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Realeza

Ela caminhava pelo corredor sem se preocupar com as outras pessoas, era uma garota descolada, sabia seu lugar, e ele era no topo da cadeia alimentar. Quando passava todos os rostos viravam em sua direção, despertava inveja, desejo e admiração. Todas as garotas queriam ser como ela, todos os garotos a seguiam com o olhar, alguns em segredo de suas namoradas, outros publicamente, mas para ela, qualquer um não bastava.
Entrou na sala, silencio imediato, suas “amigas” a seguiram, não dava bola para as duas, eram apenas mais duas, não havia ninguém como ela, ela sim era especial. Sentou em seu lugar de costume, as conversas isoladas voltaram a surgir e por fim tudo retorna ao normal.
Os professores entravam e saiam da sala, o dia corria, o almoço chegara. Voltou ao corredor movimentado seguida por suas seguidoras escolhidas ao acaso, afinal eram só mais duas, não importa quem a seguia, não existia alguém como ela.
Entrou no refeitório, como sempre todos os olhares foram direto a ela, não vá achar que essa garota chamava atenção por causa do seu jeito de se vestir ou agir, não, pelo contrário. Não usava nada espalhafatoso como as outras, ela não, não precisava se rebaixar para conseguir chamar atenção de algum garoto, era só dizer o nome que ele vinha correndo como um cachorrinho, ela sábia disso e não sentia culpa de usar disso.
Pegou seu almoço e sentou em uma das mesas, sentava onde queria, e o centro do lugar era onde ela queria, assim todos podiam ver como ela era única, mais que única, perfeita.
 Começou a comer, olhava o rosto bobo de cada garoto que a observava colocando sexymente o garfo em sua boca e retirando com um leve biquinho, todos a olhavam, não havia quem não a observasse, afinal, ela era perfeita. Então que seus belos olhos verdes pararam sobre alguém em um dos cantos do grande refeitório, não era como ela, não, isso era impossível, não existia ninguém como ela, mas muito pelo contrario, era apenas um garoto, usando roupas de garoto, lendo algo de garoto. Mas como? Pensou ela ao vê-lo. Ele não a olhou por nenhum momento, isso a intrigou, era impossível, todos a olhavam, eles tinham que olhar, eles deviam olhar.
Durante todo o almoço ela o observou e em nenhum momento ele a olhou. O garoto que lia algo de garoto, apenas lia, nenhuma leitura podia ser mais interessante que ela, quem pararia para ver palavras quando tinha alguém como ela para ser admirada? Se levantou, suas amigas fizeram o mesmo, olhou para todos os lados, todos a olham, era isso que ela esperava, afinal não havia ninguém no mundo como ela, e eles ali deviam se sentir privilegiados por poderem ver alguém assim como ela, perfeita. Olhou o garoto, ele continuava lá, sentando fazendo coisas que garotos cegos ou “garotos” deviam fazer, afinal se fosse o contrario ele estaria olhando para ela. Começou a caminhar, estava muito intrigada, iria tirar satisfações algo assim não era possível. Começou a se aproximar, mas eis que o garoto começou a se levantar e caminhou para outro lugar, como se soubesse que ela se aproximava para falar com ele. Que impetulancia dele! Achar que alguém como ela, simplesmente perfeita iria parar para conversar com alguém como ele!
A aula recomeçou, como sempre o dia passou, os professores entravam e saiam, mas nada de muito extraordinário aconteceu. Sai da sala, suas amigas a seguiam, já estava cansada delas, achavam que podiam ser como ela, caminhando como ela e falando como ela, mas ela era perfeita, ninguém chegava aos pés dela. Então que o garoto que usava roupas de garotos e lia coisas de garotos na hora do almoço passou pela sua frente, novamente ele não lançou sequer um olhar em sua direção, caminhava rápido, ia para a saída, ela não podia deixar ele ir embora, tinha que saber o motivo dessa falta de respeito, afinal não olhar para alguém como ela era no mínimo uma falta de respeito consigo mesmo.
Começou a caminhar, andava o mais rápido que conseguia, mas seus sapatos perfeitos não a ajudavam, afinal ela não precisava correr atrás de ninguém, eles vinham atrás dela, e ela escolhia quem ela queria. Acelerou o passo, mas no corredor movimentado na hora da saída do colégio muitas coisas podem acontecer. Então que alguém surgiu do nada, era só alguém que veio de algum lugar, ele não importava, mas era isso que ela pensava, estava errada, alguém simplesmente alguém passou correndo pelo seu lado, ela perfeita em seu andar graciosamente acelerado se desequilibrou como um cisne abatido por um cruel rifle. O garoto com roupas de garoto nada notou que logo as suas costas ela, tão perfeita, ia perfeitamente de cara ao chão.
Ela tão única caiu no meio do corredor lotado, todos a olharam, como sempre, mas dessa vez a perfeição virou pura diversão, a realeza tinha ido ao chão.
     
Diego Emanoel
Enviado por Diego Emanoel em 20/08/2006
Reeditado em 24/08/2006
Código do texto: T221363

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Sobre o autor
Diego Emanoel
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 30 anos
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Diego Emanoel