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Tina e Theo


Era uma vez um menino muito quietinho.
Seu nome era Theo.
Ele era tão quietinho, mas tão quietinho que não se mexia, não falava e não andava. Tinha dois irmãos mais velhos. O irmão se chamava Pimentinha, e a irmã Alice. Como eu já disse, ele era muito quietinho, por isso às vezes as pessoas esqueciam dele.
Theo era muito observador. Ele adorava quando sua mãe o colocava perto da janela onde podia olhar os irmãos e seus colegas brincando. Pimentinha, o irmão mais velho, de quietinho não tinha nada, muito pelo contrário; parecia que estava sempre com fogo no rabo, não parava nunca. Um dia ele colocou fogo num algodão e prendeu no rabo de um gato, coitadinho! O gato, que se chamava Chatô, desesperado, saiu correndo, e atrás dele o irmão mais velho do Theo, e atrás dos dois a mãe, que tentava apagar o fogo do rabo do gato com um extintor de incêndio.
Outra vez ele achou que era Tarzan e pulou do segundo andar, pendurado numa corda feita de barbante. Não deu outra, foi parar no hospital com o braço e a perna quebrados. Pimentinha, na maior parte do dia, estava muito ocupado pintando o sete, porisso quase nunca tinha tempo para ficar com o irmão.
Já Alice, a irmã do meio, também era quietinha, mas de outro tipo. Ela fazia sempre suas longas e típicas brincadeiras de cabana ,de casinha, desfile de modas... Coisas de menina! Ela e as amigas faziam de Theo a boneca mais disputada da brincadeira, pois como ele era muito quietinho, além de não reclamar, fazia tudo o que elas queriam. Uma vez ele apareceu pintado de rouge e batom, com muitos laços de fita na cabeça, noutra, virou um homem das cavernas, com o rosto todo pintado de tinta marrom, a roupa toda rasgada, de tacape na mão. Nos desfiles, por exemplo, ora ele era rumbeira, ora índio, até bailarina...imaginem só!
O mais incrível é que ele parecia gostar. Pra dizer a verdade, gostava, e muito! Ele sempre dava muita risada. Apesar de muito quietinho, Theo adorava rir. Ria sempre. As vezes parecia estar se movimentando muito dentro dos seus sonhos e ria, ria a valer.
Mas vamos continuar a historia.
Quando Theo, chegou à idade de ir para a escola, sua mãe o colocou numa escola super. Super especial! Nela havia todo tipo de criança: aquelas  muito, muito quietinhas e aquelas iguais a espoleta: explodem a qualquer momento. Para dizer a verdade era uma escola que só tinha criança especial.
Foi nessa escola que Theo conheceu uma menina muito bonita. Seu nome era Tina. Tina era muito quietinha também. Ela era tímida, mas tão tímida que não conseguia se relacionar com as outras pessoas. Sentia muito medo, não sabia muito bem de quê, só sabia que sentia.
A única coisa que Tina não tinha medo era de tocar piano. Ela ficava horas sentada tocando, e se a professora não a tirasse dali ela ficaria dias, meses, anos, o resto da vida tocando músicas que pareciam com as dos anjos. Tina também era muito sonhadora, vivia no mundo da lua. Na maioria das vezes ela nem prestava atenção aos seus colegas da escola. Mas um dia, aconteceu uma coisa muito legal. A professora colocou Theo e Tina bem próximos e por alguns segundos seus dedos se tocaram.
Vocês viram o filme ET ? Pois é, vocês se lembram daquele momento mágico, quando o ET põe a ponta do dedinho iluminado no machucado do menino, e o machucado desaparece?
Pois este momento entre a Tina e o Theo também foi mágico. Quando seus dedos se tocaram, Theo e Tina se mexeram como se tivessem levado um choque, mas era um choque diferente. Não sentiram dor nem susto, só uma sensação muito boa.
Theo deu uma sonora risada e pela primeira vez Tina olhou pro lado e começou a prestar atenção no seu colega de sala. A professora, que era muito esperta, observou tudo, e depois desse dia ela passou a colocar os dois bem próximos para que eles pudessem se tocar e trocar sorrisos. A mudança foi percebida por todos na escola e também em suas casas. As mães de Tina e de Theo começaram a ver uma grande felicidade nos dois quando chegava o momento de ir para a escola.
Um dia uma coisa impressionante aconteceu: Tina levantou da cadeira sozinha e foi em direção ao piano. Quando Tina começou a tocar, outra coisa impressionante aconteceu: Theo começou a movimentar as mãos e depois todo o corpo. Ele parecia eletrizado, não parava de se mexer e de rir. A professora quase caiu pra trás.
Theo ria tanto, mas tanto, que seu riso foi contagiando todos em volta.
A primeira foi a professora em seguida Tina, e depois de pouco tempo a escola inteira estava rindo e dançando.
Quando acabou o horário escolar, as mães que estavam na porta esperando a saída de seus filhos não entenderam nada. Todos os alunos, as professoras e até a diretora estavam dançando, rindo e cantando.
Depois deste dia, tudo se transformou. Todos na escola estavam mais felizes. A Cristina começou a gargalhar e não parou até hoje, o Tiago parou de morder a mão, a Lara passou a sustentar melhor o pescoço, o Leandro que vivia chorando, parou como num passe de mágica, Amanda começou a falar, o Theo não ficava mais quietinho e Tina não ficava tímida.
A escola que já era super-especial acabou ficando conhecida como a escola mais alegre da cidade.
No outro lado da cidade vivia um empresário muito rico e muito triste.
Morava numa grande mansão cercada de muros enormes, completamente sozinho. Era uma pena que daquela casa tão grande nunca se ouvissem risos, música e barulho de gente.
Doutor Astolfo, como todos o chamavam, não tinha mulher, filhos ou amigos. Sua única preocupação era ganhar cada vez mais dinheiro e aumentar a sua fortuna. Não era de admirar que vivesse sozinho.
Um dia, seu motorista comentou sobre aquela escola super especial onde todos eram alegres.
Astolfo, como sempre, nada disse mas ficou muito curioso.
Algum tempo se passou e a curiosidade foi aumentando, aumentando, aumentando... e cresceu tanto, mas tanto, que Astolfo não resistiu e resolveu conhecer a tal escola.
Ele saiu de casa escondido, sem o motorista e foi até a rua onde ficava a escola.
Subiu numa árvore para observar tudo. Ficou lá a tarde toda e não apareceu ninguém.
Pobre Astolfo! Ele se esquecera que era sábado e não tinha aula.
Mas a curiosidade cresceu mais ainda e na segunda-feira ele voltou para a árvore. De seu esconderijo observou as crianças que chegavam: algumas em cadeira de rodas, outras de muletas, outras auxiliadas por um adulto. Todas com um sorriso nos lábios e olhinhos brilhantes.
Algum tempo depois, de lá de dentro da escola vinham sons de risadas, brincadeiras e uma música tão linda como ele nunca ouvira antes.
Aí mesmo é que Astolfo não entendeu nada! Ficou tão confuso e perplexo que se desequilibrou e levou um tremendo tombo. Caiu de bunda no chão! Saiu mal humorado jurando que nunca mais voltaria.
Mas a música dos anjos e o riso das crianças não saiam de sua cabeça. Nesta noite Astolfo teve um sonho lindo,  voltou à infância, numa época em que ainda ria, cantava e seus olhos brilhavam também. Quando acordou sentiu-se diferente, sem saber como, nem por quê. Foi então que tomou uma decisão.
No mesmo dia voltou para a porta da escola, desta vez disposto a entrar e verificar com seus próprios olhos o que acontecia ali dentro.
Entrou.
Como não conhecia ninguém ficou quieto num canto olhando. As crianças olhavam para ele também.

Até que o João, que era mais saidinho, veio conversar com ele:
“ Vo  ce  é  me  u  pai” ?
“Não! respondeu imediatamente Astolfo.
“ Vo ce é m eu ti o” ?
“Não! respondeu novamente ele, já com uma ponta de irritação.
Continuou sozinho no seu canto apenas observando, pensativo, sem entender o motivo de tanta alegria. Engraçado, até as professoras desta escola eram diferentes.
As crianças, sorridentes, entravam para suas salas de aula, mostrando a alegria de estar junto aos amigos. Astolfo, que não tinha amigo nenhum, sentiu uma pontinha de inveja.
De repente..... a música!
Aquela era a música que ele ouvira e sonhara, estava tocando novamente. Junto dela vinham os risos dos alunos e da professora.
Astolfo, quase hipnotizado, seguiu em direção à sala de onde vinha a música. Abriu a porta devagar e viu Tina ao piano e todos os colegas rindo e dançando.
Astolfo começou a dançar, meio desajeitado, pois há muito tempo não fazia isso. Sem perceber, pisou num brinquedo, esquecido no chão e.....
Catapum!
Lá se foi o Astolfo novamente de bunda no chão!
A criançada, vendo aquilo caiu na gargalhada. Até a professora não aguentou e riu junto.
Astolfo ficou vermelho de vergonha, quis até se zangar, mas não resistiu e começou a rir também.
Riu, e riu tanto como há muito tempo não ria.
E a mágica aconteceu novamente, só que de outra maneira: Astolfo estava levitando.
Sabe como é ?
É assim: os pés sobem acima do chão e o corpo fica leve como uma pena ao sabor do vento.
Este foi um momento muito curto e, muito comprido parecido com a eternidade, mas...ele era muito sério e mal-humorado, e não ficava bem um grande empresário como ele ficar rindo e levitando. Ao se lembrar disso parou de levitar e catapum... caiu de bunda no chão novamente.
Astolfo se recompôs, limpou a poeira da bunda, tentou fechar a cara, e saiu tão rápido como pode.
As crianças nem perceberam, e continuaram rindo e dançando.
Astolfo foi pra casa pensativo.
Quando a noite chegou ele não conseguia dormir, rolava na cama de um lado para outro. Não queria dar o braço a torcer, mas tinha adorado aquele momento na escola. A música não saia da sua cabeça.
Sua bunda ainda doía e porisso ele lembrou do tombo. Subitamente ele soltou uma gargalhada e começou a levitar de novo. Como estava sozinho, ele sempre estava sozinho, não se importou e continuou rindo. Estava tão bom sentir os pés sair do chão novamente.
Astolfo passou a semana toda intrigado, sem chegar a conclusão alguma. Ficava pensando nas crianças da escola e na sua alegria. E porque era tão bom rir e cantar.
Ele estava do lado da piscina de sua casa, que diga-se de passagem era belíssima, com água de nascente e um belo jardim florido, quando um bem-te-vi olhou pra ele e disse: “bem-te-vi”, “bem-te-vi”.
O aviso do pássaro deu um estalo na cabeça do Astolfo e ele teve uma idéia genial!
Iria propor para a diretora da escola dar aulas de natação.
Astolfo nadava muito bem, com sua mania de ser o melhor em tudo, tinha sido campeão de natação na escola, depois na faculdade, portanto ele seria um bom professor.
No dia seguinte foi para a escola. Pobre Astolfo errou de novo!
Era domingo e a escola estava fechada.
Ainda bem que chegou segunda e ele não perdeu tempo. De manhã, bem cedo já estava na porta da escola vendo as crianças chegarem como faziam todos os dias da semana. Viu Tina, Theo, Wesley e a maior galera chegando.
Quando eles se encontravam era sempre festa e nesta segunda não houve exceção, Tina procurou por Theo e suas mãos logo se tocaram, produzindo aquele efeito mágico de harmonia e prazer, que contagia. Oh! sensação boa.
Naquela escola existia um outro tempo, diferente daquele tempo que a gente vivia todo dia.
Astolfo entrara embalado pela harmonia e pelo prazer magnético de dar a mão. Tina foi para o piano e começou a tocar. Novamente a química entre ela e Theo acontecia. Theo que até este momento estava muito quietinho, só olhando de canto de olho e às vezes com o olho pra trás ligou na tomada musical e começou a movimentar, soltando gritos de prazer. Tina parecia iluminada no banquinho do piano e Astolfo ria e levitava. Quando a diretora chegou, ele não perdeu tempo, mesmo levitando, explicou sua proposta.
Ela ficou calada, pensando, pensando.
De repente deu um enorme grito AAAAHHHHH!
Astolfo se assustou e catapimba caiu de bunda no chão, de novo.
Ela aceitava, mas precisava falar com as mães.
Logo no inicio, as mães discutiram muito, sabe como é mãe né ?
Elas fazem o maior tititi...
Enquanto isso Astolfo resolveu dar uma cara nova a sua casa que era muito escura e fechada. Mandou que fosse pintada de branco com janelas violeta, que agora ficavam abertas para que o sol pudesse entrar, e o mais importante: mandou colocar o piano ao lado da piscina para que Tina pudesse tocar e Theo pudesse se movimentar e dançar.
Na sexta-feira o assunto da escola era um só: o fim de semana na casa de Astolfo. As crianças, as mães, as professoras, a diretora e Astolfo estavam excitadíssimos com a novidade. No sábado de manhã quando as crianças começaram a chegar foram recebidos como reis e rainhas com muitas frutas e flores.
A partir deste momento a casa de Astolfo ficou mais leve e bonita porque todo final de semana tinha aulas de natação, música e dança. Tina, Theo e todos os colegas da escola podiam se encontrar todos os dias e a música dos anjos não pararia de tocar.
Sueli Nascimento
Enviado por Sueli Nascimento em 12/08/2005
Código do texto: T42165
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Sobre a autora
Sueli Nascimento
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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