a meninada e os adolescentes numa velocidade de corredor de maratona pinotaram para o quarto, puxaram as cobertas até a cabeça e adormeceram. Fatasmagórico ria que estremecia a casa e falou que meus sobrinhos eram menos corajosos que eu na idade deles e eu respondi muito séria.
Tenho certeza que é sono de verdade, quem disse que os meus sobrinhos são tão medrosos assim?
E o resto da noite, ficamos na beira da piscina cantando velhas canções de amor do tempo da adolescência..

Nomanda
Enviado por Nomanda em 08/11/2006
Código do texto: T285596

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Sobre a autora
Nomanda
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