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A Piração Da Bicharada

(Esse conto faz parte do livro: Coleção Graziela. Confira em: http://www.clubedeautores.com.br/book/139796--Colecao_Graziela).

Havia uma floresta muito verde e bela, onde nasciam os frutos mais saborosos, as flores mais singelas. Lá, a brisa sempre fresca, brincava com as águas cristalinas do rio, e os animais corriam em paz pelos campos.
Tudo era harmonia e tranqüilidade, até que um dia, o rei leão, resolveu ser astro de cinema:
- Estou cheio de ser o rei dessa floresta, aqui é tudo muito parado, não acontece nada de novo, eu quero ser famoso, sair nos jornais, ser capa de revista, falar na TV...
Assim, o nosso amigo, rei leão, fez as malas, colocou seus óculos escuros e partiu, deixando vago o trono real.
A  floresta    ficou    em   polvorosa,   todos queriam a realeza, a bicharada entrou numa piração total: era rasteira, soco, pontapé, tinha bicho mentindo, tinha bicho roubando, dando ataque, passando mal... nossa floresta, já não era a mesma, estavam todos contaminados pelo vírus da ambição, queriam o poder, custasse o que custasse; tudo estava mais triste e sem graça, ninguém mais brincava, nem corria pelos campos. Em todo canto, toda conversa era sobre o trono do rei, cada um se achava o melhor: o mais preparado, o mais inteligente, o mais isso, o mais aquilo...
O macaco foi o primeiro a candidatar-se:
- Eu sou o mais indicado para o trono, pois sou o mais esperto, o mais sabido, o mais inteligente. Eu sou o bicho! e para provar isso, tenho uma idéia que tornará nossa floresta mais rica, proponho a troca da nossa moeda; vamos deixar de lado a carambola, que já está podre e bichada, vamos usar uma moeda forte e sadia, que é a banana nanica.
A bicharada, briga e protesta, quando percebe que o macaco está querendo tirar proveito da situação, já que ele era o dono de todas  as  bananeiras  da  floresta. A pior reação,veio do papagaio; indignado, o louro subiu, desceu, saracoteou, ciscou e soltou o verbo:
- Esse macaco é um estrupício! Se quer vender banana, vá para a feira! Candidato bom nessa bichocracia (democracia dos bichos) sou eu! Sendo rei, farei festa todo dia; vai ter lavagem, pagode e carnaval, vou criar o ano internacional da piada, liberar o palavrão e botar pra ferver.
As vaias fizeram eco na floresta, a bichocracia do papagaio não convenceu a bicharada.
O louro foi chamado de farrista, depravado e coisas piores, mas agora era o porco, que apresentava suas propostas:
- Esse louro sujo, só pensa em festa, piada e palavrão. O melhor candidato sou eu! Só eu conheço a pobreza, só eu tenho os pés (patas) na lama, sou o candidato que fala pelos fracos e fedidos, serei o rei dos disperfumados!
Só o gambá aplaudiu o discurso do porco, enquanto os outros bichos gritavam em coro:
- Au, au, au, O porco cheira mal! au, au, au! O porco cheira mal!
No meio dessa gritaria, o tigre resolve falar:
- O rei serei eu, pois sou o mais forte e além disso, sou parente do leão e o trono deve continuar na família, e vamos deixar dessa história de bichocracia e liberdade de direitos, o que vai valer é a lei da selva, e quem não gostar, eu prendo, arrebento, mato e como!
Todos se assustaram com as palavras do tigre, mas a tartaruga não se intimida e lança suas propostas:
- Para que tanto movimento? Agitação faz mal ao coração, só de pensar, já me dá palpitação. Quando eu for a rainha, as coisas irão mudar por aqui; trabalharemos um dia e folgaremos um mês, além disso, os feriados serão remanejados para que coincidam com o dia de trabalho, afinal, a vida foi feita para ser vivida e não para ser  trabalhada.
A preguiça foi ao delírio com as propostas da tartaruga, mas os outros bichos, nem deram assunto. Foi quando a cobra, com um sorriso irônico, destilou o seu veneno:
- Diante de excelentes candidatos, com propostas tão maravilhosas, só me resta assumir o compromisso de colocar todas elas em prática, assim que eu subir ao trono. Mas como sou bicho- crata, sugiro que façamos uma eleição, e eu farei o sacrifício de tomar conta da urna e contar os votos lá em casa.
O papagaio reagiu irado:
- Morde aqui meu dedo para ver se sai leite, sua magricela enrolada, você acha que nós somos otários é?
A tartaruga, quase cochilando diz:
- Calma papagaio, quem esquenta a cabeça é palito de fósforo, cabeça de gelo lourinho, relaxe como eu.
Nisso surge o burro, que por incrível que pareça, também queria ser rei:
- Colé de mermo pessoar? O causo é mi butar cumo rei, pru mó de eu cabá cum as inscola, instudá pra que? o negoço é cumê um capinzinho hoje otro aminhã, uma suneca vez inquano sempre; vida de burro é qui é boa! óia a coruja! instudô tanto qui maluqueceu. Dorme de dia e acorda de noite.
A fala do burro foi a gota d’água para dar início à maior briga já vista na floresta: Foi cabeçada, coice, patada, deram rasteira na cobra, o porco tomou banho, o tigre perdeu o bigode, a tartaruga foi feita de pedra, sendo  jogada  de  um lado para o outro... o caos estava formado, quando a mãe natureza, resolveu intervir:
- Não briguem! Vocês são todos irmãos, são todos meus filhos muito queridos.
Mas o urubu, que estava de parte observando, não gostou:
- Deixa disso mãe, deixa eles se acabarem. Eles se matam, eu como eles e ainda reino sozinho na floresta.
A mãe natureza se entristece, a ambição havia despertado em seus filhos, sentimentos dos mais inferiores, e ela tenta mudá-los, tirá-los do precipício no qual se atiravam:
- Por que vocês não se unem? Cada um fica responsável por uma tarefa, todos se ajudam, e todos governam sem precisar de um rei.
Mas os bichos estavam cegos pelo poder:
- Nada disso! Eu sou o mais forte, e pela lei da selva, o mais forte é que manda. A senhora não se meta não, senão prendo, arrebento, mato e como. - Disse o tigre.
- Sai dessa tigre! Serei eu o rei dessa farra e vou botar pra derreter. - Foi o que disse o papagaio.
         - Quem corre demais cansa. O negócio é governo relaxado, descansado como será o meu. - Afirmou a tartaruga.
- A gnorancia é qui astravanca o progréssio, livro é cumida de traça, seje burro cumo eu; abaixo as inscola, vorte nim eu! - urrou o burro.
- A coisa é muito simples, como eu disse; bichocracia já! votem em mim e deixem que eu conte os votos. - Sibilou a cobra.
- O rei tem que ser alguém do povo, só eu, o Porco Porcolino Porcoso Porquento da Pocilga Porco, serei um bom rei.
- Eu sou o mais esperto, o mais sabido, o mais inteligente, o mais mais. Eu sou o bicho! votem no macaquinho aqui!
- Briguem! briguem! se atraquem! carniça é que eu gosto. - Escarneceu o urubu.
Decepcionada, a mãe natureza castiga os seus filhos; não por vingança, não por maldade, nem por querer. Mas seus filhos precisavam de uma lição, de umas palmadas da vida para aprenderem a viver juntos.
         - Já que vocês não se unem, não buscam o entendimento; serão castigados: criarei um animal, com a avareza do macaco que sempre quer  tudo e   tudo para   si; esse   animal  terá  a violência do tigre, que usa a força do físico para esconder a fraqueza do sentimento; terá a falação do papagaio e a ignorância do burro, que vive olhando para o chão sem ver o infinito à sua frente; terá ainda a malícia da cobra, que busca abusar da confiança dos crédulos e a desonestidade do porco que só lembra dos mais fracos quando quer conquistar seus objetivos; por fim, esse animal terá o oportunismo do urubu e todos os defeitos que vocês não procuraram corrigir, vocês perderão a razão e o sentimento, só terão instintos e serão dominados por esse animal, até que ele acabe com todos esses defeitos e todos possam viver juntos e em paz.
- Que ordinário de bicho é esse? Gritou o papagaio.
- É o homem! - disse a mãe natureza.


Antonio Pereira APON
Enviado por Antonio Pereira APON em 26/11/2006
Reeditado em 21/01/2013
Código do texto: T301819
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Antonio Pereira APON
Salvador - Bahia - Brasil, 52 anos
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Antonio Pereira APON