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O CÃO INDECISO

Era uma vez um cão que não tinha dono. Magro, ele vivia pelas estradas comendo o que encontrava pelo chão e dormindo ao relento. O pêlo branco era marrom de tão sujo. Os moleques, dos lugares por onde ele passava, riam e ameaçavam correr atrás dele só para vê-lo sair em desabalada carreira.

Um dia o cão chegou a um lugar divido por um rio. Sentou-se e ficou olhando para o outro lado como se quisesse atravessar. Do outro lado havia uma casinha de sapê na qual morava uma menina com os pais. A garotinha, olhando para a margem direita do rio, viu o cão. Com um apito ela chamou o animal. Ele jogou-se na água, e chegando até a menina, recebeu comida, carinho e um banho que fez aparecer a sua verdadeira cor.

Mas, na margem direita do rio, havia uma casa feita de tijolos, e a menina, que ali morava, também viu o cão, porém não lhe deu importância. Numa manhã de sol quente, a garotinha do lado direito, sentada à margem do rio, viu, do outro lado, o cão branco brincando com a pequenina do lado esquerdo. Ela, falando consigo mesma, disse:

“Aquele é o cão feio que parecia marrom e que estava sentado aqui, bem na frente a minha casa. Portanto ele me pertence.”

E trilou um apito forte. O cão largou a brincadeira e, jogando-se na água, foi ter com a menina da direita que o encheu de comida e de carinhos. As duas crianças, então, fizeram um acordo: um dia o cão ficava na margem esquerda, outro na direita, e um dia ele teria de escolher onde queria viver para sempre. O tempo foi passando e os cuidados, dispensados pelas duas crianças, fizeram dele um cão gordo e preguiçoso.

Tempos depois, estando ele do lado esquerdo do rio, ouviu soar o apito do lado direito. Lembrou-se que era o dia da escolha. Afoito, lançou-se na água para atender ao chamado, mas quando estava bem no meio do rio trilou o apito do lado esquerdo. E agora? Resolveu voltar. O apito do lado direito soou com mais força.

“Meu Deus! O que eu faço?” murmurava ele, no meio do rio, igual a uma barata tonta. Seu cérebro soltava faíscas de tanto que pensava sem tomar decisão alguma:

“Eu amo a menina da esquerda, assim como amo a da direita; gosto da casa do lado direito e da do lado esquerdo... e se for a do lado direito a melhor...? Será que posso viver nas duas...? ...esquerda, direita, direita, esquerda...” – martelava a sua cabeça.

Diante de tão crucial escolha, ele não prosseguia nem para a esquerda nem para a direita. Ficou ali na água, como um pedaço de tronco ao sabor da correnteza.
O rio, que já não agüentava mais tanta indecisão, falou com voz trovejante;

“Criatura, se não sabes o que tu queres, se vais ou se ficas, vou te levar para as terras do “Lugar Nenhum”. Lá, talvez, tomes alguma decisão.”

E dobrando a sua correnteza, o rio levou o cão indeciso para bem longe das suas amadas meninas. Tendo perdido a boa vida, o cão dizia a todos que passavam:

“Por causa da minha indecisão perdi meu bom bocado de pão.”

É isso, crianças: - Algumas vezes, por causa da indecisão, perde-se uma boa ocasião.

02/11/07.
(histórias que contava para o meu neto).
Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 02/11/2007
Reeditado em 21/04/2011
Código do texto: T720221

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Sobre a autora
Maria Hilda de Jesus Alão
Santos - São Paulo - Brasil
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Maria Hilda de Jesus Alão