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O Gênio

Era uma vez.....  Bem!  Vamos deixar pra lá essa história de “era uma vez”!  Morávamos numa bela casa,  na verdade  uma mansão, ficava lá para os lados da Serra da Cantareira.  Éramos em cinco; meus pais, minha irmã, meu irmão e eu, além de duas empregadas.  Na parte da frente da casa havia  um imenso jardim, nos fundos; além das dependências das empregadas e da piscina, um grande pomar a horta e a quadra de basquete. Tínhamos uma vida farta, meu pai nos dava do bom e do melhor.  Em meu armário, boas roupas e calçados, mas eu preferia jeans e os tênis velhos.  Meu irmão cursava a faculdade de engenharia no interior, eu e a mana freqüentávamos a melhor escola. Ela ia sempre muito bem nos estudos, mas eu? Ora! nem é  preciso perguntar; era o pior da classe.

A primeira quinzena de novembro já havia terminado restando, portanto, duas semanas para as provas finais da oitava série.  Aos trancos e barrancos e com a ajuda de minha irmã que fazia meus trabalhos escolares, eliminei a maioria das matérias, porém faltava uma e essa não seria nada fácil; Geometria! Justamente Geometria!  Restavam somente duas semanas derradeiras para que de alguma forma eu conseguisse aprender a enormidade de fórmulas e conquistar a nota 9 na prova final.  Eu que jamais havia passado da nota 3, teria que conquistar   9, caso contrário adeus acampamento de férias e o que era pior, não ganharia a tão sonhada moto que meu pai havia prometido se eu concluísse com êxito a oitava série. Além disso, estava marcada para o início de dezembro, logo após as provas, a final do campeonato de basquete.  Nossa equipe era a melhor do colégio, se bem que eu ficava a maior parte do tempo no banco de reservas.  Eu estava no time por puro acaso; quando fizeram o sorteio dos jogadores no início do ano, apesar dos protestos dos outros membros da equipe, passei a fazer parte dos “Verdes”.  Só entrava na quadra quando não havia outra alternativa para o técnico; mesmo assim era só eu encostar a mão na bola e lá vinha vaia da platéia.

Sempre fui um sonhador, quase sempre deixava meus pensamentos flutuarem imaginado-me estar sendo carregado nos braços de uma multidão ouvindo seus gritos; “campeão”, “é o nosso herói”, “o melhor jogador de todos os tempos”.  Em meu sonho, logo depois eu subia em minha moto e a Patrícia,  a loira mais bonita da escola, subia na garupa e saíamos em disparada.  Mas logo depois eu despertava de meu transe e olhava para o livro de Geometria sob a mesinha da varanda; a soma do quadrado dos catetos é igual.....Ora! Sei lá!

Eu estava angustiado, sabia que não conseguiria; adeus moto, adeus acampamento, adeus campeonato, adeus Patrícia! – pensava.   Atirei o lápis sobre a mesinha e desesperado gritei:
- Um gênio! Preciso da ajuda de um gênio! – supliquei, mesmo sabendo que não existem gênios no século XX.
Segundos depois dos gritos, o interfone tocou.  Tocou pela segunda vez.  Nenhuma das empregadas foi atender.  Tocou novamente e deixou-me irritado:
- Alguém pode ir atender a porta! – reclamei aos berros.

Passaram-se alguns minutos e ninguém parece ter me ouvido.  O interfone tocou novamente, voltei a gritar:
- Ninguém vai atender o interfone?  Será que não percebem que estou estudando?  Depois querem que eu tire 9 em Geometria!

Mais uma vez meus gritos não sortiram efeito.  Levantei-me da cadeira e atravessei vagarosamente o imenso jardim em direção ao portão de entrada.  Com muita preguiça abri o portão de madeira.  Avistei a figura de um homem bem esquisito, parecia ser hindu, pois usava turbante:
- Pois não! - Exclamei.
- Alguém me chamou? Eu sou Gladir, o gênio da......

Não deixei o  homem terminar de falar.  Um gênio! Tudo o que eu precisava era de um gênio, pensei.  Lógico que eu nunca acreditei em gênios, mas se o acaso e minhas súplicas tinham colocado um gênio a minha disposição, eu não podia desperdiçar a oportunidade.:
- Entre Gladir! Entre por favor, estava mesmo a sua espera, - falei eufórico.

Logo que entrou, ficou por alguns minutos admirando o enorme jardim, depois falou:
- É, parece que vou ter muito  que fazer nas próximas duas semanas.
- Talvez, - falei. -  Mas você é um gênio e para os gênios tudo é fácil.
- Nem tudo, - falou Gladir. -  Sempre é preciso dedicação e vontade nas coisas que fazemos.

Fomos caminhando lentamente até a varanda, ofereci uma cadeira para que Gladir se acomodasse, logo depois comecei a falar:

- Muito bem Gladir, vou logo falar os meus três desejos; dentro de duas semanas terei que fazer a prova de Geometria, você vai ter que me ajudar.  No início de dezembro tem a final do campeonato de basquete e preciso de uma mão, quero também...
- Quem está aí? – perguntou minha mãe enquanto se dirigia em nossa direção.

O gênio levantou-se e pensei que estava tudo acabado, mas:
- Perdão Senhora, deixe eu me apresentar; meu nome é Gladir, o Gênio da....
- Ah! Finalmente você chegou.  Tenho boas referências a seu respeito, como pode notar, nosso jardim está precisando de cuidados.  Quero tudo muito bem arrumado para o reveillon....

Minha mãe acabou confundindo o gênio com algum jardineiro qualquer.  Diante do silêncio de Gladir, pensei que seria melhor assim, pois dessa maneira eu não teria que dar grandes explicações sobre sua presença em nossa casa.

Permaneci sentado enquanto minha mãe caminhava ao lado de Gladir pelo jardim.  Ela apontava as roseiras e explicava como queria os canteiros.  Uma das empregadas mostrou-lhe o quarto onde deveria dormir, pouco depois ele voltou para o jardim carregando ferramentas.  Começou a aparar a cerca viva, então me aproximei:
- Você entende disso Gladir?  Não vá fazer besteira, pois apesar de ser um gênio, minha mãe te mata se você estragar a cerca, - falei em tom de gozação.
- Deixe comigo Murilo, sua mãe ficará satisfeita e você também!
- E quando vamos começar? – perguntei
- Começar o quê? – perguntou como resposta.
- Ora o quê! Quando você vai fazer com que eu aprenda Geometria e consiga tirar 9 na prova?  Lembre-se de que só faltam duas semanas!
- Geometria?  Acho que não sei nada sobre Geometria! – exclamou Gladir para minha total surpresa.
- Ora! Só me faltava essa!  Peço um gênio para me ensinar e ele não sabe nada sobre Geometria! – exclamei desanimado.
- Hei! Não fique zangado rapaz!  Eu aprendo fácil as coisas.  Enquanto eu podo a cerca, vá falando sobre Geometria, tenho certeza que vou aprender.
- Falar sobre Geometria?  Você quer que eu leia aquele livro inteirinho?  Pensei que era só você estalar os dedos e tudo estaria resolvido!
- Tenha paciência Murilo, leia o livro que eu vou entender logo sobre o assunto.
- Ta bom, - falei.  Vou começar a ler agora mesmo, só quero ver se vai dar certo!

O primeiro capítulo foi sobre quadrado e retângulo, tive que repetir várias vezes para o gênio que para se obter a área do quadrado era necessário elevar à segunda potência a medida do lado e que no retângulo era diferente, bastava multiplicar a medida de um dos lados pelo outro.  Gastei o resto da tarde falando sobre a diferença entre área e perímetro,  finalmente ele entendeu.

No dia seguinte terminamos o capítulo sobre círculos e Gladir aprendeu que para se medir o comprimento de uma circunferência era necessário multiplicar o raio por duas vezes o valor de Pi.  Ele também conseguiu terminar de podar o cedrinho.  A cerca ficou perfeita, todos ficaram admirados com sua habilidade.

Quando o sol baixava no final da tarde, Gladir rumava para a horta.  Enquanto ele regava as verduras e legumes eu tentava acertar a bola na cesta da quadra de basquete.  De cada dez tentativas, eu acertava no máximo uma.  Certo dia atirei a bola com raiva para longe da quadra, Gladir percebeu e veio falar comigo:
- O que houve?
- O que houve? Você ainda pergunta? Eu fico tentando acertar a cesta e você não dá a mínima!  Acho que arranjei um gênio fajuto!  É tudo perda de tempo, não vou conseguir nada se depender de você!
- Está bem! – exclamou.  E o que você quer na verdade?
- Ora!  Você sabe muito bem o que eu quero.  Preciso conseguir 9 na prova, preciso ganhar o campeonato, ser herói da quadra, preciso.....
- Calma rapaz!  Uma coisa de cada vez!  Pense em Geometria, ela pode nos ajudar também aqui na quadra.
- Ora Gladir!  Geometria não tem nada a ver com basquete! – exclamei.
- Você é que pensa Murilo! Não conheço muito sobre basquete, mas já percebi que é tudo uma questão de Geometria, - falou calmamente.
- Então me explique gênio!  O que tem a ver Geometria com basquete? – perguntei não lhe dando crédito.
- Me responda Murilo: o que é uma bola?
- Ora!  Uma bola é uma bola!
- Será? – perguntou ele. - Uma bola não é uma figura geométrica? Não é uma esfera?

Tive que concordar com Gladir; a bola é uma esfera, a quadra é um retângulo, o aro da cesta é um círculo e acertar ou  não a bola na cesta depende do ângulo que usamos para fazer o arremesso.  Começamos a treinar.  Fui aperfeiçoando o ângulo, calculando a distância e a velocidade.  De cada dez arremessos, já conseguia acertar 4, no dia seguinte 5.

Algumas vezes eu almoçava em companhia de Gladir na cozinha, ficava admirando seus hábitos alimentares.  Ele quase nunca comia carne, preferia verduras e legumes.  Um dia,  observando-me almoçar hamburgers com refrigerante ele perguntou:
- Você não gosta de legumes e verduras?
- Verduras? Isso é coisa de velho! – exclamei.  Prefiro hamburgers, batatas fritas e refrigerante.
- É uma pena! – exclamou -,  que com tantas verduras, frutas e legumes no quintal você prefira sanduíches.  Veja seu rosto, está cheio de espinhas!
- E o que tem a ver hamburgers com espinhas, Gladir?
- Tudo rapaz!  Você pode até comer os hamburgers, mas é necessário comer verduras para desintoxicar o organismo.  Tente tomar um suco de laranjas ao invés de refrigerantes. Tenho certeza que sua pele vai melhorar.

A partir desse dia troquei alguns hamburgers por saladas e legumes, substituí também muitos copos de refrigerante por sucos naturais, minha pele começou a dar sinais de melhora.
No sábado à tarde minha irmã convidou algumas amigas para tomar sol ao lado da piscina, dentre elas, Patrícia.  De longe mostrei a Gladir quem era a garota dos meus sonhos.
- Então Gladir, o que você acha?
- Linda, Murilo, muito bonita.  Você tem razão em querê-la! – exclamou.
- Bem que você poderia dar um jeito dela gostar de mim Gladir, - falei tentando convencê-lo a fazer uma de suas mágicas.
- Vou pensar em alguma coisa  Murilo, mas primeiro precisamos vencer a Geometria, depois o campeonato!

Terminamos o capítulo sobre triângulos, agora ele sabia que num triângulo retângulo, a soma do quadro dos catetos é igual a hipotenusa elevada ao quadrado.  Ele realmente era um gênio, bastava eu ler algumas vezes e aprendia rapidamente.

A cada dia que passava eu melhorava minha performance na quadra; de cada dez arremessos, 8 cestas!  No domingo Ricardo e Gabriel vieram a minha procura:
- Como é cara, desapareceu?
- Estou estudando para a prova de Geometria,  - respondi, sem contudo revelar que quem estava estudando na verdade era meu gênio.
- Desiste meu camarada!  Nove com a Maria José?  Nem pensar!  Só se for um gênio!  Não perca esse baita domingão, vamos para o shopping paquerar as gatinhas!

Cheguei a pensar em acompanhá-los, mas resolvi dar uma chance ao gênio e tentar tirar 9 com a Maria José,  nossa professora de Geometria.

Finalmente na quarta-feira consegui terminar de ler todos os capítulos para o gênio, mas para meu descontentamento Gladir falou:
- Ótimo! Já que terminamos, temos ainda quatro dias para dar uma repassada em todo o livro!
- Repassar? Você ainda não aprendeu? -  Perguntei desanimado.
- Claro que aprendi Murilo, mas é sempre bom rever tudo, afinal você precisa de 9 e eu vou ter que estar bem afiado para ajuda-lo!

Alternamos a leitura com os arremessos na quadra.  De cada dez eu acertava 9.  Durante as refeições, cada vez mais verduras, legumes e sucos naturais.  Passei a acordar bem cedo, dava várias voltas pelo perímetro do quintal, comia frutas e depois ajudava Gladir a cortar grama ou podar árvores.  Comecei a gostar de mexer com a terra.  Passava o resto da manhã relendo os capítulos de Geometria. Quando o sol baixava, rumávamos para a quadra e sob a orientação de Gladir fazia arremessos.

Viva! De cada dez arremessos, dez cestas! Era inacreditável! Gladir perguntou:

- Quando será a partida final?
- Na quarta que vem, por quê?
- Vocês não treinam?
- Sim, a equipe treina todos os dias, mas como eu sirvo apenas para fazer número no banco de reservas, fui dispensado do treino!

No sábado terminei de ler o livro pela segunda vez.  No domingo eu estava aflito, pois no dia seguinte seria o dia da prova..  Gladir me tranqüilizou:

- Tire o dia para descansar, penso que já estou apto a ajudá-lo!
- Cheguei a telefonar para alguns amigos a fim de convidá-los para a paquera no shopping, mas todos eles estavam ocupados:
- Sair? Nem pensar! Amanhã teremos a prova com a “ jararaca” e nem peguei no livro ainda.  Preciso tirar 5, fico imaginando você que vai ter que tirar 9!

Aproveitei o domingo para treinar arremessos.  Foi incrível! Dez cestas em dez arremessos.  Eram cada vez mais raros meus erros.  À noite eu estava com o corpo exausto, mas confiante.  Quando acordei na segunda-feira, fui logo falar com Gladir:
- Lembre-se, a prova começa as nove, não falhe!
- Fique sossegado! Faça tudo o que souber, o resto deixe para mim, - falou sorrindo.

Entrei na classe, o clima era tenso, ninguém me deu maiores atenções, todos estavam preocupados em rever as fórmulas de Geometria.  As nove em ponto, Maria José e duas outras professoras entraram na classe.  Logo que me viu foi falando:
- Murilo, você vai se sentar aqui na primeira carteira. Quero estar de olho em você o tempo todo.  Lembre-se de que não haverá cartão amarelo.   Qualquer tentativa de cola é “zero”!  Isso vale para todo mundo! – exclamou com firmeza.

Levantei-me de onde estava e sob discretos risos de meus colegas de classe, me dirigi para a carteira escolhida pela professora.  Coitados, - pensei -, mal sabia que eu teria um gênio à minha disposição o tempo todo!

As provas foram distribuídas, para dificultar ainda mais as tentativas de cola, havia quatro provas diferentes.  Foi dado o sinal, tínhamos uma hora  de prazo para resolver as dez questões.  Com tranqüilidade fui resolvendo uma a uma, pois me lembrava das palavras do gênio, ....”faça o que souber, o resto deixe para mim”......

Era incrível!  A cada questão que eu via, lembrava-me do que havia lido para Gladir e a solução vinha rápido!  Faltavam trinta minutos para terminar o tempo e eu já havia respondido 8 questões.  As duas últimas eram sobre triângulos retângulos.  Lembrei-me do que tinha lido sobre Pitágoras, de seu teorema; “a soma do quadrado dos catetos é igual a hipotenusa elevada ao quadrado”.

Dez minutos antes do término do prazo para responder as perguntas da  prova, eu já havia acabado.  Fantástico! – pensei. -  Gladir havia me ajudado! Às dez em ponto o sinal tocou e terminou o tempo.  As professoras recolheram as provas rapidamente.  Éramos em 28 alunos na classe, todos ansiavam em saber as notas.  Munidas de gabaritos, as professoras começaram a corrigir as provas.  Meia hora depois, Maria José divulgava os resultados:
- Pedro Aquino; quatro. Você está em recuperação!
- Alexandre; oito. Parabéns!
- Vicente; três. Você foi muito mal!
- Murilo......

Ao chamar pelo meu nome, parece que não só a classe, mas o mundo inteiro, fez silêncio para preparar a gargalhada:

- Murilo; dez. Você tirou dez! Parabéns, você conseguiu!

Não acreditei!  Me levantei da carteira para ver de perto a nota dez no topo da folha da prova.  Emocionado dei um beijo no rosto de Maria José.

Desnecessário falar sobre minha euforia, do portão de minha casa gritei para Gladir:
- Gladir!  Gladir! Você extrapolou! Tirou dez, cara!  Eu só precisava de nove, mas você tirou dez!

Meus pais ficaram maravilhados comigo:
- Escolha a cor da moto Murilo!  - falou meu pai cumprindo o que havia prometido.

Na parte da tarde voltamos à quadra:
- Você realizou meu primeiro desejo Gladir!  Agora restam dois; ser o melhor na quadra e conquistar a Patrícia!
- Está bem, Murilo!  Treine bastante, durante o jogo não se preocupe, faça o que puder, o resto deixe comigo!

A quarta-feira chegou, fui para o ginásio em companhia de meus pais e de minha irmã.  Eles se dirigiram para a arquibancada e eu para o vestiário.  Vesti a camisa “Verdes”, mas parecia ser um estranho para a equipe.  O técnico nem me dirigiu a palavra, não me deu qualquer instrução.

Entramos na quadra, à nossa esquerda os “Vermelhos”, - nossos adversários.  Percorri a platéia com minha visão, além dos meus pais e de minha irmã, um par de olhos me fitava à distância; era Gladir.  Depois dos aplausos os jogadores tomaram suas posições e eu a minha; sentado no banco de reservas.

Durante o jogo o placar se alternava, ora os Verdes estavam à frente do marcador, ora os Vermelhos.  Faltavam cinco minutos para terminar o primeiro tempo quando Marcos, o cestinha de nossa equipe, sofreu uma contusão em sua perna direita.  A partida foi paralisada, Marcos foi obrigado a abandonar o jogo por causa da contusão.  Heitor tomou seu lugar, mas a equipe já não era a mesma.  A dois minutos do final os Vermelhos estavam 13 pontos à nossa frente.

Pedrinho cometeu mais uma falta e teve que abandonar a quadra temporariamente, o técnico dispunha de apenas um jogador para completar a equipe; eu.  Nem mesmo acabei de entrar na quadra e já ouvia pessoas gritando:
- Fora! Tira esse cara!

Eu ansiava em pegar a bola, queria provar a todos minha aptidão.  Como num passe de mágica, a bola caiu em minhas mãos.  Eu estava quase embaixo da cesta.  Arremessei prendendo a respiração, a bola bateu na tabela, rodopiou sobre o aro e veio para fora.  Era uma cesta fácil, mas eu não consegui!  Em conseqüência disso, vaias..... Olhei em direção a Gladir cobrando sua atuação.  Mesmo distante percebi que ele me pedia calma e transmitia confiança.

O capitão do time ordenou que eu ficasse atrás, na defesa.  Os “Vermelhos” atacaram e fizeram mais dois pontos, agora eram 15 pontos de desvantagem.  Quando toquei na bola pela segunda vez eu estava no meio da quadra.  Apesar dos olhares desesperados de meus colegas de equipe, arremessei a bola em direção à cesta.  A bola pareceu demorar uma eternidade em seu percurso, mas foi direto para o centro do aro; 3 pontos!

O técnico dos vermelhos pediu tempo, eu me dirigi com os outros para receber instruções e um possível incentivo do nosso técnico, mas ao invés disso;
- Não faça mais loucuras.  Se por acaso tiver a bola em suas mãos, passe rapidamente para outro jogador!

O jogo reiniciou, dessa vez tomei a bola do adversário e atirei para a cesta mesmo estando de costas; mais três pontos.  Logo depois um outro arremesso e mais três e outro!

Terminamos o primeiro tempo empatados, eu estava certo de que seria escalado para o segundo tempo, mas não foi o que aconteceu:
- Foi pura sorte rapaz! – exclamou o técnico. Não posso arriscar o campeonato!

Voltei para minha posição de titular, isso é, no banco!  A segunda parte do jogo foi bem equilibrada, mas faltando dois minutos para o final os “Vermelhos” voltaram a ficar seis pontos à nossa frente.  Durante uma paralisação ouvi um grito, a princípio débil:
- Murilo!  Põe o Murilo!

Logo depois outros gritos se juntaram àquele, e em segundos o ginásio todo gritava meu nome.  Vendo-se acuado o técnico fez sinal com sua cabeça para que eu entrasse na quadra.  Tão logo tive a bola nas mãos, arremessei:
- Cesta!  Três pontos!

Agora 4 pontos nos separava da vitória.  Gabriel fez uma jogada sensacional e marcou mais dois pontos. Os vermelhos estavam 1 ponto à nossa frente, faltavam apenas dez segundos.  A torcida adversária começou a contagem regressiva.  Os vermelhos prenderam a bola:

- Nove, oito, sete......

Olhei desesperado em direção a Gladir, ele acenou para mim.  Corri em direção ao jogador adversário que estava com a bola, arrebatei-a das mãos:

- Quatro, três, dois, ........
- Cesta!  Cesta!  3 pontos!  Vitória dos Verdes!

Meu segundo sonho se realizou, saí da quadra carregado pela torcida:
- É o maior!  Fantástico!  Coisa de gênio!

Cheguei até dar autógrafos, em instantes me tornei o astro da escola, mas mal sabiam todos que um gênio estava por trás de tudo.  Por falar em gênio, no dia seguinte, depois de agradecer a Gladir, cobrei dele meu terceiro e último desejo: conquistar Patrícia!

Ele ficou a olhar-me dos pés à cabeça, depois falou:
- Não será difícil, mas você terá que seguir alguns conselhos.
- Fale Gladir!
- Quando vai vê-la novamente?
- Amanhã!  Ela vai sair  com minha irmã para ir ao costureiro experimentar o vestido que usará Sábado no baile da vitória dos Verdes!
- Está bem!  Você irá convidá-la para acompanhá-lo no baile!
- Você está louco Gladir!  Ela vai rir de mim!
- Não se você seguir meus conselhos.  Pelo que pude perceber Patrícia não gosta de moleques.  Vá até o barbeiro e apare os cabelos, troque esses tênis por sapatos bem engraxados, vista uma roupa bem passada.    Tome  coragem e fale com ela, o resto deixe comigo!

No dia seguinte segui os conselhos de Gladir.  Quando Patrícia chegou para encontrar-se com minha irmã, fui recebê-la no portão.  Fiz figa com os dedos e arrisquei:
Você gostaria de me acompanhar amanhã no baile?Eu?  - perguntou ela, parecendo estar espantada com o convite.
- Sim, você.
- Claro!  Claro Murilo!  Ficarei feliz em estar ao lado do herói do jogo, do gênio.
Aquele baile foi inesquecível, pois foi lá que tudo entre Patrícia e eu começou.  Ao acordar no Domingo fiquei triste em saber que Gladir havia partido.  Quando estava tomando o café da manhã na sala do almoço vi um cartão de visitas, ao tomá-lo em minhas mãos fiquei surpreso, pois estava escrito:  Gladir – O gênio da Jardinagem!
Laerte Russini
Enviado por Laerte Russini em 28/10/2007
Reeditado em 05/04/2009
Código do texto: T713553
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Sobre o autor
Laerte Russini
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