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Quem nasceu primeiro, o ovo ou a pata?


Aqui em Oizumi tem um grande rio em que eu costumo passar horas na sua margem, conversando comigo mesmo em meus pensamentos.
Nesses devaneios sempre surgem indagações filosóficas profundas, que tornam as perguntas de Sócrates, Platão e outros grandes filósofos, coisas banais e sem importância.
Teve um dia em que eu estava sentado na beira de um barranco, com o pé dentro d água, olhando alguns patos selvagens que nadavam em círculo, dentro de um rítmo calmo e compassado lá no meio do rio. Foi nessa hora que surgiu uma grande dúvida para mim.

"Como, só de olhar, a gente pode saber que um pato é pato, ou se ele não é pato, é uma pata?"
 
Procurei por muito tempo por uma resposta, mas como eu não entendo nada de pato me foi impossivel encontrá-la.
Vocês perceberam que eu sou um grande filósofo e quanto são profundas as minhas preocupações? Só que eu também tenho o meu lado prático e sempre encontro respostas inteligentes para as minhas dúvidas.
 
"Só de olhar é dificil", eu pensei, "mas se a gente pega um pato pelas pernas, segura ele de cabeça pra baixo e olha se ele tem pindem, fica fácil. Se o pato tiver pindem é que de fato o pato é pato, mas se ele não tiver pindem é porque o pato é uma pata"
Viram o quanto eu sou inteligente e com que facilidade eu encontro respostas para problemas de dificil solução?

Teve uma hora em que um pato abandonou a formação circular em que os patos nadavam e foi para um banco de areia próximo, sentou-se bem no centro dele, onde permaneceu por todo o tempo em que eu fiquei ali. No outro dia, quando eu lá voltei, vi que o pato estava sentado no mesmo lugar.

"Será que esse pato é um pato filósofo", eu pensei. "Estará ele pensando nos problemas existenciais dos patos, indagando a si mesmo quem é que foi que nasceu primeiro, o ovo ou a pata?"

Todos os dias daquela semana eu lá estive, e sempre encontrei os patos nadando como se bailassem sobre a água. Só aquele pato estava sempre sentado quieto, dando a impressão que passava ali as suas horas a meditar.
No sábado, quando eu lá cheguei, eu vi que o pato não estava mais no banco de areia.
Sentei-me perto da margem e pouco tempo depois surgiu um pato, a alguns metros de mim, caminhando pomposamente. Era o mesmo pato que eu vira o tempo todo lá sentado. Pela primeira vez eu soube diferenciar, só de olhar, um pato de uma pata.
Seu andar pomposo era acompanhado por três patinhos feios, que caminhavam desengonçados atrás dela os seus primeiros passos.
Aquele pato que eu vira sentado durante horas em um banco de areia, era uma pata que chocava pacientemente os seus ovos.


CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 19/11/2007
Código do texto: T743678

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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