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Na Calada da Noite

Na Calada da Noite



Já esta tarde da noite quando o astuto Half sai de casa, para ele, hoje é mais uma noite de trabalho qualquer, mas mal sabe que essas horas de penumbra que viram vão marca-lo para sempre.

        Como um bom ladrão, Half nunca se esquece de suas gazuas que são pequenas ferramentas de arrombamento e de algumas outras coisas que não podem faltar, como uma corda, um gancho e uma boa faca, caso precise se proteger de um guarda que não esteja dormindo, ou de um cão feroz. Se fossemos contar as horas daqueles tempos como hoje, poderíamos dizer que ele saiu de casa por volta das três da madrugada. As luas não apreciam no céu, o que é ótimo para ocultar um ladrão, mesmo um bom ladrão aprecia essa ajudinha extra.

        Half saiu da região que mora, afinal não é bom assaltar um amigo, pesa na consciência, seguiu para a parte mais nobre da cidade, a área que fica próxima do castelo do rei. Sim, eu sei, parece um pouco de loucura roubar uma casa que fique próxima da guarda real, mas ele acredita em suas habilidades, e também o lucro é muito melhor.

        Furtivamente passa pelos guardas que cuidam da passagem de uma quarta para a outra. Ah sim, as quartas, bem o centro da cidade onde Half mora é dividido em quatro quartas, elas são grande blocos que se parecem com mini-cidades onde tem um administrador que serve o rei, uma guarda própria e tudo mais, já o rei mora num bloco que fica no centro das quatro quartas, perto dele é que fica o resto da nobreza e é ai que nosso gatuno tem sua clientela, por assim dizer.

        O ladrão fica andando pelo bloco analisando as melhores rotas de fuga e as casas que hoje parecem estar mais fáceis. Depois de pouco tempo ele escolhe uma casa grande, de quatro andares, feita de pedra, aparentemente fácil de escalar e de teto plano, essa foi à escolhida também pelo fato dela ser escura, pois isso ira ocultá-lo em sua subida até o teto, onde provavelmente terá um alçapão para dentro.

        Half ajusta suas luvas e botas e começa a subir, como pensava, fácil, pensando bem, fácil até demais. Sem esforço chega ao telhado da casa, que está em um breu total, em cima dos prédios a luz dos lampiões não chega, mas isso não é problema para um bom ladrão. Ele começa a procurar em seus vários bolsos durante um tempo, até que sente o frio toque do metal, retira a mão do bolso e com ela vem um pequeno anel, feito de prata meio azulado e com algumas inscrições nele. Half sempre ao vê-lo lembra de como o conseguiu, afinal quase foi pego por um mago furioso nesse dia, mas logo para de pensar nisso, agora é hora de trabalhar, e sem mais delongas o anel é posto na mão. Após algum tempo uma luz muito fraca começa a surgir do anel, ela não é forte o suficiente para chamar a atenção de alguém que passe pela rua, mas é o suficiente para verificar se no telhado há alguma entrada. Cuidadosamente ele vistoria todo o lugar até achar um pequeno alçapão, obviamente trancado, mas isso não é nada para um ladrão experiente como Half, e com um leve toque de sua gazua na fechadura está pronto, e ela se abre.

        Half coloca sua mão para dentro da casa, mas não muda muita coisa, lá dentro está muito escuro, terá que arriscar e entrar assim mesmo. Sem saber qual é a altura do teto até o piso ele prende uma corda feita de teia de aranha, é teia de aranha, não me pergunte da onde isso veio, pois nem eu sei, mas voltando, Half prende acorda no telhado e começa a descer não muito rápido, assim é melhor para evitar problemas. Depois de mais ou menos dois metros e meio, pelo calculo dele, o ladrão chega ao chão, sem enxergar nada. Mesmo com o anel é muito difícil ver algo, até parece mágica, foi o que pensou. Bem, depois de algum tempo andando pela sala ele encontra uma maçaneta e com muito cuidado a porta é aberta. Quando finalmente coloca os dois pés dentro do novo recinto todas as luzes que se pode imaginar dentro daquela sala ascendem e ele fica estático, pois bem em sua frente há um grande hall com varias pinturas, jóias, ouro e prata e muitas outras coisas, mas ele não parece muito feliz, porque bufando em seu rosto há um enorme cachorro de pelo menos dois metros de altura. Half não consegue agir, seus pensamentos não andam, sabe, isso pode parecer estranho, um ladrão experiente como ele pelo menos teria saído correndo ou tentaria algo, mas Half não só estava paralisado, ele estava magicamente paralisado, pois atrás do cachorro, esta sentado, em uma bela poltrona com forro de veludo um jovem de uns vinte e poucos anos, muito bem vestido, que na minha opinião é um mago, apesar de parecer um pouco jovem, mas enfim, com magia desse jeito em tudo.

- Pequeno Halfling estava a sua espera. Cachorro pode vir agora. – E o enorme cachorro volta e se deita ao lado da poltrona. – Venha pequeno, chegue mais perto. – E aos poucos Half começa a sentir seu corpo voltar ao normal, e muito devagar se aproxima do jovem.

- Ah, bem, me desculpe se eu entrei aqui sem pedir, mas não pense que eu vim aqui para rouba-lo... – Half sempre foi um bom mentiroso, mas essa não da pra engolir.

- Claro, que você não queria me roubar, imagina, uma nobre criatura como você não faria isso nunca. – Fala o mago quase na gargalhada. – Mas, isso não é muito importante, pois você veio bem a calhar.

- Como assim? – Half já não tava entendendo mais nada.

- Bem, o meu ajudante saiu de minha residência, há algum tempo, para fazer um pequeno serviço para mim, mas receio que algo deu errado é que ele não voltou até agora, já devia estar aqui.

- Sim, é uma pena, mas o que eu tenho haver com isso?
- Você vai atrás dele para mim.

- E o que eu ganho em troca?

- Continua vivo, halfling insolente, tenta me roubar e ainda quer pagamento.

- Nem uma pecinha de ouro?

- Ah, ta certo! Oh bicho chato, se for tudo bem eu lhe darei alguma coisa.

- Sim, mas o que eu tenho que fazer?

- Vá até esse endereço, – O mago lhe entregou um pergaminho – lá você deverá encontrar um elfo, não se assuste com ele, ouviu? Ele lhe dirá melhor o que fazer. Agora pode saindo, anda, anda.

- Ah! Já vou, já vou. – Enquanto Half ia saindo o mago disse mais uma coisa: Eu estou de olho, ouviu, não faça besteira.

        Half deixou a casa pela porta da frente e se viu novamente na área nobre da cidade, pensou um tempo na enrascada em que se meteu, então para se livrar logo desse serviço obrigatório ele abriu o pergaminho, que por sinal estava todo sujo e rasgado, até parece que o mago não tinha dinheiro para comprar algo novo, mas o que estava escrito que é importante. Nele tinha somente um endereço:

Borda da Quarta Oeste, Rua dos sujos, prédio cinco, décimo andar, porta três.

Era isso que estava escrito, um endereço de um lugar barra pesada, onde coisa boa não tinha, se o mago tinha negócios com gente de lá, só pode ser coisa ilegal, e quem melhor pra negócios ilegais que um ladrão? Talvez um autocrata.

Half guardou o pergaminho e começou sua caminhada para a quarta oeste, passa por algumas ruas do bloco central sem problema nenhum, mas ao chegar perto do castelo real, a guarda começa a se intensificar, então decide ir pelo esgoto da cidade. Há sim, o esgoto, é que antigamente aqui havia uma grande quantidade de mortes por culpa das pestes, e a guilda de magos e feiticeiros mais a os autocratas da cidade decidirão que um sistema de esgoto era indispensável para a sobrevivência dos habilitantes. Então as grandes galerias de saneamento foram construídas por cima das ruínas da cidade antiga que há muito tinha sido soterrada. Como todo esgoto esse não é nem um pouco agradável, o cheiro é horrível, e aquela água podre passando logo ali do lado deixa qualquer um com ânsia de vomito.

        Half já tinha usado o esgoto como recurso de fuga varias vezes e por isso seus corredores já não são um mistério, aqui em baixo ele se localiza tão bem quanto lá em cima. Mais de uma hora o ladrão caminha até chegar em uma escada que fica num túnel sem saída. Ele sobe a escada e sai a poucos metros da rua onde o tal elfo deve estar. Rua dos Sujos, acho que o nome já diz tudo, um lugar horrível de mendigos onde ficam os prédios sem donos, lugar onde qualquer um mora sem pagar nada. Devagar as portas do prédio numero cinco se abrem para Half que fica um pouco assustado de inicio, mas depois reconhece a pessoas que as abriu, um velho amigo de saques que ficou cego ao tentar fugir de um orc bêbado perto de uma cidade mais ao sul. Seu amigo parecia estar muito mal e doente e como ele estava estranhando tudo aquilo passou rápido por ele sem falar nada e subiu as escadas até o décimo andar. Ele chega, cansado, mas chega até lá, para um pouco e descansa antes de fazer qualquer outra coisa.

        Um pequeno corredor com apenas três portas, somente isso no décimo andar, e pelo que Half viu todos os outros são exatamente iguais. No prédio não havia nenhum tipo de tocha e a única luz que entrava ali era por uma pequena janela da onde entra algum raios de umas das luas que resolveu aparecer. Quando o ladrão coloca a mão no bolso para retirar seu anel, uma das três portas se abre e uma luz fraca invade o corredor seguido por uma voz muito peculiar, claramente de elfo, “entre”. Sem muita demora ele se vê cara-a-cara com o elfo, que na realidade é uma elfa, devo dizer que das mais bonitas que já vi, acredito que Half pensou o mesmo. Ela esta, ali sentada bem a sua frente usando uma roupa típica de elfo feita de seda, em sua mão esquerda uma pequena taça.

- Bem, você deve me passar o resto das instruções, correto? – Diz Half.

- Sim, é isso mesmo, você deve procurar por um garoto, um mago mais precisamente, ele esta vestido com um manto azul e carrega com sigo um grande anel de chaves.

- Certo, achar um garoto, não, um mago, com chaves, da pra ser mais precisa?

- Já te disserem que você é muito chato?

- Já, hoje mesmo...

- Se você esperar eu acabar vai ser mais fácil.

- Certo, pode continuar. – Half abaixa a cabeça para prestar melhor atenção as instruções da elfa.

- Ele se encontra um uma taverna na Quarta Leste, você sabe, aquela que reconstruíram há pouco tempo.

- Sim, sim, eu sei qual é. Mas o que eu devo fazer com o garoto?

- Pegue o anel de chaves e leve para quem te contratou.

- Certo.

- Agora, sai que eu tenho mais coisa pra fazer, sai, sai.

- Parece que hoje ta todo mundo abusando de mim. – Diz Half enquanto descei-a as escadas.

    O ladrão sai do prédio com a mesma pressa que entrou, pelo menos agora ele sabe que para onde vai não é um buraco na parte mais pobre da cidade, e sim uma ótima taverna freqüentada só pelo alto escalão, talvez o gatuno possa até faturar um pouco por lá. Half vai andando com calma até sair da Rua dos Sujos e entrar em uma das ruas principais, que são enormes, e nessas horas da noite elas ainda estão movimentadas, pois as tavernas mais populares nunca fecham, e porque deveriam? Pela principal ele segue até a passagem da Quarta Oeste para a Leste e por ali fica até uma das guardas rotineiras passar, nunca se sabe se você está sendo acusado de algo, bem, quando se é ladrão, e é sempre bom garantir. Ela passa e Half segue por mais um tempo até encontrar a tal taverna. Antes de entrar ele arruma um pouco suas roupas e seu cabelo, pra não atrair muita suspeita e entra. Lá dentro um lugar muito bonito, com um grande forno no centro e com varias mesas em volta, muitas pessoas ali dentro, todas de posses, é claro, e num canto, junto com algumas meretrizes esta o garoto, como a elfa disse, vestido de azul com um anel de chaves preso ao cinto. Mais fácil do que imaginava, o mago já estava distraído, o mais difícil já estava feito, agora é só ir lá e rouba-las.

Half começa a caminhar pelo estabelecimento sem chamar muita a atenção, chega no balcão e pede uma caneca de derruba-valentão azul, depois o ladrão se senta em uma mesa próxima a do garoto e relaxa. Fica ali parado só observando o mago e bebendo um pouco, mas é claro, todo bom ladrão estuda seu alvo, principalmente se ele esta com duas belas mulheres com pouca roupa. Aos poucos a caneca vai se esvaziando e a taverna vai ficando ainda mais cheia, o que é perfeito para Half, mais distração para o maguinho facilitando o seu trabalho, se bem que ele já esta distraído o bastante. Chega o momento, ele devagar se levanta, deixa umas moedas na mesa, que pelo visto eram de algum distraído que parou ali por perto, e segue para a porta da rua, o ladrão aproveita o acumulo de pessoas no caminho mais curto para passar por perto da mesa do garoto. Devagar se aproxima e no momento certo provoca um leve esbarro com o mago, que só da uma olhadinha para ele e aceita suas desculpas, sem nem perceber ele que aquelas chaves já estão no bolso de Half.

Algum tempo depois, novamente na frente da casa do mago, Half vai até a porta e entra na casa, passa pelo salão principal que é iluminado somente por uma vela e sobe as escadas. No segundo andar esta o jovem sentado na poltrona lendo um livro com seu enorme cachorro ao seu lado. Quando Half entra na sala ele fecha o livro e dirige seu olhar ao ladrão.

- Muito bem pequeno, parece que você terminou com sucesso a pequena tarefa que eu lhe designei.

- É, até que foi fácil.

- Vamos, pode me entregar.

- Primeiro minha recompensa, você sabe, nada é de graça.

- Olha você é muito ganancioso, mas, fazer o que, tome isso, acho que eu faria o mesmo em seu lugar, não posso culpa-lo. Tome. – O mago pega um pequeno saco que estava ao seu lado e atira para Half. – Ai deve ter umas dez peças de ouro, acho que é mais que o suficiente. Agora me entregue.

- Sim, as chaves. – Half joga o anel de chaves para o mago. Ele pega as chaves e fica olhando um tempo para elas, acho eu que era para ter certeza que eram verdadeiras, afinal não da pra confiar em ladrões.

- É, você já pode ir, e vê se não entra na minha casa de novo, se não eu não vou ser tam bonzinho.

- Certo...

        Half saiu da casa do mago e começou a caminhar para a sua, enquanto ele fazia isso deu uma boa olhada nas moedas de ouro que tinha ganhado como pagamento, é, para ele o dia não podia ter sido melhor, ganhar dez peças de ouro, não é todo o dia que acontece.
                 
           
   




     
Diego Emanoel
Enviado por Diego Emanoel em 22/03/2006
Código do texto: T126908

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Sobre o autor
Diego Emanoel
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 30 anos
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