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O Enigma da Esfinge

Eu não sei o que faço aqui... Nem se essa cidade é meu lugar, me sinto estranho, por aqui é tão bizarro... As poucas pessoas que restam acham tudo tão “normal”. Eles não notam que aqui há uma maldade quase que sobrenatural no ar.
        Não consigo me adaptar a esses sons, gritos estridentes e esses barulhos estranhos que nem consigo imaginar a horrível criatura que os produz. Nunca ouvi ninguém reclamar, é quase com se sentissem prazer em ouvir os outros sofrendo, mas eu me pergunto, que outros? Nunca, desde que eu me lembro, nunca vi nenhuma pessoa passando por torturas, mas se bem que ver alguém por aqui é algo raro.

Não há nada para fazer em casa, já me sinto enjoado de olhar essas paredes, sua aparência unida e suja me deixa extremamente desconfortável, mas não há o que fazer para melhorar essa situação. Sabe, melhor eu dar uma volta, quem sabe uma caminhada, ou mesmo uma bebida não me acalme agora como antes.

        Todo o lugar parece tão estranho, quase como se cada vez que eu olhasse para uma parede ela ficasse diferente, como se eu nunca visse a mesma coisa mais de uma vez. Não acredito que não me sinto confortável nem em casa... Acho que uma bebida ia mesmo me ajudar agora.

Saio de casa e vou para o Três e Treze, sei que é um pouco longe, mas vale a pena. Passo pela “Viela das molhadas”, chama-se assim por causa das ninfas que dançam presas em grandes tanques de diamantes, isso é para que todos vejam suas condenações por serem tão belas, é claro, elas sempre estão chorando, mas felizmente eu não ouço, pois esses lamentos ecoam num lugar de resposta que eu desconheço. Presas ali para sempre se mostrando para todos e desejando uma liberdade que nunca chegara, uma tortura eterna, para o deleite de todos.

        A viela tem duas saídas, uma pelo lado norte que vai para “Rua Dançante” e a outra pelo norte mais acima, essa que é por onde eu vou, para as “Grandes escada do céu”. Elas se chamam assim por que dizem ser possível alcançar o céu subindo-as, mas ninguém conseguiu voltar para dizer como é o céu e nem o que ele é, céu, parece algo sem graça, quem sabe uma outra sala onde se ouça mais gritos, isso não me surpreenderia.

Depois de alguns quilômetros de escadas eu logo chego nos “Corredores das gotas”, onde sempre está chovendo, lugar agradável, a água cristalina batendo em meu rosto sempre me fez esquecer do resto desse lugar. Essas são as galerias mais movimentadas da cidade, andando por aqui você tem a certeza que vai conseguir ver alguém, ou alguma coisa. Deve ser por causa das inúmeras tavernas e centros de carnes existem nesses corredores, mas hoje está um pouco diferente. As rameiras que normalmente se trocam nessas bandas não estão aqui? Não sei... Alguém deve ter sumido do descanso.

O Três e Treze não é um lugar muito movimentado, por isso eu gosto, e a bebida é boa. O dono do lugar já é um conhecido meu, o Senhor Trêstrês, muito simpático, sempre disposto a conversar sobre qualquer coisa, sua baixa estatura faz dele uma pessoa engraça, Trêstrês, 33 polegadas, é... Não é muita coisa.
- Sr. Estranho como vai hoje?
- Não muito bem Trêstrês.
- Ah, uma bebida vai lhe fazer bem, muito bem. O que o Senhor gostaria?
- Eu quero hum... Talvez um pouco de sangue fermentado.
- Já vai sair. Sr. Estranho, hoje o senhor parece mais preocupado que o normal, aconteceu algo?
- Sabe Trêstrês, eu estou cansado de todo esse lugar, nada mais me agrada aqui...
- Sua bebida. Sabe Sr. Estranho, o senhor devia subir as escadas, talvez lá você encontre algumas respostas.
- Você ficou maluco? Ninguém nunca voltou de lá, sabe-se o que pode haver no fim daquela imensidão?
- Mas se o senhor diz que aqui não é o seu lugar, talvez não seja mesmo, quem sabe seu lugar não é lá em cima?
- Mas ela nunca acaba. Não sei se é uma boa idéia, nunca caminhei tanto.
- A decisão é do senhor.
- É, a decisão é minha. Sr. Trêstrês, eu já vou indo. Aqui pela bebida. – Deixe na mesa uma pétala de lírio rosa, como sempre.
- Tão cedo hoje?
- É, eu vou pensar um pouco no que o senhor disse...

        Eu deixei o Três e Treze e fui até as escadas, fiquei ali parado por algum tempo com minha bebia entre os dedos. Talvez o Sr. Trêstrês tenha razão, talvez eu não pertença mesmo a esse lugar, talvez eu mereça algo melhor, lá me cima...

Dizem que o primeiro passo é o mais importante e ele foi dado. Eu comecei a subir as escadas com uma força voraz, não sei da onde essa energia veio, mas não me importei, quanto mais rápido eu encontrasse esse tal céu melhor seria. Com o passar do tempo os corredores que iam aparecendo no caminho, pararam de surgir, e mais algum tempo depois nenhum tipo de vida andava por ali, nem mesmo essas pragas de homúnculos.

Não sei quanto tempo levou para minhas pernas começaram a cansar, doer... Com esforço continuei a subir até que ouvi um rugido ou algo assim vindo das escadarias do outro lado do abismo que me separava da parte norte mais alta ainda da cidade. Automaticamente eu lancei meu olhar para a fonte de tal berro. O que eu vi foi uma espécie de estatua de pedra, ou um gárgula com um formato estranho, tinha o corpo de algum felino e a cabeça de uma mulher muito bela. Ela começou a caminhar pelas escadarias e vendo que não conseguiria pular o vão que me separava dela, a criatura de pedra vez surgir duas enormes asas, tão rígidas e pesadas quanto ela parecia ser. Então pulou e com suas asas planou até a minha frente. Fiquei apavorado, sem reação, a única coisa que podia fazer era ficar ali e esperar meu destino. Então que acriatura se aproximou devagar e começou a falar com uma voz delicada como a de uma menininha, pronunciou tais palavras: “Você que ousa subir as grandes escadarias, não corra ou terá uma morte muito mais dolorosa do que se ficar e ouvir minha proposta de diversão”.

- Estou cansado de mais para correr, e o que você quer dizer “morte”? Não conheço essa palavra.
- Vocês da cidade chamam os mortos os que vão para o descanso, mas fez bem em admitir que não conseguiria correr, isso me poupa tempo de caçá-lo. Agora me ouça com atenção esses podem ser seus últimos momentos nessa cidade. Eu sou o oráculo da esfinge, eu sei de tudo que já aconteceu, mas não posso afirmar nada sobre o que vai acontecer, você tem direito a três perguntas quaisquer, é um direito seu por sua ousadia, mas depois vou lhe fazer uma simples pergunta, se você responder corretamente poderá prosseguir, se não, morrerá com muita dor. Você já pode começar com as perguntas.

- O que aconteceu com todos que subiram essas escadas? E eu quero uma resposta bem completa.
- Quase todos morreram aqui, onde você se encontra, pelas minhas mãos, mas os que sobreviveram a minha pergunta morreram mais à frente ao tentar entrar na cidade, somente uma pessoa chegou a passar pelos muros da grande cidade, mas nada sei o que ouve com ele, meu conhecimento não vai além das muralhas do céu. Restam duas perguntas.
- Isso não foi muito completo, mas da pra aceitar. Apesar de eu querer saber que cidade é essa eu prefiro ficar vivo. Então me fale qual é a resposta da sua pergunta.
- Nesse momento é o tempo. Mais duas.
- Como eu entro nessa cidade onde tantos morreram tentando entrar?
- Você não entra, mas se você chegar lá pode acontecer de ser convidado, único jeito. Agora a minha pergunta. Quem eu sou?
- O tempo claro, você acabou de me dizer.
- Pelo visto você não prestou atenção no que eu lhe falei antes de deixar você fazer as perguntas, então é bom que você seja saboroso, pois tenho fome.






   
           
Diego Emanoel
Enviado por Diego Emanoel em 27/03/2006
Reeditado em 22/08/2006
Código do texto: T129062

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Sobre o autor
Diego Emanoel
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 30 anos
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