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Renata

Tem uma dúvida cruel me corroendo a alma. Queria agir certo, fazer as coisas certas, mas não sei se o que me ensinaram é assim tão certo. Mas deixa eu me apresentar primeiro, assim você pode me julgar. Oi! Meu nome é Renata Cavalcantte, mas me chamam de Rena. Faz dois meses que fiz 14 anos e nesse dia o cara mais popular da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, pediu pra namorar comigo. É claro que eu aceitei de imediato. E se ele desistisse? As meninas viviam brigando por ele, loucas de amores. Nossa, sério, o cara era tudo. Era um moreno super lindo, cabelo lisinho bem pretinho, rosto de príncipe encantado, olhos castanhos bem apertos que lhe davam um olhar um tanto quanto provocador e corpo de homem sarado, mas é apenas um menino de 16 anos. Se você está pensando que ele não falava coisa com coisa? Se enganou. Ele não era um poço de inteligência, mas mandava super bem nos papos que a gente levava na paquera. Ele era tudo. Eu estava ficando até a fim dele, não era pra ficar? Ele era super romântico, trazia pequenos presentes, flores, chocolate, ursinhos. Era mesmo o maior gatinho. E esse gatinho está comigo hoje.
Bom, voltemos ao momento em que eu fiz 14 anos. Estudo 8ª série do fundamental, tenho uma porção de amigos e, modesta à parte, só a garota mais popular do meu colégio. Não é que eu seja assim tudo isso, é que as meninas desse colégio são muito fraquinhas, não dá pra competir comigo, elas bem que tentaram... Desde esse dia eu tenho me encontrado com o Pedro e tem sido legal. Ele é tudo aquilo que eu sempre disse que meu namorado seria e depois de alguns eu finalmente o encontrei. A gente se dá bem, ele não permite que a gente briga, se alguma coisa está mal, me chama logo pra conversar e resolver tudo e me faz um monte de promessas. Ele quer casar comigo, sabe? Não agora, claro. Mas ele me quer pra sempre. Agora me diz o que eu vou fazer?
Minha dúvida é justamente sobre o Pedro. Ele é lindo, fofo, meigo, inteligente, romântico. Em suma, ele é tudo aquilo que eu queria que ele fosse, entende? Mas não o quero. Estou apaixonada por um colega dele que estuda comigo. Foi ele quem nos uniu, que traz os recados, que fica conversando comigo quando por algum motivo o Pedro não pode aparecer. O João é safado, sacana, sei que ele tem duas namoradas e que não gosta de nenhuma, uma delas é minha amiga, inclusive. Mas o que eu posso fazer?
Outro dia desses mesmo ele me pegou secando-o. foi super chato a cena, mas em vez dele ficar sério e tirar os olhos, ele me encarou, mas fi tão profundo, que eu me senti nua na sala de aula mesmo. E acha que ele contou pro Pedro? Contou nada. Diz que eu sou uma santa, que respeito e amo muito o Pedro. Quando estou com o Pedro e ele vê, diz que a gente foi feito um pro outro, essas coisas todas, mas parece corresponder inteiramente a insistência de meus olhos em tê-lo por perto.
Eis que uma vez estava com meu namorado na praça e ele passou. Nos viu e voltou:
- E aí, parceiro? Ele falou com meu namorado.
- Oi! Ele me disse com ma voz bem sensual. Eu improvisei um oi que talvez ele nem tenha ouvido, mas que com certeza sentiu. Meu namorado, um pouco tonto, nem notou tantos olhares e minha voz presa na garganta. Durante o tempo em que ele ficou ali eu nada falei. Fiquei na minha, observando aquele cara que agora amo.
Pouco tempo depois disse uma desculpa qualquer pro Pedro e fui para casa. Pensar no João estando com o Pedro era martírio demais. Nem eu, nem o Pedro merecemos isso.
- Você está com algum problema, Rena? Ele me perguntou um pouco triste. Eu tinha consciência de que ele adorava ficar comigo e precisava improvisar uma boa desculpa.
- Não estou com nenhum problema. Apenas quero ir pra casa, eu posso, não é?
- Você pode tudo. Eu vou te levar em casa, ta bom?
- Não, Pedro! Eu preciso de um tempo, respirar um ar só meu, pensar em mim, não m entende nunca. Amanhã a gente pode até conversar. Me liga!
Levantei-me e saí. Ainda pensei em olhar pra trás, mas sei que a imagem dele sentado no banco da praça, sozinho, numa noite tão linda como a que fazia me mataria. E, além do mais, não era mentira nenhuma que eu precisava de um tempo, doesse em quem doesse.
Acontece que por forças do destino quem eu encontro? Ele mesmo. O João. Ele me acompanhou no caminho sem dizer palavra alguma, ficou do meu lado até quase eu chegar em casa. Quando estávamos bem perto da minha casa ele me arrastou pra uma outra rua, num lugar um pouco mais escuro e com a experiência que só ele mesmo tem, ele me beijou e nós ficamos ali uns 40 minutos.
Nesse tempo nada dizemos um ao outro apenas matamos um desejo que a muito tempo nos matava. E, quando saciado o desejo, o João foi embora me deixando louca e sozinha. Corri para casa sem saber o que pensar sobre mim, estava eu certa, ou mais errada do que todos do mundo?
O meu grande problema é que o João age como se nada tivesse acontecido. E eu me pergunto se devo mesmo acabar o namoro com um cara tão legal pra tentar conquistar alguém como o João, que não dá importância pra nada na vida. Ele nem me chamou pra conversar nem nada. E continua me encarando, me olhando, me secando. Eu não posso entendê-lo.
O Pedro, não. Ele pediu pra namorar comigo. E namorar hoje em dia é um grande sucesso. Ele é bom, companheiro, lindinho. Ele é tudo. O Pedro é o cara dos meus sonhos, mas eu não consigo ficar louca por ele, eu não consegui me apaixonar por ele, sabe? Sonhar com ele, pensar nele, querer que ele fique comigo pra sempre, querer ele só pra mim.
Tudo isso eu quero que aconteça com o João. E eu me sinto culpada, eu quero amar o Pedro, mas eu to mesmo a fim do melhor amigo dele. Infelizmente, nada posso fazer.
Clara Belmiro
Enviado por Clara Belmiro em 10/03/2006
Código do texto: T121453
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Sobre a autora
Clara Belmiro
Paulo Jacinto - Alagoas - Brasil, 29 anos
30 textos (2944 leituras)
1 e-livros (158 leituras)
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Clara Belmiro