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A gata da madama

   
Ana Cristina sentiu de repente o seu coração bater mais forte.  À noite tinha caído a pouco e ela estava sentada no beiral da janela quando ouviu aquele som que a deixou encantada.
Curiosa por natureza ela pulou no telhado da varanda, que era fácil de alcançar dali de onde estava, e dele passou para o da casa com outro pulo cheio de agilidade. Foi ali, nessa hora, que viu pela primeira vez o Nestor e na mesma hora soube que estava apaixonada.
Ele era um gato forte e bonito que usava uma calça branca muito elegante, vestia uma camiseta do flamengo e tinha pendurado nas costas, por uma correia de couro, um pequeno violão. Seu miado era melodioso e muito belo.
Na mesma hora ele viu aquela linda gata branca de pelos sedosos e bem escovados, com os seus olhos azuis puxados de siamesa, e foi até perto dela com o seu andar bamboleante que deixava bem claro a sua condição de gato vadio. Perguntou então pra ela:

- Olá doce criatura, estarei eu te incomodando com o meu mia-rolar.

- Não, não está não moço. É que eu fiquei curiosa ao ouvi-lo e vim ver quem mia-rolava com tanta suavidade.

- Se você gosta de música eu vou mia-rolar uma canção e te oferecer.

Dizendo isso ele tirou o pequeno violão das costas, sentou-se em uma das telhas e começou a tocar nas cordas com as suas unhas afiadas. Ana Cristina ficou ali encantada a olhar ele tocar no pequeno instrumento e mia-rolar uma linda canção romântica.
Naquela hora, naquele telhado, começou um namoro entre eles e nasceu um novo grande amor.



Eles namoraram até bastante tarde naquela noite e quando o Nestor saiu a perambular, pelos telhados da vizinhança, levava consigo um sentimento novo e muito bonito em seu coração. Estava apaixonado por aquela delicada e formosa gata de madama.
Vagou por toda à noite, de manhã roubou seu alimento em uma peixaria que tinha ali nas vizinhanças e quando a noite chegou de novo ele voltou para o telhado da casa da madama.
Eles namoraram todos os dias naquela semana, mas teve um que, numa hora em que eles passeavam pelo jardim da casa, a madama os viu. Ela ficou indignada, por sua linda gata estar ao lado daquele gato vadio, e enxotou o Nestor de lá.



Naquele dia a Ana Cristina não tomou o leite que a madama colocou pra ela e passou ele sentado na janela com muita tristeza nos seus olhos rasgados. No outro foi à mesma coisa e a madama preocupada foi ao mercado comprar o alimento especial para gatos, de que sua gata tanto gostava, mas de nada adiantou. Ana Cristina vivia tristonha e abatida, não comia nada e não saia do beiral da janela onde pensava o tempo todo naquele gato garboso com jeito de malandro. Ela sofria por amor.



Alguns dias depois numa hora em que á madama estava sentada em um sofá na sala e olhava cheia de preocupação para a sua gata, ela ouviu um miado que também foi ouvido por Ana Cristina. Ela viu que a expressão do rosto da gata mudou imediatamente, se enchendo de felicidade, e ela pulou na mesma hora para o telhado.
A madama saiu para o jardim e de lá viu, sobre o telhado, a sua gata ronronando e roçando o rosto nos pelos do corpo do gato vadio que ela tinha enxotado dali. Falou para si mesma nessa hora:

- Então é isso que está acontecendo com a minha gatinha. Ela se apaixonou por esse gato vadio e essa era a razão da sua tristeza. Bem, eu acho que esse é um problema bem fácil de resolver.

Ela chamou a sua gata que, mesmo com medo de ser repreendida pela madama, desceu do telhado por que era um animal muito obediente. A madama a pegou no colo e afagando os seus pelos branquinhos falou pra ela carinhosamente:

- Quer dizer que o único mal da minha gatinha é o mal de amor. Nisso a gente da um jeito, minha querida.

Olhou então para aquele gato enorme que continuava lá no telhado, cheio de receio, e falou pra ele:

- Parece que você conseguiu ganhar o coração da minha gata, não é seu safado? Desce aqui bichano. Desce que ninguém vai te fazer mal algum.

O Nestor sentiu a bondade que havia na voz da madama e mesmo com medo dela, porque o tinha enxotado dali, ele resolveu descer. Á madama se aproximou dele, com a gata em um dos braços, com o outro o pegou e falou carinhosamente:

- Hum... Até que você é um gato bastante bonito. Um bom banho e uma bela escovada vão melhorar muito com você e daí então eu vou deixar você namorar a Ana Cristina.

Quando o Nestor ouviu a madama falar em banho teve vontade de pular do braço dela e fugir, mas não o fez. Como todo gato vadio ele nunca tomava banho, só que sabia que se fugisse ia ficar sem a namorada e resolveu ficar.
A madama tirou dele aquelas roupas, tão esquisitas para um gato usar, e deu um banho bem dado nele, escovou os seus pelos bem escovados, colocou em seu pescoço uma fita igual a que a Ana Cristina tinha no dela e o soltou no jardim, ao lado da gata, dizendo:

- Pronto, agora podem namorar.



Alguns meses depois a madama estava sentada num banco no jardim da sua casa e olhava sorridente para os seus gatos que passeavam pelo telhado. O Nestor tinha perdido aquele andar bamboleante, que marcava a sua vadiagem, e caminhava agora cheio de imponência ao lado da linda gata branca. Atrás deles iam brincando, tropeçando e rolando pelas telhas, quatro lindos gatinhos.
Nas fitas que o Nestor e a Ana Cristina usavam no pescoço a madama prendeu, no dia em que os nasceram os gatinhos, uma aliança de ouro em cada uma delas.

CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 10/09/2007
Código do texto: T645845

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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